SANTA CATARINA, SÉCULO XXI

O recomeço para os atuais imigrantes é permeado por um misto de incerteza e força de vontade, assim como foi para outros, tais quais italianos e alemães.

Sentado na antessala da SRTE-SC (Superintendência Regional de Trabalho e Emprego), no Centro de Florianópolis, depois de quatro dias dentro de um ônibus vindo do Acre, Bredely Senatus ansiava ser chamado para receber o documento que representa um recomeço em sua vida: a carteira de trabalho.

Ao lado dele, 15 imigrantes haitianos esperavam ser chamados pelo mesmo motivo. Todos recém-chegados em Santa Catarina, depois de uma jornada que os consumiu física e psicologicamente, representavam ali no pequeno espaço da seção de emprego e renda do braço regional do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) uma amostra do novo fluxo migratório que movimenta o Estado. Prova disso são os números: nos cinco primeiros meses de 2015, a SRTE emitiu 2.259 carteiras de trabalho a haitianos, mais do que o dobro dos 986 documentos expedidos em todo o ano passado.

O olhar faiscante de Bredely, 26 anos, era muito parecido com o de seus conterrâneos. Eles fazem parte dos mais de cem haitianos – junto de dezenas de senegaleses – que desembarcaram em Florianópolis desde a madrugada de segunda-feira (01/06), depois que o governo acreano assinou convênio com o governo federal para transportar em 22 ônibus os imigrantes que superlotavam o abrigo montado em Rio Branco, capital do Acre, cuja capacidade é de 200 pessoas e onde mais de mil estrangeiros se espremiam.

Aqui, o recomeço é permeado por um misto de incerteza e força de vontade, assim como foi para outros povos que adotaram Santa Catarina, tais quais italianos e alemães. “Quero encontrar logo um emprego, trabalhar e poder ajudar meus irmãos e meu filho que ficaram no Haiti”, contou Bredely, que não sabe se ficará em Florianópolis ou seguirá para Chapecó.

Gente que aqui encontra emprego com facilidade, em postos de trabalho ociosos, em funções que vão da prestação de serviços à indústria pesada, passando pelos abatedouros de frangos e carnes do Oeste até os canteiros de obras no Vale do Itajaí. Em 2013, os haitianos se tornaram, de acordo com o MTE, o grupo de imigrantes com maior presença no mercado brasileiro de trabalho formal.

Naquele ano o número de haitianos aptos a trabalhar no Brasil chegou a 14,6 mil. Um ano depois, esse número saltou para 25 mil, quase metade dos 51.751 documentos concedidos para estrangeiros em 2014. Quando as estatísticas referentes a 2015 forem computadas, o nome de Bredeley estará entre eles. Quando recebeu a certeira de trabalho de cor verde, específica para estrangeiros, seu sorriso resumia a importância de ter o documento em mãos. “Agora é trabalhar”, disse, antes de retornar ao ginásio Capoeirão – onde estão alojados.

Mão de obra bem vinda

A mão de obra haitiana é tão importante para o mercado de trabalho catarinense que no abrigo instalado no ginásio Capoeirão, em Florianópolis, empresários de diferentes setores buscaram informações sobre os recém-chegados. Muitos já foram contratados no ato, e não apenas no Capoeirão, mas também na sede da SRTE, onde alguns imigrantes saíram com a carteira de trabalho e o emprego ao mesmo tempo. “Fizemos um mutirão para emitir as carteiras de trabalho durante a semana e, em alguns momentos, chegavam empreiteiros que já faziam as contratações ali mesmo”, revelou Carlos Artur Mambrini, chefe da seção de políticas de trabalho, emprego e renda da SRTE.

O empresário Laerte Mello, um dos que foram ao Capoeirão, contratou dois imigrantes. Um deles, com curso técnico no Haiti, receberá inicialmente salário de R$ 1.780 para trabalhar de soldador na marcenaria de Mello. “Eles já estão inclusive acomodados em uma quitinete em cima da marcenaria. Começam na segunda-feira”, disse.

As carteiras de trabalho para haitianos têm sido expedidas de um dia para o outro, enquanto os brasileiros esperam entre cinco e 15 dias. Nem todos os haitianos que chegaram recentemente a Santa Catarina conseguiram emitir a carteira de trabalho, pois alguns não têm CPF. Mesmo assim, Mambrini projeta que este ano o número de carteiras de trabalhos para haitianos seja quatro vezes maior do que em 2014. “Se permanecer o movimento dos cinco primeiros meses, a tendência é de que o número se multiplique”, projetou.

Porta de entrada

Só pelo Acre passaram 38 mil imigrantes haitianos desde 2010, segundo informações do secretário de Justiça Nilson Mourão. “A maioria seguiu para Santa Catarina e São Paulo”, informou. Ainda assim as informações sobre o número de imigrantes haitianos em Santa Catarina são desencontradas.

