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Enquanto a Europa se empenha em fechar cada vez mais as fronteiras, o Brasil vem recebendo um número crescente de refugiados.

Nos últimos cinco anos aumentou em 2.000% o número de refugiados que procuraram o Brasil. Se em 2010 a média era de 500 a 600 pedidos por ano, hoje são 12 mil e, apenas no primeiro semestre de 2015, já foram feitas mais de 6.300 solicitações.

Andrés Ramirez, representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados(Acnur), analisa porque o Brasil tem todas as condições para dar um bom acolhimento.

“O Brasil é um país que, se comparado a outros do mundo que recebem refugiados, está muito bem, economicamente. A gente não tem como comparar o Brasil com os países da África ou do Oriente Médio. O Brasil é a sétima economia do mundo. E mesmo se o número de chegadas está aumentando, ainda é pequeno se compararmos com outras regiões do mundo e com a população brasileira, com a economia e o tamanho geográfico”, diz Ramirez.

Política generosa que requer mais estrutura

No mapa geopolítico global, Ramirez contextualiza o Brasil e a Europa em termos de acolhimento de refugiados. Mesmo admitindo que é complicado comparar as duas regiões, ele constata que a situação na Europa é muito grave e que a política para os refugiados é cada vez mais restritiva, ao contrário da brasileira, que é bem generosa.

O problema, segundo o diretor da Acnur no Brasil, é a falta de estrutura do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), que tem que ser fortalecido, e as autoridades brasileiras sabem disso. “A situação de chegada de refugiados está piorando e isso vai continuar, e só vai aumentar”, observa Ramirez, analisando que as crises mundiais, a política restritiva da Europa e a visibilidade do Brasil no plano internacional formam um conjunto que nos faz entender porque o país atrai cada vez mais refugiados.

Legislação moderna

Porta-voz do Acnur no Brasil, Luiz Fernando Godinho explica que esse aumento é resultado da legislação “moderna” do País, mas traz como resultados as dificuldades enfrentadas pelos refugiados em se adaptar ao Brasil.

“O número de pessoas que pede refúgio no Brasil mais do que dobrou nos últimos anos. Além do aumento de conflitos, isso é também explicado pela postura do Brasil em recebê-los. Mas cobra seu preço. O governo sabe que há problemas e está trabalhando para solucioná-los. Alguns dos casos que o governo está se preparando para aperfeiçoar são aumentar a velocidade das análises dos pedidos de refúgio e aperfeiçoar a emissão de documentos”, afirma Godinho.

Por outro lado, afirma o representante do Acnur, os refugiados devem compreender que estão começando uma nova vida em um novo lugar e que irão conviver com a realidade deste novo país. “Se este refugiado é médico, engenheiro, empresário, ele deve compreender que é preciso revalidar o diploma, se adaptar, que não se pode ir contra os regulamentos laborais do Brasil. Sabemos que é uma decisão muito difícil, mas se refugiar é uma escolha do indivíduo, assim como escolher para onde ir”, diz.

Apesar de reclamar dos problemas que os atingem, os refugiados também fazem elogios ao País. “Todos reconhecem a abertura que o Brasil lhes oferece e destacam a tranquilidade em poder recomeçar sua vida aqui. Dizem que se sentem acolhidos”, afirma Godinho.

De onde vêm os refugiados do Brasil?

Marcelo Haydu é um dos fundadores e diretor executivo do Instituto de Reintegração do Refugiado (Adus), sediado em São Paulo, que apoia os recém-chegados na sua adaptação ao novo país. Ponte entre refugiados e empresas, o Instituto oferece aulas de português e cursos profissionalizantes, e apoia administrativamente os que ainda não falam o português.

“As pessoas chegam de 81 países e as que mais nos procuram vêm da Síria, República Democrática do Congo, Mali, Nigéria, Costa do Marfim, Palestina… Esses são os que mais nos procuram”, comenta, concordando com a Acnur no que se refere à falta de estrutura geral para se lidar com a crescente solicitação de refúgio.

