A METÁFORA FUTEBOLÍSTICA

Alvos de xenofobia na ‘selva de pedra’, refugiados disputam Copa no Brasil.

No início de agosto, aconteceu em São Paulo a segunda edição da Copa do Mundo dos Refugiados. Com participação de 24 seleções, o torneio de futebol disputado no Parque Ceret, Zona Leste paulistana, reuniu homens de África, Ásia e América Latina. As finais foram jogadas no último domingo, e o campeão foi Camarões.

Vitoriosos mesmo, no entanto, são todos os que, conseguindo ou não participar do evento, sobrevivem em meio a desilusão, burocracia e discriminação nas ruas da maior cidade do Brasil.

Refugiado, segundo convenções internacionais e a Constituição brasileira, é uma pessoa que tenha deixado seu país por conta de guerras, violações de direitos humanos, perseguições, temor, entre outros, e buscado refúgio em outro Estado. A reportagem do LANCE! conversou com refugiados de diversas nacionalidades. Ao mesmo tempo em que todos enxergavam o Brasil como “terra das oportunidades” antes de deixar seus países, foram unânimes ao falar sobre as dificuldades encontradas em solo tupiniquim.

A porta está aberta quando você está fora do Brasil, mas, quando você entra no país, aí a porta já fechou – define o congolês Cristian.

Os principais problemas e, consequentemente, reivindicações dos refugiados no Brasil dizem respeito à integração. Ou seja, são pessoas que encontram dificuldade em trabalhar por conta de suas documentações e da recusa de muitas empresas e faculdades em aceitar os certificados obtidos em seus países de origem. Sem conseguir bons empregos, eles muitas vezes se sujeitam a longas jornadas e baixos salários em subempregos. Sem tempo livre e dinheiro, sofrem para arrumar moradias e aprender português.

A Copa, organizada pelos próprios refugiados e apoiada pelo Centro de Acolhida para Refugiados da Cáritas e pelo Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados no Brasil (Acnur), é vista como chance de esta parcela da população obter visibilidade. Em 2013, o Governo reconheceu 5.200 refugiados no País, sendo a maioria residente nos grandes centros urbanos.

A estratégia é permitir que refugiados tomem decisões, organizem a Copa, se mobilizem, exercitem essa auto-afirmação deles numa situação na qual eles vivem – diz Luiz Fernando Godinho, porta-voz do Acnur.

A ideia é sensibilizar o brasileiro sobre o tema do refúgio. Pensaram em fazer isso por meio de jogo de futebol, porque o brasileiro ama jogo de futebol – completa Maria Cristina Morelli, coordenadora da Cáritas.

  • Abaixo, há histórias de pessoas que vivem sob condição de refugiado ou estão ligadas a tal mundo. Um mundo à parte. Fugindo de perseguições ou incômodos dos mais diversos e deixando famílias e histórias inteiras de vida para trás, os “alienígenas” do mundo à parte apanham, são xingados e sabe-se lá como sobrevivem na selva de pedra.

Ao menos com a bola nos pés, num campo surrado com linhas de cal tortas, as dificuldades são esquecidas.

A Copa, assim como o esporte de forma geral, é um momento de alegria, de felicidade, de amizade. É hora de deixar os problemas de lado, de conhecer irmãos de outros países – sintetiza Adama, outro personagem da matéria.

Adama Konate, 34 anos. Mali

No Brasil há três anos, Adama mora numa casa alugada no bairro da Mooca. A poucos metros, o maliano recebeu o L! em seu restaurante. Ele se orgulha de ter arranjado um lugar para refugiados de diversas nacionalidades se concentrarem, encontrarem comidas típicas e poderem usar computadores para entrar em contato com suas famílias.

Ao som de “Waka Waka”, música de Shakira tema da Copa do Mundo da África do Sul, Adama contou ter saído do Mali por conta de guerras no país. Apesar de não ter sido afetado diretamente pelos conflitos, o estudante de contabilidade e relações internacionais viu no Brasil uma chance de “aumentar suas experiências e sua bagagem profissional”.

Fã de Lula, Adama diz que o Brasil, na África, é conhecido como “país irmão” graças a visitas e palestras do ex-presidente. Contudo, ele diz que, em programas de televisão, o País é retratado como “terra de shows, futebol e prostituição”. Ao chegar aqui, se surpreendeu positivamente ao menos no que diz respeito a tais estereótipos.

Pensam que é só pobreza e não há seriedade no Brasil. Quando cheguei, vi casas, prédios e perguntei: “Aqui é mesmo o Brasil? Parece Nova Iorque!”.

