INTEGRAÇÃO PELA ARTE

Em parceria com a Escola Livre de Cinema e Vídeo, imigrantes haitianos usam mídia para retratar seu cotidiano no ABC.

A saída da estação de trem foi a porta de entrada. Ali, olhares curiosos vindos do Haiti receberam as primeiras impressões da terra que futuramente chamariam de lar. Instalados em Santo André, no ABC paulista, desde 2011, os haitianos resolveram transformar as dificuldades de adaptação no novo país em arte. Com a parceria da Escola Livre de Cinema e Vídeo (ELCV), os imigrantes agora encenam o que já foi vivido, numa ficção recheada de sentimentos reais.

“O projeto começou com um grupo de haitianos que veio até a escola porque teve a ideia de fazer um filme que falasse da integração cultural com o Brasil e que não falasse exatamente da tragédia que eles tiveram no Haiti”, revelou William Hinestrosa, professor da ELCV e um dos coordenadores do projeto. Do convite inicial, veio a ideia: em vez de uma gravação de um filme, por que não uma imersão cultural? “Surgiu então a noção de vivências. Porque, antes de tudo, seria interessante que a ação fosse um processo pedagógico para os alunos. Ou seja, que os alunos participassem e pudessem exercer o audiovisual.”

Intitulada Vivências Haitianas, a iniciativa começou com reuniões entre os estudantes e o imigrantes. “No primeiro encontro nós já decidimos o que fazer. Surgiram duas ideias: uma foi de fazer um curta-metragem e a outra foi de fazer uma websérie. E começamos a produzir”, contou William. Como a produção do filme exigiria um maior trabalho de pesquisa, os envolvidos decidiram começar com o seriado pela internet. “A série conta a história de um casal haitiano que vem ao Brasil e a esposa não estava muito a fim de ter vindo. Aí eles vão passar por algumas dificuldades. Fizemos o primeiro episódio e nessa semana devemos finalizar o segundo. E terminando a série, nós faremos o curta na sequência.”

Arquivo de memórias

Com pequenos episódios de aproximadamente cinco minutos, a websérie Superação terá curta duração até para familiarizar os haitianos à produção audiovisual. “Hoje a parte técnica quem domina são realmente os alunos, mas a ideia é, com o tempo, isso começar a se interagir. Um processo para que os próprios haitianos que fazem parte dessa vivência estejam operando a câmera ou cuidando do som.” Com o objetivo de falar dos haitianos no olhar deles, a ação está em constante produção e terá encontros para debate sempre na última semana de cada mês. “O que nós estamos fazendo é um processo contínuo. E a gente vai descobrindo as coisas no andar dele.”

Para William, o destaque da ação são as lembranças. “Um aspecto que eu considero muito importante é a memória. Porque é uma imigração recente, mas eu sempre falo que daqui a cem anos um descendente desses haitianos ou qualquer pessoa que esteja interessada em saber sobre o início dessa imigração em Santo André poderá consultar as imagens que a gente fez”, afirmou, complementando: “Porque tudo é gravado, todos os nossos encontros a gente grava, e está se criando um arquivo. E a ideia é que todo esse material de texto, vídeo e áudio seja arquivado para deixar no acervo da escola, no arquivo da prefeitura e na Cinemateca Brasileira”.

Rafael Revadam

(Rede Brasil Atual – 04/08/2015)

 



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