PARANOIA SELETIVA

E agora, vão exigir que brasileiros não viajem para o exterior?

A Secretaria de Saúde de Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná, descartou a suspeita de ebola em um paciente que procurou a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da cidade.

De acordo com o superintendente regional de saúde do Paraná, a primeira informação divulgada era a que um brasileiro de 22 anos, com sintomas de febre, náuseas e icterícia, tinha retornado há poucos dias de Serra Leoa, uma das nações da África Ocidental com mais casos de contaminações e mortes por ebola. Por isso, o protocolo de suspeita de ebola foi inicialmente acionado pelos profissionais de saúde. Ele consiste no isolamento do paciente e de todos que tiveram contato com ele.

No entanto, segundo o responsável, a informação não foi confirmada e, mais tarde, verificou-se que o jovem não teve passagem por nenhum país africano. Os documentos analisados comprovaram que o suspeito de ter ebola tinha viajado para China, Dubai, Líbano e Itália – nenhuma dessas localidades foi afetada pela epidemia do vírus.

A UPA foi temporariamente fechada e o paciente isolado, mas como o caso foi oficialmente descartado para ebola, o local foi reaberto, de acordo com nota da Secretaria Estadual da Saúde.

O brasileiro não teve a identidade revelada como aconteceu com o paciente africano.

A questão que se coloca, todavia, é se aqueles que histericamente pedem o fechamento das fronteiras nacionais também vão sugerir a proibição de viagem dos nacionais a outros países?

Souleymane teme voltar

O guineense Souleymane Bah, de 47 anos, primeiro paciente internado no Brasil com suspeita de estar com Ebola Ebola teme voltar para Cascavel, no Paraná, devido às manifestações racistas e xenófobas publicadas em redes sociais.

“Ele ficou sabendo que foi identificado pela imprensa e tem receio de sofrer discriminação quando retornar”, contou o infectologista José Cerbino, da Fiocruz, que tratou o paciente desde sua internação no Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas.

O paciente, ao deixar o instituto, pediu discrição aos médicos. Ele não quer ser filmado nem fotografado. A equipe que tratou o guineense avaliou que os procedimentos de segurança foram corretos e correram conforme o planejado, sem risco de uma possível contaminação caso ele estivesse com ebola. Os profissionais continuarão em treinamento.

O vice-presidente da Fiocruz, Valcler Rangel, ressaltou que em nenhum momento houve risco para funcionários e frequentadores do campus de Manguinhos. Desde a semana passada estão sendo realizados eventos na Fiocruz e no Museu da Vida, que fica dentro do campus. Pais e mães procuraram a instituição preocupados com o suposto caso da doença. “Mesmo se houvesse caso de ebola, não haveria nenhum risco de contaminação”, afirmou Rangel.

Manifestações de racismo

Depois da divulgação sensacionalista e dada ao caso de suspeita de ebola, imigrantes negros – africanos e haitianos – têm sido alvo de discriminação e atitudes hostis tanto nas redes virtuais como no mundo real.

Nas ruas, no ambiente de trabalho e, principalmente, nas redes sociais, estrangeiros negros têm enfrentado situações constrangedoras, desde que o guineense foi internado em Cascavel (PR).

“Ouvimos no ônibus pessoas dizendo: vocês têm que voltar o para o seu país. Não fazemos nada, só ouvimos”, relatou o haitiano Marcelin Geffrard, vice-presidente da Associação de Haitianos de Cascavel.

“Um amigo reclamou que um grupo de haitianos estava dentro de um coletivo e as pessoas começaram a olhar diferente. No trabalho, as pessoas afastaram-se deles. Alguns disseram que não sabem como diferenciar os africanos dos haitianos”, acrescentou Geffrard.

Vivendo há dois anos e oito meses no Brasil, Geffrard atualmente trabalha em uma empresa auxiliando a comunicação com compatriotas a serem contratados. Nesse período, disse nunca ter sido discriminado por brasileiros. Apesar da angústia pelos atos discriminatórios, ele disse entender a “preocupação” dos brasileiros. “É pela coisa do ebola. Qualquer pessoa vai ficar com medo. É uma doença muito séria.”

A secretária de Assistência Social de Cascavel, Susana Medeiros, condenou qualquer atitude racista que possa ter ocorrido, mas argumentou que eventuais atos discriminatórios podem ter sido motivados pelo temor causado pela doença.

Segundo ela, a cidade está habituada a receber estrangeiros, inclusive oferece acolhimento e assistência. “Estamos acostumados a receber pessoas de outros países, como o Paraguai, Uruguai, Chile e a Argentina. Nossa cidade é hospitaleira”, pontuou.

“Não podemos generalizar. Se tem ocorrido casos de discriminação e preconceito, deve ser pelo medo das pessoas em relação à doença, apesar de termos consciência de que nada justifica o preconceito”, acrescentou a secretária.

Instituições que trabalham como imigrantes e refugiados afirmam que manifestações de “rejeição” ou “hostilidade” a imigrantes negros têm sido frequentes no Brasil, mesmo antes do surgimento da suspeita do caso de ebola.

Os ataques discriminatórios começam, às vezes, nas redes sociais, onde é mais fácil dizer o que se quer sem mostrar quem se é. O imigrante negro, seja qual for sua nacionalidade, tem sido alvo de preconceito e discriminação. Por mais que se considere razoável, o cuidado para evitar o contágio e a disseminação da doença, em nenhuma hipótese justifica-se o preconceito e a discriminação aos imigrantes ou a quem quer que seja.

As associações em defesa dos imigrantes e refugiados aconselham que estrangeiros que se sentirem discriminados, estando em situação regular ou não, devem denunciar eventuais atos racistas ou de xenofobia. O caminho é o mesmo daquele de que dispõe o cidadão brasileiro vítima de qualquer tipo de discriminação: recorrer aos serviços de disque-denúncia que as secretarias de Igualdade Racial dispõem. Registrar ocorrência na delegacia, defensoria pública, recorrer às instituições da sociedade civil, enfim, agir para que atitudes do gênero não permaneçam impunes ou encobertas.

De acordo com o diretor do Departamento de Estrangeiros da Secretaria Nacional de Justiça, “uma pessoa, migrante ou não, mesmo em situação de irregularidade documental, não pode ser penalizada, estigmatizada até para preservar a preocupação do bem coletivo maior. Para o bem da saúde pública, temos boas práticas de não criminalização da imigração”.

Segundo ele, os países de origem dos estrangeiros devem fazer o primeiro controle da saúde dos viajantes. Mas, no caso em que não haja sintomas na hora do embarque, cabe ao país de destino averiguar – e eventualmente cuidar – da saúde do estrangeiro. “No Brasil, o acesso ao serviço de saúde é garantido a todos os imigrantes. Essa é uma postura que auxilia para a rápida identificação de suspeitos e o seu atendimento”.

(Redação + Agências)

 



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