FLAUBERT QUER ESQUECER

Haitiano humilhado no Sul sente-se acuado e só quer voltar ao anonimato.

Se tem uma coisa de que Flaubert não está gostando no Brasil é que aqui ele acabou se tornando um notório. E a notoriedade – motivada por um vídeo viral em que ele é acuado por um homem atarracado, vestido com uma farda de camuflagem cinza, óculos escuros sobre as ventas e boné com a bandeira do Brasil cravado na cabeça – tem lhe deixado inseguro e com medo. Não vê a hora de deixar de ser o frentista com nome de literato francês mais conhecido de Canoas (RS), cidade distante cerca de 20 minutos do centro de Porto Alegre, para voltar a ser só mais um dos sete haitianos que integram o time do Zé Mário Oliveira, gerente do posto de gasolina.

Figura conhecida nas redes sociais por ser um espumante anticomunista e defensor da volta dos militares, Daniel Barbosa é o responsável pelo vídeo que tirou Flaubert do anonimato. “Aqui tem um dos haitianos trazidos pelo governo comunista da Dilma Rousseff”, diz Barbosa encarando a câmera, enquanto o frentista sorri assustado. “Parabéns, irmão. Você é muito competente”, continua ironicamente, para depois sugerir que o haitiano recebeu treinamento militar e que faz parte de um plano de guerrilha encabeçado pelo governo brasileiro em conluio com o Foro de São Paulo para fundar a “pátria grande”. Em publicação antiga na qual promete dar o sangue pelo Brasil, Barbosa aparece urrando “fora comunistas, fora comunistas!” em frente ao Itamaraty, enquanto nos portões do Palácio, a única coisa que se enxerga são os Dragões da Independência fazendo a guarda do prédio. Uma imagem que dá a medida da raiva com que ele age.

Os dentes bem brancos estampados na cara podem parecer sinal de expansividade, relaxamento, confiança. O sorriso fácil, contudo, dissimula a sensação de insegurança que Flaubert tem experimentado desde que foi alvo da humilhação de Barbosa (que não respondeu aos pedidos de entrevista). Nem é preciso conhecê-lo muito para perceber. Basta reparar nas mãos nervosas que se apertam constantemente, nos olhos que procuram a ponta dos pés a todo instante, no riso nervoso que pontua cada frase. Aos 25 anos de idade, apenas 6 meses de Brasil, Flaubert Brutus ainda fala mal o português e (em resposta ao Barbosa) o mais próximo que chegou de qualquer tipo de treinamento durante a vida – descontando os estudos regulares que no Haiti permitiram-lhe lecionar matemática para crianças – foram os 10 dias em que aprendeu a operar uma bomba de combustível, recepcionar os clientes e perguntar a opção de pagamento desejada: “débito ou crédito?”

O Zé Mário, gerente do posto, lamenta o fato de que estava em horário de descanso quando começou toda essa história de vídeo, garantindo que não teria deixado a aproximação acontecer, caso estivesse lá. Por outro lado, conta que apesar de uma preocupação inicial, o caso acabou trazendo mais movimento para o posto. Há coisa de vinte dias, desde que o vídeo foi publicado, está chovendo gente para falar com Flaubert: tem senhora que vai até lá só apertar a mão dele, pedir desculpa em nome dos brasileiros; tem programa de TV, como o CQC, que vai entrevistá-lo; tem polícia civil, como o escrivão Leonel Guterres, que vai apenas avisar que fez um boletim de ocorrência do caso e que espera que o Barbosa seja investigado por xenofobia; e tem também a Frente Canoense pelos Direitos Humanos, que vai fazer panfletaço, pedindo mais respeito e amor.

Apesar das manifestações de apoio, o Flaubert, que sempre foi tido como um tímido pelo chefe e colegas, não vê a hora de isso tudo acabar. Por exemplo, quando marcamos nossa entrevista em local escolhido por ele próprio, não apareceu e desligou o celular. Mais tarde, quando fui ao posto tentar a conversa mais uma vez, ele podia ter colocado a culpa no frio de 5ºC, o mais intenso do ano, por não ter aparecido, mas foi logo se desculpando: “Não conheço os costumes do País, estou assustado, agora todo dia é alguém diferente vindo falar comigo”, disse em créole para o intérprete. Então, o Zé Mário, todo bonachão, ralhando com ele na brincadeira, deu-lhe uma horinha de folga para que a conversa pudesse acontecer. Não ficou claro, contudo, se era isso mesmo o que o Flaubert queria.

Na véspera do Natal do ano passado, deixou filho e mulher grávida em Porto Príncipe, capital do Haiti, para buscar trabalho no Brasil. O caminho percorrido foi o mesmo usado por outros milhares de haitianos: República Dominicana, Colômbia, Equador, Peru e, por fim, o estado do Acre – onde fazem o requerimento de um visto brasileiro e esperam mais uma viagem de ônibus que os levará para o sudeste e sul do País. No caminho, entre passagens e propinas para coiotes, desembolsou US$ 3 mil, dinheiro enviado por sua mãe, que, desde 2012, mora e trabalha nos Estados Unidos. Como foi a viagem? “Prefiro não falar sobre isso, foi tudo muito precário. É difícil recordar”. Como chamam seus filhos? “Prefiro não dizer por questões de segurança”. Você teve de sair do Haiti por causa do terremoto de 2010? “Sim”. Como foi? “Não quero lembrar disso, é tudo muito dolorido”.

Cortada pela BR-116 e por uma linha de trem que liga Porto Alegre a Novo Hamburgo, sede de uma base da Aeronáutica, a fria Canoas é uma cidade barulhenta. Quando não é caminhão, é trem; quando não é trem, é caça. Fica até difícil ouvir o próprio pensamento. Todo esse ruído parece combinar bem com a insegurança em que Flaubert vive. Há 6 meses longe de casa, sua principal preocupação é a obrigação de enviar remessas mensais de dinheiro para a família. Por isso, só deseja que o momento de notoriedade passe rápido, preocupado que está em não perder o emprego. Começando o expediente às 14h e saindo às 22h, ele não vê a hora de arrumar mais um trabalho. Mas e o descanso? “Sem lazer, sem hobby.” Nenhum mesmo? Bom, diz o Zé Mário, nesses dias, o único divertimento de Flaubert tem sido preparar a marmita de arroz e feijão que ele e os colegas comem.

André de Oliveira

(Estadão – 20/06/2015)



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