DO ‘BARBADIAN TOWN’ AO ‘ALTO DO BODE’

A identidade antilhana na região amazônica entre produção e representação.

A presença de antilhanos na região amazônica, mais especificamente nas cidades de Belém, Manaus e o atual estado do Acre, data do final do século XIX – início do século XX.

Tais registros e sua importância no processo de formação desses espaços, principalmente no que diz respeito a Porto Velho, como veremos a seguir, são objeto de estudo de Cledenice Blackman, cuja trajetória de investigação do tema tem início em sua graduação.

Aqui, iremos nos deter a dois de seus artigos: ‘Os imigrantes antilhanos de Porto Velho’ e ‘Cultura Antilhana em Porto Velho’.

Primeiramente é importante salientar o uso da noção de ‘antilhanos’ que, nos artigos de Blackman, se refere de forma genérica às nacionalidades que fazem parte da região das Antilhas / Caribe, de colonização britânica. O termo, aqui, indistingue gênero e idade, tratando a questão migratória dessa população de forma geral.

Madeira Mamoré

O projeto da Estrada de Ferro ‘Madeira Mamoré’ e sua construção (1907-1912) exacerbaram a demanda em mão-de-obra, impulsionando a captação de trabalhadores negros das Antilhas britânicas.

O interessante é que, no início do século XX, os antilhanos tornaram-se o maior grupo de imigrantes nos trabalhos de engenharia e construção não só da Estrada de Ferro Madeira Mamoré, mas também da Estrada de Ferro em Cuba e do Canal do Panamá.

No que diz respeito ao empreendimento brasileiro, a imigração foi bem reduzida nos primeiros anos de construção, sendo o ano de 1910 o período em que a imigração de operários estrangeiros se deu de forma mais expressiva, com posterior declínio.

Dos 6.090 homens que chegaram a Porto Velho em 1910, 494 eram maquinistas, engenheiros, mecânicos, além de outras categorias, de várias nacionalidades.

Desse total, 5.596 eram considerados operários, cuja maioria (39,51%) era proveniente das Antilhas e de Barbados, seguidos por brasileiros e portugueses (29,23%), espanhóis (25,91%) e imigrantes de origem desconhecida (5,34%).

Os antilhanos britânicos partiram de sua terra na esperança de encontrar melhores condições de vida. A região do Caribe protagonizava momentos cíclicos de crises socioeconômicas durante meados do século XIX e XX, fazendo com que a imigração, não somente para o Brasil, como para vários países vizinhos, se tornasse uma alternativa de melhoria social.

Aqueles que chegaram a Porto Velho ocuparam uma diversidade de categorias profissionais, mas, apesar disso, no imaginário popular portovelhense, os ‘barbadianos’ foram associados a ‘trabalhadores negros caribenhos da Estrada de Ferro Madeira Mamoré’.

Ocupações diversas

Dentro e fora do espaço ferroviário da Madeira Mamoré, as ocupações eram diversas. As atividades desvinculadas da ferroviária eram praticadas geralmente pelas mulheres antilhanas casadas com antilhanos ferroviários ou por negros antilhanos que começaram a praticar atividades extras, após a aposentadoria, após terem sido demitidos ou como meio de complementar a renda.

No geral, a realidade encontrada ao chegar não era a mesma que havia sido anunciada pelos agentes contratados pela Ferrovia para convencer os trabalhadores antilhanos a se dirigirem a Porto Velho.

O resumo do artigo ‘Cultura Antilhana em Porto Velho’ começa destacando “a importância cultural, social, econômica e política da comunidade antilhana para o surgimento do município de Porto Velho no início do século XX” – evidenciando, assim, o fato de que o imigrante é, sobretudo, um agente transformador que se relaciona com o lugar de destino. Ao mesmo tempo em que o novo ambiente exerce influência sobre ele – em sua identidade, seu modo de agir em público, etc. – , o imigrante age e reage a ele, transformando-o.

Os antilhanos serviram de base social para o surgimento de Porto Velho. Curiosamente, no início do século XX, a comunidade antilhana contribuiu para o equilíbrio populacional, uma vez que a construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré – que impulsionou tal movimento migratório – era uma obra que se constituía essencialmente por mão-de-obra masculina.

