A BOLA SÍMBOLO

Copa dos Refugiados dá visibilidade e esperança a estrangeiros que buscam uma nova vida nas cidades brasileiras.

“Craque Pelé! Craque Pelé!”, saudou um grupo de jovens torcedores que ocupava as acanhadas arquibancadas do campo de futebol do Centro Esportivo, Recreativo e Educativo do Trabalhador (CERET), na zona leste de São Paulo. O alvo das manifestações não era Edson Arantes do Nascimento, e sim um angolano cuja semelhança com o craque brasileiro é o apreço pela bola.

José Pelé Messa nasceu há 45 anos em Cabinda, na Angola, em uma época na qual a idolatria pelo atacante santista era tão grande que sua presença foi capaz de estancar, mesmo que momentaneamente, duas guerras civis africanas, na Nigéria e no Congo. É inspirado nesses dias que o angolano recebeu seu nome do meio, carregado com muito orgulho por um refugiado que vive há dois anos no Brasil.

Unindo a paixão pelo futebol brasileiro e a solidariedade por seus conterrâneos africanos, que enfrentam dificuldades e obstáculos na aquisição de direitos como refugiados políticos, José Pelé é um dos organizadores da Copa dos Refugiados, torneio disputado pela segunda vez na capital paulista em agosto de 2015.

“Através do futebol, podemos levar ao povo brasileiro a nossa mensagem, mostrando que somos iguais”, afirma o organizador, lembrando que ainda há muito preconceito e desconfiança em relação aos estrangeiros que buscam uma nova vida no Brasil. Uma prova dessa conduta aconteceu no início de agosto, quando seis haitianos sofreram ataques a tiros no centro da capital paulista. Felizmente, nenhum deles morreu; há indícios que o crime foi motivado por xenofobia.

“Estamos aqui trazendo a nossa cultura e dedicação. Queremos conviver e trocar ideias e experiências entre aqueles que vivem situações parecidas”, pontua o angolano. E não são poucos: cerca de 240 refugiados ou solicitantes de refúgio participaram da competição, divididos em 18 equipes, cada uma representando um país.

A Copa dos Refugiados ocorre na medida em que a questão do refúgio se torna cada vez mais presente no Brasil: segundo o Ministério da Justiça, 1.165 solicitaram refúgio no país em 2010, sendo que quatro anos depois esse número disparou para 25.996, um crescimento de mais de 2.000%. De acordo com dados de 2015 da Acnur (órgão da ONU para refugiados), há cerca de 59,5 milhões de pessoas deslocadas de suas terras natais por guerras e conflitos.

Criticado pela morosidade e lentidão no atendimento dos pedidos, o Brasil concedeu no ano passado 2.320 refúgios a estrangeiros, entre eles José Pelé. O número superou com facilidade o recorde de 2013, quando 649 estrangeiros tiveram seus documentos regularizados, segundo informações do Conare (Comitê Nacional para os Refugiados).

Foi através de muito esforço e paciência que o angolano se juntou aos outros cerca de 7.700 refugiados reconhecidos no território brasileiro, provenientes de 81 países. Destes, cerca de 3.200 escolhem a capital paulista como destino. “A minha história é muito triste, prefiro não contar”, desabafa o até então sorridente José Pelé, já com olhos encharcados.

O silêncio que sucedeu a fala serviu de pausa para que ele contasse como, afinal, chegou ao Brasil. Formado em jornalismo e com experiência em áreas tão distintas como marketing e teatro, ele trabalhou como fiscal das eleições angolanas de 2012, quando saiu vitorioso o presidente José Eduardo dos Santos, do MPLA, no comando do país africano desde 1979.

José Pelé não ficou quieto perante as fraudes que descobriu durante seu trabalho. Conta que, para se manter calado, recebeu ofertas de carro e apartamento. Ao recusar, passou a receber ameaças contra sua vida e perseguições. “Não existem direitos humanos em Angola”, decreta.

Foi então que fugiu para o Brasil, mas não pela primeira vez: já tinha vindo ao país nos anos 1980, sempre em busca de encontrar o ídolo que leva em seu nome. Sabe de cor o número de gols marcados pelo Pelé original: 1.285. Recentemente, tentou encontrá-lo no Hospital Albert Einstein, quando o ex-jogador passou por um período de internação.

Ao relembrar a infância na África, o angolano afirma que, antigamente, jogar futebol profissional era malvisto pela maioria das famílias, assim como tentar a carreira musical. “Hoje, já temos a noção de que o futebol é um traço de unidade das nações africanas. Por isso, criamos a Copa dos Refugiados, com o propósito de reunir os povos pela paz e democracia.”

Idealizada e organizada por refugiados e solicitantes de refúgio que vivem em São Paulo, o evento teve a sua segunda edição finalizada na tarde de sábado (8/8). O inverno não deu às caras, assim como as nuvens, e os jogos foram realizados sob um sol escaldante e temperatura de 23ºC. A grande final foi disputada entre as seleções do Camarões e do Congo, com vitória camaronesa por 2 a 1.

José Pelé considera o evento um sucesso. E promete melhoras. “Amanhã faremos um torneio melhor, pois se não buscarmos isso também não teremos um país melhor. A integração aqui é muito difícil, principalmente para quem não fala português”, afirma ele, que, além do português, fala francês e kikongo, um dialeto angolano.

Hoje, José Pelé mora em Itaquera e trabalha como operador de caixa em um supermercado da Barra Funda. Vira e mexe recebe outros refugiados em seu apartamento. Mas sente saudades da África: deixou lá cinco filhos, com idades entre 5 e 25 anos.

Gosta de viajar para Santos, onde sempre visita a Vila Belmiro, palco de grandes feitos do seu ídolo. Na pauliceia, frequenta parques como o da Água Branca, perto de seu trabalho, e praças do Brás. Ao observar uma disputa de bola que terminou em gol e levou ao delírio da torcida, José Pelé Messa bradou: “É isso que quero. Ver meu povo feliz.”

Danilo Mekari

(Aprendiz – 10/08/2015)



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