“O Brasil não se preparou para a entrada dessas pessoas. São Paulo começa a se movimentar nesse sentido, foram criadas algumas estruturas de acolhimento e albergues, postos de saúde, mutirões com empresas para tentar que contratem os refugiados”, explica Marcelo Haydu, concluindo que tudo isso ainda está muito aquém do que pode ser feito.

Sírios

A dificuldade com uma nova língua e a diferença cultural são alguns dos desafios que os refugiados sírios encontram no Brasil. Mas não são os únicos, nem são os maiores. Aqui, desfrutam dos mesmos direitos concedidos a qualquer estrangeiro: podem estudar, trabalhar e obter documentos. Nessa jornada também encontram os mesmos problemas vivenciados pela população brasileira. Burocracia para obter documentos e para abrir um negócio e falta de segurança são algumas das suas queixas. Mesmo assim, o Brasil foi o país que abriu as portas a eles e é onde podem reconstruir sua vida longe da guerra.

De acordo com informações do Comitê Nacional de Refugiados (Conare), órgão do Ministério da Justiça, 1.894 sírios vivem refugiados no Brasil, que tem, no total, 7.948 pessoas nesta condição. Os sírios correspondem a 23,83%, seguidos por colombianos, angolanos, congoleses, libaneses e palestinos.

Em setembro de 2013, o Conare aprovou uma resolução para facilitar a entrada dos refugiados sírios no Brasil, por meio da qual o governo exige menos documentos do cidadão sírio que deseja vir ao País. Na representação diplomática brasileira do local onde vive, ele recebe um visto de turista com validade de 90 dias e, ao chegar, faz a solicitação de refúgio. Esta, por sua vez, é analisada pelo Conare, que concede ou não o status.

Portas abertas

O engenheiro mecânico sírio Talal Altinawi, de 42 anos, chegou ao Brasil em dezembro de 2013, vindo do Líbano. Ele deixou Damasco com destino a Beirute em janeiro daquele ano. Junto com Altinawi saíram sua mulher, Ghazal, de 32 anos, e os filhos Riad, de 13, e Yara, de 10.

“Pensei em morar na Suíça, Austrália e Estados Unidos, mas não conseguia visto. Quando eu estava em Beirute, pesquisava nas embaixadas e consulados um país que me concedesse refúgio. Todos exigiam vistos e documentos. Quando telefonei à embaixada brasileira, eles me disseram que em outubro de 2013 seriam feitas concessões para os sírios buscarem refúgio no Brasil”, diz Altinawi, em referência à resolução do Conare adotada em setembro de 2013. “Escolhi vir para cá. Não sabia nada sobre o Brasil, um país estranho aos Sírios. As referências que eu tinha daqui eram: café, São Paulo, Rio de Janeiro e futebol”, recorda.

Em seus três primeiros meses no Brasil, Altinawi recebeu a ajuda de um amigo que vive no País há 19 anos e da Caritas Arquidiocesana de São Paulo, que assiste refugiados na cidade. Mas a adaptação não foi fácil. “Foi muito difícil. Tudo era muito novo. A língua, a cultura, os modos de pensar. Aos poucos, está ficando mais fácil. Aprendi o português, meus filhos estão na escola, mas ainda é difícil. São Paulo é muito perigosa, é insegura, a economia brasileira está ruim. Aqui é muito difícil obter documentos, conseguir alugar uma casa”, diz.

Engenheiro da computação, Fadi Mohamed, de 30 anos, chegou ao Brasil em novembro de 2013, mas ainda não conseguiu um bom emprego e não aprendeu a falar português. Natural da cidade de Homs, Mohamed deixou a Síria em 2012 e foi para Alexandria, no Egito. Lá, não conseguiu emprego porque a situação política era tensa em razão da renúncia do presidente Hosni Mubarak um ano antes. A solução foi buscar refúgio no Brasil.

“Foi o país que me aceitou legalmente. O único jeito de ir para a Europa é naqueles barcos de imigrantes. Não consegui emprego no Egito, porque na época em que fui para lá a situação estava muito ruim. Não tinha vagas nem para eles. Sou engenheiro da computação, mas não consigo trabalho. O Brasil abriu as portas, mas não dá apoio. A Europa, quando abre as portas, dá apoio, assistência”, diz Mohamed, que preferiu não mostrar o rosto nas fotos.