Foi dado o direito, somente aos trabalhadores negros das Antilhas, de buscar seus familiares. Os homens casados trouxeram parte de sua família ao Brasil como resposta à situação difícil que algumas ilhas caribenhas atravessavam.

Eles se estabeleceram, juntamente com suas esposas, parentes, e outros conterrâneos, num aglomerado de casas que deu origem a um bairro em Porto Velho, nomeado ‘Barbadian Town’. Mas, apesar da denominação oficial, o bairro ficou conhecido popularmente, assim como representado no imaginário popular, como ‘Alto do Bode’.

Imaginário racista

A utilização da expressão ‘Alto do Bode’ fez com que algumas tentativas de explicação emergissem, procurando revesti-la de um elemento explicativo e racionalizante. Todas elas mantêm algum tipo de relação explicativa com o bode, que se relaciona de maneira diferente com novos elementos em cada uma delas. Em uma das explicações, a língua falada pelos antilhanos era associada pelos brasileiros ao balido dos bodes, noutra, relaciona-se, no imaginário racista brasileiro, ao cheiro do bode ‘ao mau cheiro característico da raça negra’ (p.2).

A análise desses objetos bibliográficos e documentais feitos pela autora é realizada tomando-se como referência o conceito de representação, que pode ser vislumbrado como determinado essencialmente pelos interesses do grupo que a forja.

Para a autora, a representação é algo “que permite ver uma coisa ausente” (p.3). Ela transcende o discurso e se torna uma prática social e, por isso, não se pode desvincular a representação da esfera do poder e da dominação que produz um duelo – no caso, entre os imigrantes antilhanos e agentes sociais exógenos – por representações sociais.
A comunidade negra caribenha se organizou territorialmente. Entre o ano de 1910 e 1943 aproximadamente, a língua oficial de ‘Barbadian Town’ formado por estrangeiros antilhanos era o inglês. O processo educacional dos antilhanos também se constitui como uma contribuição para a base histórica de Porto Velho, pois existia, dentro do ‘Alto do Bode’, uma escola na própria língua para a orientação dos filhos dos imigrantes.

Além de evidenciar uma preocupação com o aspecto educacional, educá-los na língua inglesa – idioma oficial trazido pelos precursores negros antilhanos – evidencia também uma preocupação cultural, com um viés que aponta para um movimento de resistência. No entanto, deve-se atentar para a dupla intencionalidade que se revela através da escola: ao mesmo tempo em que busca preservar a língua de origem, alfabetiza os descendentes em português, evidenciando a importância da integração a partir do compartilhamento de uma língua comum.

Integração

A presença dos negros antilhanos constitui parte integrante no processo de integração da capital de Rondônia. A arquitetura também foi marcada por influências antilhanas e, por isso, através das representações arquitetônicas é possível vislumbrar uma identidade caribenha que se mistura com elementos ribeirinhos e nativos. Algumas delas – que resistem ao tempo – são visíveis até mesmo atualmente, representando a continuação de uma memória caribenha.

Durante o ano de 1910 até 1943, havia um barracão construído especificamente para abrigar atividades culturais organizadas pelos antilhanos britânicos. Dentre elas, destacam-se as festas, dança, música, jogos, cultos, cinema e comércio.

A parte culinária e comercial era tarefa das mulheres, ajudadas, em grande medida, por seus filhos pequenos. Em relação aos cultos, foi identificada uma tendência ligada ao protestantismo.

No período anterior à organização de ‘Barbadian Town’ não existia nenhuma igreja em Porto Velho. As igrejas protestantes assentaram-se praticamente ao tempo da construção da ferrovia, como consequência do fato dos barbadianos praticarem essa religião. A origem das igrejas protestantes nessa localidade está, portanto, atrelada à identidade negro-antilhana.

O imigrante quando chega traz consigo um arcabouço de símbolos, crenças, religiosidades e culturas. É preciso adaptá-las ao contexto local de forma a incorporá-las a seu novo cotidiano. No caso dos antilhanos de Porto Velho, agrupar-se pode ser considerada uma estratégia para facilitar esses processos.

Ana Carolina Calenzo

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BLACKMAN, Cledenice. Cultura Antilhana em Porto Velho.

BLACKMAN, Cledenice. Os imigrantes antilhanos de Porto Velho.



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