MIGRAÇÃO NO FEMININO

Quem são e de onde vêm as mulheres migrantes? Caxias do Sul serve de exemplo para a maior parte do país.

Muito tem se falado sobre os imigrantes. Especula-se sobre as razões, mudanças e consequências das recentes migrações. Estudos acerca do tema ganham espaço na mídia. Todos querem saber de onde vem, o que buscam, como irão viver os imigrantes. Entretanto, o artigo “os” da frase não abrange todos os imigrantes, independentemente do sexo, mas sim eles, os homens imigrantes. Pouco se fala sobre as mulheres, coadjuvantes nas migrações. Nas ruas, em meio a grupos de estrangeiros, elas são minoria. O assunto gera um questionamento: qual o papel das mulheres nesse cenário?

De acordo com coordenadora do Centro de Atendimento ao Migrante de Caxias do Sul, irmã Maria do Carmo dos Santos Gonçalves, atualmente há o registro de 77 mulheres imigrantes atendidas na cidade, número muito pequeno se comparado ao número de homens imigrantes atendidos no mesmo período. “Contudo, é importante destacar que a totalidade dos imigrantes atendidos pelo Centro não representa o universo geral de todos os imigrantes residentes em Caxias do Sul”, ressalta.

Diversos fatores explicam a discrepância entre o número de mulheres e homens imigrantes. Maria do Carmo afirma que, normalmente, primeiro imigram os homens, que depois de estabelecidos buscam trazer a família. “Como a responsabilidade do cuidado dos filhos recai sobre as mulheres, essas ficam para trás”, aponta. Entretanto, não se pode generalizar. Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam para uma crescente “feminização” das migrações, principalmente nas situações vinculadas à migração forçada por guerras e conflitos. Nesse caso as mulheres e crianças costumam ser maioria.

Características

A professora do Centro de Ciências Humanas da Universidade de Caxias do Sul (UCS) e coordenadora da pesquisa Migrações Internacionais no Sul do Brasil, Vania Herédia afirma que as migrações internacionais recentes possuem características laborais, por isso o homem migra com mais frequência. Para Vania, essa decisão tem a ver com a cultura de origem “Em alguns países africanos, onde vigora a poligamia, o homem migra e as mulheres permanecem no local de origem”. Maria do Carmo corrobora o pensamento. “Pode-se observar, por exemplo, que entre os imigrantes oriundos do Haiti – onde os casais são monogâmicos – há muito mais mulheres e crianças do que entre os imigrantes do Senegal”, observa.

Os registros do CAM apontam que a maioria das mulheres atendidas migrou com o marido ou logo após ele ter se estabelecido. Também há mulheres que migraram sozinhas e que deixaram filhos nos países de origem. De acordo com a coordenadora do Centro, o que se observa de modo geral é que o que prevalece no processo migratório é a dor do afastamento familiar.

Porém, nesse sentido sofrem tanto os homens como as mulheres. Boa parte dos imigrantes homens deixaram esposa e filhos no país de origem. “Os casais sofrem por ter deixado os filhos. Eu diria que há uma dor emocional que cresce pelo fato de ser muito difícil o processo de reunião familiar dos imigrantes no Brasil, principalmente para aqueles que não possuem ainda a permanência definitiva”, relata.

Apesar da dor do afastamento, uma vez estabelecidas na cidade, as imigrantes buscam uma colocação no mercado de trabalho, tanto para o próprio sustento quanto para a manutenção da família no país de origem. A grande maioria das imigrantes que estão em Caxias está empregada. “Não trabalhar não é uma opção”, diz Maria do Carmo, que afirma que algumas não estão trabalhando, pois têm filhos pequenos e não conseguiram vagas em creches ou alguém para cuidar das crianças.

No Brasil, muitas das imigrantes deparam-se com diferenças culturais, até mesmo em relação ao papel desempenhado pela mulher na sociedade. Para a socióloga Vania, a mulher brasileira, mesmo que ainda esteja lutando pela emancipação, é protagonista de sua história e tem mais oportunidades para experiências que a mulher africana ou a que vive no Caribe. “A sociedade brasileira oferece muitas oportunidades de mobilidade social à medida que existe a possibilidade de instrução pública para a maioria. As mulheres têm oportunidades de diversas escolhas, apesar de ter influências culturais dependendo do estrato social que se vincule”, afirma.

