FUGINDO DE BOKO HARAM

Nigerianos vítimas de terrorismo começam a escolher o Brasil como refúgio.

Quando Luiz (nome fictício), de 36 anos, perdeu o pai e a irmã em um ataque do grupo terrorista Boko Haram a uma igreja da Nigéria, ele decidiu deixar seu país em busca de um local mais seguro para viver.

Cristão criado em Maiduguri, no Estado de Borno, o nigeriano entrou em contato com amigos que também haviam decidido deixar a Nigéria e vendeu tudo o que tinha na esperança de uma vida melhor. Mas optou por um destino diferente dos demais: enquanto a maioria se arriscou pelo mar Mediterrâneo rumo à Europa, ele seguiu para a Guiné-Bissau e, de lá, embarcou para o Brasil.

“Sempre tive medo do [Mar] Mediterrâneo. Quando saí da Nigéria, queria fugir da morte, e não ir de encontro a ela”, explica ao iG. “Não tinha a intenção de vir ao Brasil, mas havia ouvido falar que o País era receptivo e não perseguia grupos religiosos. Fiz a escolha certa.”

Os nigerianos estão entre os grupos com maior número de solicitações de refúgio em andamento no Brasil. De acordo com o Acnur, até outubro de 2014, 1.150 aguardavam retorno do governo sobre seu status. À frente deles só estavam senegaleses, com 2.164. Ganeses são a terceira maior população à espera de refúgio, com 1.090 solicitações pendentes.

Instalado no Brasil desde 2013, Luiz trabalha e mora em São Paulo. Falante de português, ele afirma ter aprendido, assim que chegou no País, uma palavra que descreve exatamente o que sente ao pensar na família, especialmente quando se trata da mãe, atualmente asilada em Gana: saudade.

“Meu coração fica apertado quando penso nela, por que agora só tenho minha mãe. Mas ela sabe o quanto tenho me esforçado para juntar dinheiro e trazê-la para morar comigo. É meu maior sonho”, diz.

Atualmente, o maior número de refugiados no Brasil vem da Síria. Entre janeiro de 2010 e outubro de 2014, 1.524 refugiados sírios chegaram ao Brasil. Para facilitar a entrada deles, a legislação nacional de refúgio criou o Conare, Comitê Nacional para os Refugiados. Por meio do órgão, foi criada lei que garante documentos básicos aos refugiados, incluindo os de identificação e de trabalho.

Rota incomum

A decisão de Luiz é diferente da tomada pela maioria dos grupos que fogem da violência de seus respectivos países. De acordo com a OIM, Organização Internacional para a Migração, desde o início deste ano, cerca de 153 mil migrantes foram pegos tentando entrar na Europa pelo Mediterrâneo de forma ilegal, um aumento de 149% em relação ao mesmo período de 2014, quando 61.500 tentaram passar pelas fronteiras européias.

Para o pesquisador do observatório interdisciplinar de políticas públicas e professor de economia José Renato de Campos Araújo, esse aumento no fluxo de migratório se deve principalmente ao crescente número de conflitos internos em países da África e do Oriente Médio.

“A Europa é o foco de imigrantes, principalmente africanos, desde pelo menos a década de 1960, por causa da riqueza do continente. Mesmo com a crise europeia, a região ainda é convidativa. Ainda mais porque há um grande número de compatriotas, o que facilita a adaptação”, explica.

Segundo o órgão, o foco dos imigrantes “ilegais” (sic) é a rota dos Balcãs Ocidentais (a fronteira terrestre húngara com a Sérvia), onde o número de migrantes detidos ultrapassou os 10 mil de janeiro a abril deste ano. No período entre 1º de Janeiro e 31 de maio, mais de 50 mil migrantes foram pegos nessa rota, um aumento de 880% em relação ao mesmo período de 2014.

No caso da África, países como Senegal, Mali, Guiné e Gâmbia concentram os maiores índices de imigrantes “ilegais” (sic) rumo a Europa. A maioria deles são homens solteiros na faixa dos 20 anos.

Amanda Campos

(IG – 18/07/2015)

 



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