POTENCIAL MIGARTÓRIO

Brasil pode ser potência regional por inclusão de estrangeiros.

O Brasil precisa passar pelo desafio de receber imigrantes para se consolidar como potência regional. É o que pensa Ana Regina Simão, professora do curso de Relações Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Na opinião da docente, o País ser considerado uma saída para pessoas de outras nacionalidades o revela como “potência política regional”. Entretanto, para que a apreciação internacional persista, o governo federal precisa incluir os estrangeiros no projeto de desenvolvimento da nação.

Desde 2011, os haitianos são os que mais pedem visto permanente no Brasil em caráter humanitário. Só no ano passado, 1.891 pessoas receberam autorização de permanência, seguido por Bangladesh, com 1.195, e pelo Senegal, com 320. Entre 2013 e 2014, houve aumento de 79% nas autorizações concedidas pelo Conselho Nacional de Imigração (CNIg) de caráter humanitário. Segundo Ana Regina, os haitianos entram no Brasil via Equador e Peru. “Essa entrada é muito complicada, pois o nosso País tem dificuldades para institucionalizar suas fronteiras. Por esse motivo, estima-se que há cerca de 30 mil haitianos vivendo aqui, mas o número pode ser bem maior”, aponta. Em 2015, foi registrada a entrada de mais de 7 mil no País.

O Brasil se tornou referência para os cidadãos do Haiti desde que enviou tropas para participarem da reconstrução do país caribenho, em 2010, após um devastador terremoto atingir a capital Porto Príncipe, deixando 222 mil mortos, 300 mil feridos e 1,6 milhão de desalojados. No início de junho, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, revelou que ampliará a emissão de vistos em Porto Príncipe para que os imigrantes do Haiti possam entrar em solo brasileiro legalmente. O objetivo, com isso, é combater a atuação de “coiotes”, grupos que exploram imigrantes em rotas clandestinas.

Os 30 mil haitianos que vivem legalmente hoje em solo brasileiro trabalham, em sua maioria, em frigoríficos e na área da construção civil. “De modo geral, esses imigrantes estão muito satisfeitos por estarem aqui. Eles pertencem a uma sociedade oriunda de um país muito pobre, que passou por um terremoto seríssimo e enxerga o Brasil como seu reconstrutor. As pesquisas mostram que os haitianos, motivados pela distância de suas famílias, pensam em poupar dinheiro aqui e depois retornar”, informa Ana Regina. Além disso, conforme a docente, os mais jovens acreditam que a nação brasileira seja o primeiro passo para que cheguem a lugares como França, Estados Unidos e Canadá.

Para a professora, o Brasil precisa criar um projeto consistente de acolhimento dessa migração, inserindo os estrangeiros no projeto de desenvolvimento econômico do País. “É difícil essa inserção do imigrante, pois é necessário avaliar a expertise dos haitianos e encaminhá-los para onde é necessária aquela mão de obra”, analisa. Ana Regina considera o Brasil conservador e, ao mesmo tempo, multicultural. “Acredito que temos capacidade de acolher as diferenças culturais entre os povos. Há uma temeridade de que essas pessoas venham para roubar os nossos empregos, em virtude da crise econômica, que se mistura com os preconceitos. Porém, não podemos deixar que esse conservadorismo ganhe”, reflete.
Arquiteto senegalês veio ao Brasil em busca de novas oportunidades

O povo do Senegal foi o terceiro que mais procurou o Brasil em 2014 como nova moradia. Samba Ndiaye, de 25 anos, foi um dos 320 a chegar legalmente ao País no ano passado. O jovem, formado em Arquitetura, embarcou em um avião rumo a Porto Alegre há oito meses, esperando encontrar as oportunidades de trabalho que não existiam no país africano.

“Não conhecia ninguém no Rio Grande do Sul. Mesmo assim, consegui alugar um apartamento e, depois de começar a trabalhar como vendedor, pude pagar o aluguel”, relata Ndiaye. O senegalês trabalha vendendo relógios e outros objetos nas calçadas do bairro Bom Fim, na Capital, junto com outros africanos imigrantes.

Apesar de ter a quantia necessária para pagar suas contas, o jovem almeja voos mais altos. Ao chegar a Porto Alegre, comprou livros para aprender a falar português, estudou pela internet e procurou conversar com brasileiros, a fim de aprimorar o idioma. Hoje, já possui um bom vocabulário e sonha em voltar a trabalhar como arquiteto. Entretanto, para Ndiaye, falta oportunidades para imigrantes. “Às vezes, penso em voltar para a minha terra, onde deixei minha família. Sei que aqui há mais oportunidades de trabalho e a qualidade de vida é melhor, mas, até agora, não encontrei empregadores com vagas abertas para mim. Seguirei procurando, só não sei por quanto tempo”, pondera.
Imigrantes têm feito bom trabalho no Interior do Estado

O promotor aposentado e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Tupinambá Pinto de Azevedo ministra, na Faculdade de Direito, a cátedra Sérgio Vieira de Mello, voltada para a questão das migrações. “Temos, no Brasil, uma impressionante renovação na área das leis migratórias, sobretudo porque quem está atuando no governo federal com refugiados tem um trabalho muito dinâmico. Tivemos a chegada de muitos colombianos ilegalmente aqui no País, inclusive no Rio Grande do Sul, e agora a dos haitianos e dos africanos. Antes ainda, houve a imigração de afegãos durante a guerra. Com isso, o Brasil despertou para o assunto e criou uma série de legislações inovadoras”, conta.

Historicamente, conforme Azevedo, o Brasil é visto como destino para refugiados de guerra, pois sempre recebeu bem e é um local que não costuma se envolver ativamente em conflitos políticos, com apoio da ONU. No entanto, quando se trata de desastres ambientais que motivam as pessoas a migrar, o estrangeiro não é visto como refugiado e recebe vistos temporários. “O mundo está em uma crise muito grande, porque a Europa não quer deixar entrar mais ninguém e os EUA estão fechados até para os mexicanos. A forma de acolher os imigrantes é um desafio para todos”, pondera.

O ex-promotor tem viajado pelo Rio Grande do Sul para averiguar como os haitianos e os africanos estão sendo tratados no Interior. “Em Marau, por exemplo, há muitos haitianos trabalhando em frigoríficos e estão desempenhando uma atuação maravilhosa. Em Bento Gonçalves e em Caxias do Sul, há o pessoal de Gana. O problema é que são pessoas negras em lugares onde o racismo é muito grande”, explica. A Igreja Católica tem tomado a frente, nesses municípios, da responsabilidade de encaminhar os estrangeiros para empregos.

Isabella Sander

(Jornal do Comércio – 20/07/2015)



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