NO FUNDO A APARÊNCIA

Campanha do governo contra xenofobia choca. Também está disponibilizado um hotsite para a população criar sua peça personalizada.

Uma campanha contra a xenofobia e o preconceito a migrantes, que começou a ser veiculada pelo Ministério da Justiça nesta terça-feira nas páginas de Facebook e Twitter, gerou uma enorme polêmica. Na peça publicitária, o jovem negro Matheus Gomes, de 18 anos, aparece sorridente com os seguintes dizeres ao lado de sua foto: “Meu avô é angolano, meu bisavô é ganês. Brasil. A imigração está no nosso sangue”. Junto ao cartaz, o Ministério postou a seguinte mensagem: “há cinco séculos, imigrantes de todas as partes ajudam a construir nosso país”.

Na tarde de terça, tão logo a postagem entrou no ar, as páginas do Ministério foram inundadas por manifestações negativas. Segundo internautas, o Ministério da Justiça confundiu imigração com escravidão. Juliana Borges, uma das que comentou a página, indignou-se: “Imigrante? Pessoas traficadas e escravizadas foram imigrantes? Alguém nos salve de um Ministério da Justiça desse!”. Descendente de negros, Twylla Ferraz Aragão comentou: “gourmetizaram o sequestro do povo preto, agora chamam de imigração. Fica até bonito assim, esse pretinho sorrindo se dizendo descendente de angolano e ganês, com sobrenome “Gomes””. Já Jaqueline Gomes de Jesus, especialista em história contemporânea, afirmou que “a ideia pode parecer boa, num primeiro olhar, mas é falaciosa. Não dá pra comparar o hediondo tráfico transatlântico da população africana para o Brasil com os processos migratórios atuais”.

A reação surpreendeu o Ministério da Justiça. O órgão foi forçado a responder aos críticos. Extraoficialmente, o argumento de defesa do Ministério da Justiça à peça é que a escravidão foi abolida há 127 anos e o tráfico negreiro acabou em 1850, quando a Lei Eusébio de Queirós proibiu a entrada de novos escravos no país.

– Cronologicamente, os ascendentes do menino da campanha realmente não poderiam ser escravos, mas a peça mexe com uma questão simbólica, faz menção aos antepassados negros dos brasileiros e nesse caso a grande referência é a escravidão – afirma o professor de História Da PUC-SP, Luiz Antônio Dias, especialista em estudos afro-brasileiros.

Estima-se que apenas o Brasil recebeu cerca de 5 milhões de negros escravizados, a maioria oriunda das regiões de Angola e Congo. Outros 3 milhões teriam morrido na travessia do mar. Segundo Dias, depois do período de escravidão, não houve nenhuma grande onda migratória africana para o Brasil até recentemente, quando o fluxo foi retomado espontaneamente. Africanos são o segundo maior grupo a pedir refúgio no país hoje. Perdem apenas para os sírios. Entre as nacionalidades africanas que têm chegado ao Brasil estão senegaleses, angolanos e nigerianos.

– É uma propaganda de mau gosto, uma falta de sensibilidade. Não se pode sugerir que escravidão e migração sejam semelhantes. Nem reforçar o mito de escravos felizes ou de democracia racial. O melhor caminho seria retirar a propaganda do ar – defende Dias.

O Ministério da Justiça afirma que o cartaz não será retirado do ar e que a campanha prosseguirá. De acordo com a nota, “o Ministério da Justiça apoia a importante discussão sobre a escravidão na nossa história” e “o governo promove diversas medidas de inclusão para reverter essa triste herança”. Segundo o órgão, o objetivo da campanha era combater a xenofobia e “abordará várias histórias de brasileiros e brasileiras que são descendentes de nacionalidades as mais diversas – incluindo africanas, latino-americanas, europeias, asiáticas”. O cartaz é o primeiro de uma série de nove retratos com brasileiros que depõe sobre a origem de seus antepassados, e foi motivada por episódios recentes de preconceito e violência contra imigrantes e refugiados. A expectativa era atingir cerca de 12 milhões de pessoas, mas a meta deve ser superada diante da polêmica.

Campanha

A campanha também disponibiliza um hotsite para a população criar sua peça personalizada. Os motivos da iniciativa podem ser anexados a uma foto do participante pelo endereço eutambemsouimigrante.com.br.

“Manifestações de xenofobia são manifestações pontuais. Nós acreditamos que se dão por falta de informação. Por isso essa campanha tem por objetivo informar e aí sensibilizar as pessoas sobre a inadequação, o quanto é desprezível manifestações de xenofobia, de preconceito ou de ódio”, afirma Vasconcelos.

Na primeira etapa da campanha, o conceito trabalhado foi o de que o Brasil é uma oportunidade de se viver. Na ocasião, a divulgação nas redes sociais foi feita a partir da hashtag #CompartilheHumanidade. Segundo o secretário, essas medidas são uma forma de reforçar o compromisso do Brasil com a ONU sobre políticas para refugiados.

Crédito extra

O lançamento da campanha acontece no mesmo dia em que o Ministério da Justiça divulga a concessão de R$ 15 milhões como recurso extraordinário para fortalecimento das políticas de assistência a refugiados.

“O recurso orçamentário que nós estamos implementando, cujo objeto a presidenta aprovou, tem o intuito a construção de uma rede, o fortalecimento de uma rede pública de assistência e acolhimento de refugiados e imigrantes. Além de acolhimento, nós temos por intuito também fazer a integração deles. A primeira barreira é uma barreira de língua, ou seja, a adaptação à língua portuguesa, e a segunda, a inserção ao mercado de trabalho, a inserção à cultura brasileira”, afirma o secretário Beto Vasconcelos.

Segundo ele, o crédito será usado para incentivar estados e municípios e entidades da sociedade civil a criar ações de acolhimento a refugiados. “Não há incentivo fiscal, mas nós entendemos que com essas políticas de fortalecimento da estrutura pública e das parcerias com as entidades da sociedade civil, nós teremos como resultado integrar essas pessoas à sociedade brasileira.”

O secretário afirma que refugiados fazem parte de um grupo que teve acesso a políticas de inovação e que podem ajudar no crescimento econômico do Brasil. “Sem sombra de dúvida, é um capital humano valoroso para se agregar à sociedade brasileira, se agregar ao mercado de trabalho brasileiro, um gerador de empreendedorismo, um gerador de novas oportunidade.”

Vasconcelos disse que o mundo se encontra hoje na pior crise humanitária desde a Segunda Guerra Mundial. De acordo com ele, há 60 milhões de pessoas que precisaram se deslocar de suas casas e 20 milhões foram obrigadas a deixar o país do origem.

“O drama vivido que todos nós vemos todos os dias na televisão, nos jornais, é o drama dessas milhões de pessoas. A comunidade internacional tem feito muito para ajudar. Não tenho dúvida de que o Brasil tb tem condição de auxiliar, de acolher essas pessoas e integrá-las à sociedade.”

Segundo o Ministério da Justiça, há no Brasil 8.530 pessoas identificadas como refugiados. A maior população é de sírios, com 2.097 pessoas, seguida pelos angolanos, com 1.480; colombianos, 1.093; e nascidos na República Democrática do Congo, com 850. Os dados são computados a partir de 1997, quando entrou em vigor a lei que define a implementação do Estatuto dos Refugiados no país.

(Agências)



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