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Árabes perdem espaço para chineses na Rua 25 de março em SP.

Com 150 anos de história, a rua 25 de março, localizada na região central de São Paulo, é considerada o maior centro de comércio popular da América Latina, com 400 mil pessoas circulando diariamente por ali, um milhão no período do Natal. Mas se a rua sempre foi conhecida como a “rua dos árabes” – por conta a forte presença desses imigrantes que iniciaram seus negócios na região no início do século passado –, o cenário vem mudando nos últimos anos.

Levantamento recente da Univinco (associação de lojistas da região) mostrou que apenas 40% das lojas atualmente são administradas pelos árabes, que têm dado espaço cada vez maior aos chineses.

O comerciante Sérgio Zahr, de 70 anos, herdou a perfumaria aberta em 1928 pelo pai e um tio, vindos da cidade de Homs, na Síria. Mas ele só foi trabalhar no comércio depois que o pai adoeceu.

– Eu me formei advogado e só vim pra cá há uns 40 anos. Muitas lojas estão fechando porque os filhos, os netos, não querem mais seguir com o negócio. O sonho de todo imigrante era de que o filho se tornasse doutor. Tenho dois filhos: um é advogado e o outro é engenheiro, não tem interesse no comércio. Isso contribuiu para que algumas das lojas tradicionais tenham fechado nos últimos anos – comenta.

A pesquisadora Juliana Mouawad Khouri, da Universidade de São Paulo (USP), estudiosa da imigração árabe, destaca a ida dos árabes para outros setores da economia considerados mais rentáveis como o ramo imobiliário e a construção civil, além da valorização imobiliária, como alguns dos motivos para a saída dos árabes do comércio popular da Rua 25 de Março.

Segundo a Planta Genérica de Valores (PGV) da Prefeitura de São Paulo, fórmula de cálculo que possibilita a obtenção dos valores venais dos imóveis, em 2014, o preço do metro quadrado na 25 de Março era de R$ 12 mil. O valor é superior ao da rua Oscar Freire, onde o metro quadrado custa R$8.396. Este valor corresponde ao valor venal, base para o cálculo do IPTU.

– Os árabes continuam donos de boa parte das propriedades. Passaram a alugar os imóveis que, muitas vezes, são transformados em galerias de boxes porque é muito rentável – comenta Juliana.

Segundo a pesquisadora, o número de mini-shoppings na região aumentou de 18 (em 2008) para 34 (em 2013), por exemplo.

Mesmo com os preços altos, a demanda por imóveis na região é tão grande que é quase impossível encontrar uma placa de “vende-se” ou “alugue-se” por ali. De acordo com Juliana, não existe nem uma imobiliária que atue na região porque assim que alguém anuncia que vai vender ou alugar um imóvel já se forma “uma fila de interessados”.

Um comerciante da região que preferiu não se identificar afirmou que muitos lojistas tradicionais “perderam o interesse” em prosseguir com o negócio por causa da alta “exorbitante” nos alugueis (os reajustes chegam a 40%) e da carga tributária.

– Nós pagamos muitos impostos. Os chineses que vem pra cá não pagam nada disso. A concorrência com eles é predatória já que vendem produtos falsificados e, por isso, mais baratos. Eles oferecem altos valores pela locação dos imóveis. Desse jeito, os comerciantes antigos preferem alugar pra eles. Passam a viver de aluguel, que é muito mais fácil.

Nas galerias, o aluguel de um box chega a custar R$ 5 mil por mês. Nos corredores, o mandarim é a língua mais falada: esses espaços são ocupados majoritariamente por chineses. Há também a presença cada vez maior de restaurantes que oferecem comidas chinesas e muitos anúncios em mandarim pregados nas paredes. Mas, com os chineses, a conversa dificilmente evolui. Dizem que não falam bem o português ou simplesmente não respondem às perguntas.

A imigração chinesa não é um fenômeno tão recente. Iniciou-se na década de 1980, mas os comerciantes tradicionais da região observam que a “invasão chinesa” se intensificou na região da 25 nos últimos 10 anos. Sobre a presença cada vez menor dos árabes por ali, Sérgio Zahr acredita que a memória ficará por conta dos nomes das ruas adjacentes à 25 de março.

– A memória dos árabes vai ser preservada por meio das ruas. Aqui na região várias delas têm o nome de árabes. Basílio Jafet, Abdo Schain, Afonso Kherlakian, Assad Abdala – diz o comerciante.

Memória

O concurso “Os Árabes e a 25 de Março”, lançado no final do ano passado, promoveu uma mostra cinematográfica para incentivar a produção cinematográfica sobre a cultura árabe e celebrar os 130 anos da imigração. Organizado em parceria entre a Câmara de Comércio Árabe Brasileira e o Instituto da Cultura Árabe, a primeira edição do concurso teve como vencedor o filme “Arabescos: do mascate ao doutor” da cineasta Beatriz Le Senechal.

A obra retrata a história da imigração árabe para o Brasil, das guerras no Oriente Médio do século XIV até o surgimento da comunidade de comerciantes no centro de São Paulo, trazendo depoimentos de imigrantes árabes e descendentes. O curta vencedor foi escolhido por jurados e pelo público.

Beatriz gravou o material como trabalho de conclusão de curso da faculdade de Jornalismo em 2004, mas, ao voltar de uma pós-graduação em cinema na França, resolveu trabalhar novamente com o material.

– O trabalho original era composto por recortes, falava sobre religião, gastronomia. Eu revisitei a produção para fazer a adequação temática – conta Beatriz.

O curta da cineasta concorreu com outros 27, sendo que quatro foram escolhidos como finalistas para eleição pelo Júri Popular. O resultado foi divulgado no dia 25 de março, dia nacional da comunidade árabe no Brasil, comemorado em homenagem ao nome da rua que acolheu esses imigrantes.
Para a pesquisadora Juliana Mouawad Khouri, esse resgate cultural da 25 é importante porque a área sempre foi um “pedacinho do Oriente Médio” em São Paulo.

– Eles escolheram o local por diversas razões, mas, principalmente, porque havia outros imigrantes lá há mais tempo e como o árabe é uma língua muito difícil, preferiam ficar perto dos seus próximos. Conforme o negócio de alguns ia dando certo, iam se ajudando, emprestando dinheiro para que os outros abrissem suas próprias lojas.

Stella Borges

(O Globo – 17/04/2015)



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