Nem tudo são flores. Conselheiro da sub-prefeitura da Mooca, Adama tenta “ser presente como um líder do povo refugiado representar a comunidade”. As dificuldades enfrentadas por ele e seus colegas são muitas. A principal delas é a burocracia para obter documentos, abrir contas em bancos, comprovar endereço, entre outras.

O problema no Brasil é a xenofobia. Nos acham criminosos porque estávamos num lugar com guerras. A palavra refugiado assusta, nos olham torto. Andando na rua, sem saber nossa história, os brasileiros são simpáticos conosco. Quando procuramos empregos, aí mostram-se xenofóbicos. Os imigrantes têm muitas capacidades, mas os brasileiros não nos deixam mostrar.

Ninguém se assume como xenofóbico, egoísta, racista. Mas nós sentimos tudo isso na pele. E aí? Quem promove isso então?

Talal Al-Tinawi, 41 anso. Síria

Formado em engenharia pela Damascus University, Talal veio ao Brasil com sua esposa e seus dois filhos em dezembro de 2013. Há sete meses, a família ganhou uma bebêzinha. A fuga da Síria foi motivada pela guerra no país.

São bombas todos os dias e em todos os lugares. Não há mais segurança na Síria – contou, durante visita do L! em seu apartamento num início de tarde, frente a uma mesa bastante farta com aquilo que fez questão de descrever como “apenas sobras do café da manhã”.

Em meio a tantos destinos para escolher, Talal optou pelo Brasil por saber da “grande quantidade de árabes residentes por aqui”. O choque cultural, porém, dificultou a adaptação. Quase dois anos depois de desembarcar em São Paulo, o sírio ainda sofre. A língua é um grande problema, ele admite. Mas nada comparado ao preconceito.

Os brasileiros têm dificuldade de assimilar nossa cultura. Minha mulher veste hijab, por exemplo. O brasileiro não se acostuma, e fica perguntando: “Mas está tanto calor! Por que não tira isso?”

Muçulmano sunita (corrente tida como moderada no islamismo), Talal confessa também ter problemas frente à cultura brasileira. Ainda assim, garante estar se esforçando para assimilar o modo de vida do Brasil.

Só não prometo me adequar. Mas com certeza vou respeitar cada vez mais.

Talal trabalhou como engenheiro numa empresa em São Paulo, mas a felicidade não demorou a acabar. Para ele, as dificuldades econômicas do país pesaram em sua demissão. Batalhando para ter seu diploma reconhecido, ele dedica-se paralelamente ao trabalho com comida árabe.

Apesar do problema com o diploma, Talal enxerga pontos bons em sua nova vida. Em São Paulo, ele facilmente matriculou seus dois filhos mais velhos (dez e 13 anos) numa escola pública. Como nada é perfeito, ele reclama de uma das coisas que mais lhe chamou atenção:

A saúde é bem complicada por aqui, npe? Você não consegue ser atendido. São horas e horas de fila mesmo na emergência. Bom, mas esse é um problema de todos… Brasileiros e refugiados…

Omana Ngandu Petench, 49 anos. Congo

Professor universitário e ativista pelos direitos das mulheres no Congo, Petench esteve perto de não falar ao L!. Nem de viajar ao Brasil. Opositor do governo ditatorial de seu país, foi sequestrado em sua casa enquanto dormia, levado a uma floresta e baleado na barriga. Entregue à morte, ele foi salvo por um desconhecido. Foi nessa hora que percebeu a necessidade de fugir.

A mulher e a criança na África têm muitas dificuldades, têm de ficar em casa, não podem falar, trabalhar. É a cultura. Muitas vezes querem pegar as mulheres na força, matar com armas de fogo. É muito complicado – lamenta, lembrando que o país é o líder no ranking mundial de violência sexual.

Eu tentava mostrar para as pessoas que as mulheres também podem participar na sociedade, tentei fazer uma espécie de revolução, e então o governo quis me matar – disse, enquanto mostrava cicatrizes de quando esteve preso e foi torturado.

No Brasil há dois anos, o congolês lamenta a distância da família e a burocracia tupiniquim. Enquanto aguarda a emissão de um documento chamado registro de refugiado, não pode receber a esposa e os cinco filhos por aqui.

Minha família está longe da guerra. Fugiram para o Quênia. Mas muita gente está sofrendo ainda. Queria arranjar uma maneira de ajudar daqui o povo que ainda sofre no Congo.

Petench “comemora” o fato de dar aulas de francês em São Paulo. Para ele, ser professor impõe respeito frente aos alunos. No entanto, reconhece a xenofobia com a qual conterrâneos sofrem.