O perfil da mulher migrante não apresenta muitas variações. Em sua maioria são esposas e mães, que atravessam oceanos para acompanhar o marido. Algumas viajam com os filhos, outras deixam para trás família e amigos, tudo por uma aposta em um mundo novo.

Salut, je m’appelle…

Olhar bondoso, sotaque pesado, fala rápida, boa educação. Essa é Mariama, uma dentre as muitas mulheres que deixaram sua família e seu país em busca de uma vida melhor. Seu nome completo é Mariama – parecido com Mariana, como ela diz – Hyele Badji. Nascida no Senegal, a jovem de 26 anos é mãe de dois filhos. Mariama migrou há um ano e quatro meses para juntar-se o marido, há quatro anos na cidade. Na ponta da língua a senegalesa trouxe o português que aprendeu na escola. Na bagagem vieram alguns pertences e a saudade do filho mais velho, um menino de apenas três anos que ficou com a família.

No último Natal, Mariama e seu marido ganharam um presente: uma filha. Caxiense de nascimento, senegalesa de sangue, a pequena, agora com seis meses, é o motivo pelo qual a migrante não está trabalhando. A mãe afirma que cuidará da pequena até que complete um ano de idade. Seu marido, que trabalhava no Ceasa, há pouco encontra-se na mesma situação que a mulher.

A pequena família de Mariama mora em um apartamento na rua Marquês do Herval. Quando alugaram o lugar, receberam as chaves da imobiliária. Entretanto, o dono do imóvel, ao descobrir que tratavam-se de imigrante, mandou trocar todas as fechaduras. De acordo com a migrante, pequenas ações discriminatórias acontecem, mas não são maioria. “Não passo tanta dificuldade. Além do meu esposo também tenho uma amiga que me ajuda”, relata. A amiga em questão é uma brasileira, chamada Adriana.

Em meio ao preconceito esporádico, a amiga traz conforto entre os milhares de desconhecidos. Muitos deles, segundo a migrante, incapazes de compreender a dificuldade em partir deixando para trás um mundo inteiro. “Estava buscando uma vida melhor. Muitos deixaram o trabalho, a família lá. No Senegal, nos passam uma imagem positiva do Brasil e pagamos muito caro para vir para cá”, conta.

Quando chegou à cidade, Mariama teve que se acostumar com os costumes. Além do frio que afirma sentir, outro ponto com o qual não estava habituada era a individualidade do caxiense. “Lá vivíamos em comunidade, as pessoas eram solidárias. Aqui tenho dificuldade para encontrar ajuda para cuidar da minha filha. No Senegal, todos se ajudam”, relembra. As pequenas diferenças fazem aumentar a saudade que sente pelo filho pequeno que lá ficou.

Para apaziguar a tristeza, a tecnologia entra em cena. Skype, Whatsapp, tudo que a fizer enxergar o rosto e ouvir a voz do menino é bem-vindo. O desejo de trazê-lo existe. Porém, a família está enfrentando dificuldades para retirar o passaporte da criança.

Além das amizades, a religião também conforta. Mesmo que aqui não haja muitos seguidores do islamismo, os senegaleses fazem questão de honrá-lo, ainda que de forma improvisada. Mariama descreve o Islam como uma religião nobre. “Não importa para onde vamos ou onde estamos, a religião é algo que trazemos dentro de nós”, afirma.

De acordo com a migrante, uma mulher no islamismo não pode usar roupas normais – como as que estava usando e costuma usar aqui –, deve cobrir o corpo, deixando apenas os olhos à mostra e não pode dar a mão à nenhum homem além do marido. Em Caxias, os senegaleses alugaram uma casa, onde encontram-se todos os sábados para reafirmar sua fé em Alá.

O sonho de Mariama não é voltar para o Senegal, mas sim ir para o Canadá continuar seus estudos. No país de origem, a jovem estudou durante três anos para cursar enfermagem. Mesmo longe de casa e, momentaneamente, da possibilidade de estudar, a vontade de construir um futuro melhor permanece.

Mariama é apenas uma das tantas mulheres que partiu. Aqui, aumentou sua família. Aqui, continua a escrever sua história, que promete romper diversas barreiras.

Duani Lima

(Novos Migrantes em Caxias – 23/06/2015)



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