Outro refugiado, que não quer ser identificado, deixou a Síria porque para viver lá teria de ser oficial do Exército. “Saí de Damasco em 2012, fui para Beirute, onde fiquei um mês. Também estive na Jordânia e depois fui para Dubai (nos Emirados Árabes Unidos), onde vivi por um ano. Fui ao consulado do Brasil porque era fácil obter um visto para vir para cá. Mas aqui não tem ajuda [do governo] para alugar casa, para que eu possa me matricular em uma universidade. Quando cheguei, tinha que pagar três meses de aluguel adiantado ou apresentar um seguro-fiança ou ter um fiador. Como eu ia ter um fiador?!”, diz o refugiado, que tem 24 anos e é cozinheiro.

 

Filha brasileira

Altinawi deixou a Síria depois de ser preso. Ele ficou três meses detido após o exército prendê-lo no lugar de outro homem, que também se chama Talal Altinawi e era procurado pelo governo. “Quando eles me soltaram disseram que eu poderia ser preso novamente pelo mesmo motivo. Fui embora.”

Aqui, Altinawi trabalhou em uma empresa de engenharia e abriu um quiosque em que vendia roupas infantis, mas nenhum dos dois projetos deu certo. Agora, aposta que suas receitas da culinária árabe farão sucesso. “Uma conhecida disse que eu cozinho muito bem, então decidi apostar na culinária.” Ele já tem uma página no facebook chamada Talal Comida Síria, feita com ajuda de uma jornalista, e já participou de feiras e festas com seus pratos típicos. “Eu gostaria de abrir um restaurante, mas é muito caro e difícil. Por enquanto, continuarei a preparar em casa”, afirma, ao lado de uma máquina utilizada para preparar as massas de esfihas na sala do apartamento em que vive, no bairro do Brás, em São Paulo.

Enquanto aposta na culinária, Altinawi constrói a vida aqui. Os filhos sírios estão matriculados na escola pública e já falam português. Há quatro meses, nasceu Iara, a primeira paulistana da família. Os parentes de Altinawi vivem na Síria, Estados Unidos e Turquia. Apesar da saudade, ele não pensa em retornar ao país. “Se as coisas melhorassem e eu retornasse, teria de começar do zero de novo após ter ficado cinco anos longe da minha vida na Síria. Meus filhos terão aprendido o português e terão crescido aqui. Eu não sei se eu retornaria”, diz. Isso não significa, porém, que São Paulo seja a cidade em que ele quer viver.

“Penso em ir embora de São Paulo, para um lugar mais seguro no Brasil, gosto de Curitiba (a capital do Paraná). Mas o lugar onde há trabalho é São Paulo. Não há lugar melhor para isso no Brasil”, diz.

Mohamed também não pensa em retornar à Síria. “Não tem a menor condição. Se voltar, terei de atuar no Exército do governo”, ele diz. Mas, ao contrário de Altinawi, pode deixar o Brasil se não conseguir um bom emprego. A mulher dele, de 24 anos, chegou há cerca de quatro meses está grávida. “O povo aqui é muito receptivo, me tratam muito bem, mas o emprego é um problema”, afirma Mohamed, que vive em São Bernardo do Campo, cidade da região metropolitana de São Paulo. “Minha mulher ainda está se adaptando. Está grávida. Vamos esperar o filho nascer e, então, decidir o que fazer”, diz.

O cozinheiro que não quer se identificar, também tem encontrado dificuldades para se adaptar, mas pretende insistir no Brasil antes de pensar em partir. “Na Síria eu não poderia ficar. Apesar de eu já ter cumprido com o serviço militar, eu teria que atuar pelo Exército ou então sair do país. Gosto daqui, mas tem coisas boas e ruins. Na semana passada fui assaltado aqui na rua (Barão de Ladário, onde fica a Mesquita do Pari, que o acolhe). Tem muito ladrão aqui e há problemas com drogas”, diz.

(Redação + Agências)



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