Tem preconceito no Brasil. Não dá pra esconder. Mas aqui também há uma cultura de solidariedade. Moro na Zona Leste, em São Miguel Paulista, e lá, quando uma pessoa tem um problema, todo mundo fica muito mobilizado. Isso não acontece na África, nem na Europa.

Por meio de suas aulas, ministradas no Instituto de Reintegração do Refugiado (Adus), Petench se orgulha de ensinar um pouco da cultura africana. A partir de setembro, ele também participará de um curso de gastronomia africana, no qual pretende trazer ainda mais detalhes de sua terra natal aos brasileiros. Um prato cheio!

Thierry-Olivier, 28 anos. Camarões

Thiery trabalhava como marinheiro civil e foi iludido por uma proposta mentirosa. Um amigo de seu pai lhe ofereceu uma oportunidade no Brasil, mas o camaronense foi largado aqui sem um tostão no bolso.

Na minha terra, minha família pelo menos me fazia feliz, aqui tudo é difícil.

Inquilino em Itaquera, ele trabalha como auxiliar de produção numa fábrica. Os chefes lhe obrigam a fazer função de tradutor para outros imigrantes que só falam inglês e francês, mas não lhe pagam nada a mais. Seus diplomas e certificados de nada adiantam por aqui, então ele se submete…

É a vida de refugiado no Brasil. A gente trabalha como se nunca tivesse estudado.

O camaronês tentou aumentar sua bagagem profissional e estudar comércio exterior aqui, mas não conseguiu dar continuidade no pagamento das mensalidades à faculdade.

Chega de Brasil. Já fui três vezes agredido. Um dia, na Luz, quatro homens me chamaram de “preto” e me espancaram. Ninguém me ajudou. Fui na polícia e me mandaram para casa. Nem me levaram até um hospital.

Seu sonho, agora, é retornar para Camarões. Motivo não falta…

Christ Sacramento, 19 anos. Camarões

Christ tem apenas 19 anos e chegou ao Brasil com o sonho de “jogar futebol em um dos infinitos clubes que existem aqui”. Reprovado em testes, planeja voltar ao Camarões no fim do ano. Por enquanto, se dedica no emprego de estoquista numa rede de supermercados. Ele admite: ficou surpreso no país…

Sempre ouvi o Brasil como um país que ajuda. Quando mostram imagens daqui, tem praias, mulheres bonitas, pessoas dispostas a ajudar… Mas aí quando você vem, vê outra coisa bem diferente.

Mesmo sem clube, Christ gosta de jogar futebol com amigos. Ele está enturmado por aqui e já tem até namorada. Entretanto, sofre com o racismo. Já “cascudo” de tanto ser ofendido, dá de ombros para os xenofóbicos.

O Brasil tem racismo. Meu avô foi escravo aqui no século passado. Eu às vezes jogo bola com outros brasileiros e eles toda hora me chamam de macaco. Não gostam muito de africanos, né? Tem quem goste e tem quem não goste. Como eu não sou violento, tudo bem… Que Deus esteja comigo e os racistas, bastante longe.

Cristian, 16 anso. Congo

Com apenas 16 anos, Cristian é jogador profissional, já atuou em clubes no Egito e foi seduzido por empresários para vir ao Brasil no início do ano. Sem clube, se inscreveu numa peneira na Portuguesa. Seu sonho, de toda forma, está realizado: chegar aqui.

Quando tinha cinco anos, já conhecia a história de Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, Fenômeno. Sempre quis um dia poder pisar aqui – conta.

O congolês, no entanto, vê coisas que gostaria de não ver por aqui. Lá fora, diz que o Brasil é conhecido como “país de todas raças”. Mas…

Quando chegamos aqui, vemos que é um país que gosta de todo mundo, mas não dá muitas chances – diz.

Bastaram alguns meses no país para presenciar uma cena de xenofobia: viu um haitiano apanhar no metrô.

Ah… Quem dera o mundo fosse um grande campo de futebol, não é, Cristian?

No futebol são 11 de um lado e 11 do outro, duas famílias. O Neymar tem dinheiro, mas quando entra no campo e tem um cara do Haiti, do Peru, e outros, são todos iguais. Futebol faz todos iguais, faz todo mundo igual. Branco, negro… Todo mundo acerta e erra. É um jogo, é família. Futebol mostra como temos de fazer a família. Família é futebol. Posso não te conhecer, mas, se te encontrar no mesmo campo, somos amigos. E aí a vida continua…

(Lance! – 10/08/2015)



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