Segundo a PF (Polícia Federal), o número de haitianos registrados no Estado não passa de 3.500. A própria PF, entretanto, confirma que esse número está longe da realidade. “Os registros que temos aqui são apenas dos que pediram refúgio em Santa Catarina, mas a maioria o fez no Acre”, explicou o delegado Ildo Rosa, que cita a região de Balneário Camboriú e Itajaí como maiores polos da presença dos imigrantes.

Os haitianos pagam caro pela viagem, por documentos, por travessias que muitas vezes são feitas com a ajuda de coiotes (como são chamados os agentes que fazem a travessia ilegal de imigrantes) e ainda são extorquidos por policiais, especialmente no Peru. Bredely Senatus passou por isso. “A polícia no Peru nos fazia dar dinheiro para eles, no Brasil isso não aconteceu”, contou, acrescentando que gastou em torno de R$ 10 mil desde que saiu do Haiti para chegar ao Acre, R$ 1 mil com um coiote.

Seus amigos, Willin Joseph, 22 anos, e Herby Simaille, 26, passaram pelos mesmos obstáculos para chegarem ao Brasil. Na quinta-feira, o trio pôde sair da SRTE e caminhar pela avenida Hercílio Luz com as carteiras de trabalho em mãos, algo que os ajudará e muito em conseguirem o que tanto buscam. “Paz e trabalho”, pontuou Herby.

Consórcios’ familiares

Integrante do Comitê Intersetorial de Apoio aos Imigrantes Haitianos em Florianópolis, a psicóloga Marcela de Andrade Gomes explica que muitos dos imigrantes que saem do Haiti vêm através de mutirões das famílias, que se desfazem do pouco que têm e investem todo dinheiro no filho ou filha que virá ao Brasil para trabalhar e enviar dinheiro para o país natal. “Todo mundo junta o dinheiro e dá para ele fazer a travessia. Isso cria uma pressão neles, porque fica a expectativa de que eles deem o retorno desse investimento. E aqui eles vivem para trabalhar e, muitas vezes, até adoecem por isso”, destacou.

Assessora da Secretaria de Direitos Humanos do Acre, Concita Cardoso conta que os imigrantes haitianos gastam entre R$ 10 mil e R$ 13 mil para chegar em solo brasileiro. O governo acreano, em conjunto com o Ministério da Justiça e outros países, pretende montar uma força-tarefa para dar um golpe nas redes de coiotes e, assim, conseguir diminuir os valores gastos pelos imigrantes. “Os coiotes agem principalmente na Bolívia e no Peru, e nós pretendemos em conjunto com esses países fechar o cerco a essas quadrilhas que praticam muitos abusos e violência contra essas pessoas, sem falar que muitos são roubados e ficam sem dinheiro e somente com a roupa do corpo”, disse.

Ida e Volta

Diferente de Bradely, Herby e Willin, o haitiano Makem Noel, 27 anos, chegou a Florianópolis em setembro de 2013, alguns meses depois do irmão gêmeo, Ettiene. No Haiti ele trabalhava como costureiro, ofício adquirido em curso técnico em Porto Príncipe. Aqui, tentou trabalhar no ramo, mas como ainda não falava português não quiseram lhe empregar. O jeito foi trabalhar no mesmo local do irmão, a Marmoraria Catarinense, no bairro Areias, em São José.

Sob a orientação do chefe Alécio Schmitz, logo aprendeu o português e ganhou outro ofício, o de marmorista. “Não sabia nada de trabalhar com mármore, mas fui aprendendo e hoje já faço de tudo aqui na empresa”, contou.

O que o incomoda mesmo é a saudade de casa, da família e dos amigos. Ano passado, a mãe de Makem morreu no Haiti. Ele e o irmão não puderam se despedir da mãe. Questionado se gostaria de trazer outros familiares para o Brasil, ele diz que não. Pretende voltar ao Caribe em no máximo dois anos, para então estar em casa. “O Brasil é bom, mas eu queria mesmo é nunca ter precisado deixar meu país. Sinto muita saudade do Haiti, não vejo a hora de voltar”, afirmou.

Enquanto esse dia não chega, a amizade com Alécio o fez ter um segundo time de futebol em preferência no Brasil: o Figueirense. Ele foi a dois jogos este ano, no clássico contra o Avaí e contra o Botafogo, ambas pela Copa do Brasil. “Eu gosto do Figueirense, meu segundo time. O primeiro é o Corinthians”, contou, um pouco distante do patrão torcedor do Figueira.

Leonardo Thomé

(Notícias do Dia – 05/06/2015)



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