SEM DESESPERO

O Brasil ainda é o país da tolerância religiosa, étnica e social?

Estamos vivendo um momento de exacerbações, principalmente nas redes sociais, onde começam a despontar posicionamentos racistas, xenófobos e que vão contra tudo o que sempre pensamos existir no Brasil: um país de tolerância religiosa, étnica e social. Estamos acompanhando, com atenção e muita preocupação, os seguidos relatos de racismo envolvendo nomes famosos de nossa classe artística e do futebol brasileiro.

No ano passado ocorreu um lamentável episódio envolvendo o jogador Aranha, atleta do time paulista do Santos, chamado de “macaco” por torcedores do Grêmio, em Porto Alegre. Mais recentemente ocorreu novo episódio com o atleta Michel Bastos, do São Paulo, com a jornalista Maria Júlia Coutinho e com a atriz Thaís Araujo, ambas da rede Globo.

Tivemos ainda, de forma mais graves, tentativa de homicídio, casos de xenofobia contra imigrantes haitianos e africanos, atacados em diferentes pontos do território nacional e que mostram a face oculta e perversa de uma parcela de nossa população e suas idéias equivocadas de pureza racial, num viés nazista.

Em todos os casos as manifestações eram racistas e xenófobas, e em alguns deles, felizmente, os responsáveis estão sendo identificados e para eles esperamos exemplar punição. No entanto essa questão está arraigada em nossa cultura com demonstrações de intolerância contra pessoas vindas do nordeste, contra negros, pobres e estrangeiros, dentre outros segmentos sociais.

Tudo isto vem corroborar para que a tese de doutorado do pesquisador Gustavo Barreto, recentemente defendida na UFRJ seja verdadeira. Disse o pesquisador carioca que a noção de que o Brasil é um País hospitaleiro, onde todos os estrangeiros e imigrantes são bem-vindos, não passa de um mito.

A conclusão do pesquisador é de que o racismo na imprensa brasileira contra o imigrante se manteve constante, apesar dos avanços, e que a aceitação é seletiva, com diferenças entre europeus e africanos, por exemplo. O refugiado é sempre negativo, um problema grave a ser discutido. O imigrante é uma questão a ser avaliada, mas em geral a visão é de algo problemático. Já o estrangeiro é sempre positivo, inclusive melhor do que o brasileiro. É alguém com quem podemos aprender.

Apesar destas preocupantes demonstrações de intolerância, de racismo, estamos avançando. Neste mês tivemos o exemplar caso de um professor de uma universidade do Espírito Santo, demitido por emitir posicionamentos racistas contra alunos negros e contra as cotas raciais para ingresso nas universidades brasileiras. Trata-se de uma punição exemplar e que deve servir para que racistas se questionem.

Temos uma legislação, aprovada por esta Casa, que trata com a severidade necessária casos como os que aqui relato. Mas acredito que podemos continuar avançando, seja na edição de novas leis, seja na educação com a construção nas escolas de uma mentalidade de maior tolerância a ser repassada às novas gerações.

O certo é que não devemos nos calar diante de fatos como os que ocorreram recentemente com pessoas negras ou estrangeiros ou ainda brasileiros migrantes. O Brasil foi construído sobre o alicerce da tolerância e da igualdade e isso precisa ser preservado e sempre lembrado. E para encerrar quero reproduzir o que diz a nossa Constituição Federal.

Ela é bem clara em seu preâmbulo e diz que vivemos num “…Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias…”

Sandes Júnior

(Diário da Manhã – 12/11/2015)



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