IMIGRAÇÃO APRIMORA O PALADAR

As receitas de delícias das imigrantes que trouxeram o mundo para a mesa brasileira.

O Brasil, com toda sua burocracia, desorganização e falta de infra-estrutura para receber imigrantes em situação difícil, ainda é reconhecido como um país acolhedor. A fama de povo boa-praça e aberto ao diferente tem resultados deliciosos na vida gastronômica do brasileiro. Provamos e apreciamos os resultados da mistureba boa em restaurantes típicos, festas de colônias, feiras de rua, padarias e restaurantes por quilo, que abrigam generosamente lasanha, tabule e sushi, lado a lado. Essa diversidade inspirou as jornalistas Alexandra Gonsalez e Sônia Xavier a escrever o livro digital “Cozinha de afeto” (Editora Alpendre, 2015), que conta histórias de 12 mulheres imigrantes de diferentes nações, com a bagagem cheia de histórias e receitas.

Quando tiveram a ideia, Alexandra e Sônia ainda trabalhavam juntas e, por causa do trabalho, viajavam por todo o país. Entre as paradas obrigatórias para almoços, cafés e jantares, a dupla deparava com diferentes cardápios, e percebeu que, frequentemente, as receitas não eram tipicamente regionais. Eram internacionais. “Sempre encontramos muitas pessoas bacanas nessa viagens. Entre elas, algumas mulheres imigrantes que nos marcaram com suas histórias e receitas”, diz Alexandra.

Ao todo, foram 12 entrevistadas, de países como Argentina, Índia, Irã e Ucrânia. As páginas mostram a história de vida de cada uma, seguida por suas receitas “de afeto”. “São aquelas receitas que trazem boas lembranças, do país de origem delas e de suas famílias”, diz Sônia.

A etíope Elsa Engeda, de 35 anos, é uma das personagens. Nascida na capital da Etiópia, Adis Abeba, Elsa saiu jovem de casa, depois da morte do pai, para viajar rumo ao Líbano e ser babá em uma casa de família. Pouco tempo depois, a família para qual ela trabalhava veio morar no Brasil e trouxe a funcionária junto. No Brasil, a vida de Elsa melhorou.

Ela conheceu o companheiro atual, casou-se e se destacou como cozinheira. Para o livro, Elsa contou sua história e achou que a receita mais emocionante para contar era de um charutinho. “Foi uma das primeiras receitas que aprendi a fazer em Beirute, na casa da família onde fui trabalhar. Ela me traz lembranças de um tempo em que eu tinha muita saudade da minha família e tinha de me desenvolver sozinha”, diz Elsa.

Se o talento de Elsa ficou na cozinha da família que a trouxe para o Brasil, o de Nasrin Haddad Battaglia, de 59 anos, foi além. A iraniana, que também é retratada no livro, veio para o Brasil para fugir do conservadorismo de seu país, e na curiosidade de conhecer a terra de Manuel Bandeira, de quem era fã por causa do poema “Vou-me embora pra Pasárgada”. Nasrin chegou com pouco dinheiro, estabilizou-se no Rio Janeiro e , junto com o marido, abriu um restaurante na região de Paraty, com comidas típicas do Irã, e depois outro em Belo Horizonte, onde conheceu a jornalista Alexandra.

A culinária cheia de especiarias e aromas encantou os brasileiros e, segundo Narsin, os ajuda a conhecer o Irã. “O Irã é muito injustiçado e a cozinha de lá pode surpreender muito, com sua delicadeza e aroma. O Brasil soube nos acolher muito bem”, diz.

Nem todas as entrevistadas estão felizes com a situação do Brasil. Em 1948, a ucraniana Larissa Vogel, de 76 anos, veio para o país aos nove anos de idade, em um navio de guerra norte-americano. A mudança foi boa naquela época, mas hoje Vogel, após décadas, vê no Brasil os mesmos problemas de que reclamam os nativos. “A princípio, foi uma bênção saber que no Brasil não havia guerras. Depois, ao longo da vida, vimos com decepção como o Brasil investe pouco em educação”,diz Larissa. Para o livro, ela recomendou a receita de borscht. “É um dos pratos típicos da Rússia e da Ucrânia, que nos ajudam a manter nossa essência, nossa identidade”, diz.

Mesmo com as dificuldades e experiências ruins todas as entrevistadas do livro concordam quando o assunto é a acolhida brasileira “ Nenhum lugar que eu morei me acolheu tão bem como o Brasil. Tanto a culinária , quanto a cultura, são muito ricas”, diz Elsa.

Aline Imercio e João Luiz Vieira

(Revista Época – 27/07/2015)



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