COMUNIDADE NOVA

Favela carioca acolhe e integra moradores haitianos.

A favela Asa Branca, na Zona Oeste do Rio, é lar hoje de 150 imigrantes haitianos que trabalham na construção civil em obras da região, que está repleta de empreendimentos imobiliários decorrentes das obras para os Jogos Olímpicos de 2016.

Graças ao presidente da associação de moradores Carlos Alberto Costa, conhecido como Bezerra, a favela, que tem 8 mil habitantes, está reagindo a este influxo de imigrantes haitianos de forma criativa e inclusiva. Bezerra organiza feijoadas para os haitianos e recentemente juntou forças com um morador haitiano para oferecer aulas de francês e inglês na comunidade. Seu próximo projeto é organizar um baile haitiano-brasileiro, com músicas das duas culturas.

Bezerra vê a imigração haitiana como uma oportunidade de aumentar a integração da comunidade: “Eu falei: estão aqui! São moradores também. Então a gente tem que saber o que eles precisam”.

Em maio, a Associação de Moradores saudou os haitianos, brasileiros e organizações que trabalham com estrangeiros no Rio com uma tradicional feijoada. “Foi bom! Eles participaram, estiveram aqui… batemos um papo bom“, disse Bezerra.

Ele recentemente juntou forças com um morador haitiano para oferecer aulas de francês e inglês na comunidade. No dia 12 de julho, Dieuseul Duclosil deu a sua primeira aula a um grupo de estudantes atentos, e Bezerra disse que conhecia muitos outros moradores interessados em se matricular. Ele espera que esta iniciativa irá se expandir incluindo aulas de português para os haitianos e tem planos para um baile haitiano-brasileiro, com músicas das duas culturas.

Bezerra descreveu como as aulas surgiram: “Ele [Dieuseul] é professor de inglês e francês. Ele está desempregado…E esse é um jeito da associação ajudá-lo”.

Dieuseul gostou da ideia. Ele disse: “É bom para integrar a nova nação aqui… Ele [Bezerra] é uma pessoa interessante. Porque ele abraça toda a gente aqui. Não é somente o que você dá a alguém que te faz uma boa pessoa. É a forma como você pensa, o jeito como você olha para outra pessoa”.

Para a favela que deve sua sociabilidade e desenvolvimento a dedicados moradores de longa data, os novos vizinhos haitianos representam um modo de viver totalmente diferente, baseados em anos de migração. Depois do terremoto de 2010, o qual devastou seu país natal, Dieuseul se mudou do Haiti para o Equador, onde passou dois anos antes de se mudar para o Rio Grande do Sul e finalmente se mudou para o Rio em busca de um clima mais quente. “Eu disse a mim mesmo: eu tenho que encontrar uma cidade onde é quente, assim viverei bem!” Ele brinca. Ele estava trabalhando na construção civil no Rio de Janeiro por mais de um ano até ficar desempregado.

Outros imigrantes haitianos têm histórias parecidas de migração através de vários países. Frisno Merat passou oito anos na República Dominicana antes de se mudar para o Brasil. Ele diz que se sente em casa na Asa Branca: “Aqui a gente vive tranquilo, não temos problemas com o povo daqui“.

Seu amigo Lebien Prince concorda, mostrando sua filha mais nova, orgulhoso pelo fato dela falar bem o português. “Para mim está tudo bem, graças ao Senhor. Porque por enquanto estou trabalhando. Estou aqui com minha esposa, ela trabalha também”.

O projeto de ensino de línguas é somente um exemplo dentro da história da coletividade na Asa Branca. A comunidade construiu muitos dos serviços que utiliza hoje, incluindo seu sistema de esgoto, criado por moradores há vinte anos. “Tenho orgulho, nós temos o maior orgulho disso”, disse Bezerra. “Ele funciona muito bem. Era um esgoto para mil e poucas pessoas hoje somos 8000, quer dizer, é complicado”.

Mesmo assim, Bezerra reclama que o espírito coletivo na favela está diminuindo, já que ele acha que os moradores estão mais focados no melhoramento de si próprios e não da comunidade.

Ele tem tentado usar sua posição como um veterano da Associação de Moradores para motivar a nova geração de lideranças comunitárias, encorajar a participação e a solidariedade. Com isto em mente, ele tem feito uma série de debates, incentivando os moradores a se reunirem para discutirem questões como racismo, sexismo e as questões de gênero, e também a respeito da redução da maioridade penal. “Eu conheço várias pessoas com capacidade de fazer muito melhor do que eu aqui, mas eles têm medo. É preciso incentivar, provocar essas pessoas!”

Os moradores haitianos da Asa Branca sabem que sua existência na comunidade depende de uma fonte de emprego, que não é garantida. Nas palavras de Frisno, “tem que pegar serviço onde achar“, sugerindo que talvez seu próximo passo seja São Paulo. E para Dieuseul, ele diz que a grande parte dos haitianos querem voltar para seu país. “Nós trabalhamos, nós guardamos dinheiro, para voltar para nosso país. Não há lugar onde você se sinta melhor do que aquele em que você nasceu”.

Mas enquanto eles estão vivendo na Asa Branca, Bezerra irá procurar por caminhos para incluí-los na comunidade, “para que eles possam ter a dignidade humana dentro de um país que eles conhecem pouco”.

(Rio On Watch – 27/08/2015)



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