AULAS DE SOBREVIVÊNCIA

Estrangeiros trabalham de dia e estudam à noite em Cuiabá. O sonho agora é a faculdade. 

Recomeçar exige sacrifício por parte dos mais de 2 mil haitianos que escolheram Cuiabá para viver após terem o país devastado por um terremoto em 2010. Apesar de terem chegado ao Brasil em busca de trabalho e renda, eles não abrem mão dos estudos e alguns já sonham uma carreira profissional e firmarem residência no país junto com os familiares. Eles driblam o cansaço do trabalho desempenhado durante o dia e fazem aulas no período noturno.

A partir de um projeto iniciado em maio de 2014, intitulado Política de Educação Imigratória, pelo menos cinco haitianos já se veem prontos para cursar faculdade no país, enquanto outros 50 seguem estudando no período noturno, de segunda a sexta-feira, no Centro de Educação de Jovens e Adultos (Ceja) Professora Almira Amorim e Silva, no bairro CPA III. Outro grupo, de cerca de 60 haitianos, estuda na Escola Estadual Leovegildo de Melo, no mesmo bairro.

Aluno do Ceja há mais de oito meses, Anneau Darelus, de 35 anos, e Christine Derisse, de 26 anos, deixaram famílias e amigos para trás há dois anos para tentar a vida no Brasil e garantir um futuro melhor para o filho, de 3 anos, que mora com os avós no Caribe. Segundo eles, a saudade do filho é grande, mas trazê-lo para Cuiabá, no momento, está fora de cogitação.

“Ainda não temos o visto permanente e está muito difícil de tirá-lo. Sempre que tentamos falar com a embaixada do Haiti, não conseguimos contato. E viajar para Brasília é muito custoso para a gente”, disse.

Contratado no setor de construção civil, na capital, onde já atua desde que chegou na capital, Anneau pretende fazer a faculdade de jornalismo. Já Christine trabalha como diarista e pensa em seguir a carreira de farmacêutica ou de aeromoça. “Quero conhecer pessoas, aprender idiomas e, quem sabe, ir para os Estados Unidos e para o Canadá”, afirmou.

Para tanto, ambos se inscreveram no Ceja a fim de concluir, novamente, os estudos. Anneau contou que ele e a mulher estudaram por quatro anos na República Dominicana o período equivalente ao ensino médio do Brasil. No entanto, como ambos não possuem documentação que comprovem os anos estudados, precisaram se inscrever para cursar novamente o período em Cuiabá.

O mesmo problema foi vivenciado pelo haitiano Yvens Alexis, de 27 anos. Ele, que já se considera um “pau-rodado” [alcunha que se dá para os estrangeiros que se fixam em Cuiabá], chegou a capital há dois anos e meio e tentou dar seguimento aos estudos no ensino superior, mas se viu impedido pela falta de documentos que comprovassem a sua escolaridade.

Yvens contou que, no país, sempre viu o ato de aprender a língua portuguesa como um de seus maiores desafios. “Eu cheguei sem falar nada, nada de português. O que me ajudou foi que eu falava um pouco de espanhol. Então, comecei a treinar palavra por palavra até superar essa barreira”, disse.

O haitiano veio para o Brasil sozinho e sem destino. No país de origem, ele deixou sete irmãos e, mesmo sendo o mais novo do grupo, ousou arriscar uma nova vida no país. Assim que se viu empregado e com moradia fixa, decidiu ir atrás do objetivo. “Eu tenho um sonho muito grande de cursar engenharia civil, que preciso realizar”, revelou.

No entanto, Yvens se viu barrado ao não conseguir comprovar os anos de estudo no Haiti. “A minha vontade era começar imediatamente a faculdade, mas me informaram que eu tinha que começar do zero. Eu já estava quase terminando os meus estudos lá no Haiti, mas aqui tive que voltar à estaca zero”, disse.
Em Cuiabá, o jovem ingressou no Ceja e, passados seis meses, está na segunda turma estudando exatas, área que diz dominar bem. “Llíngua portuguesa, geografia e história do Brasil, acho bem complicados”, afirmou. Para mim, é como se fosse uma revisão de tudo o que já vi”, disse.

Essa rotina de anos de estudos “perdidos” por falta de documentação é uma realidade vivenciada por boa parte dos haitianos que deixaram o país às pressas. Inclusive, um levantamento feito antes da implantação do projeto de alfabetização e ensino dos haitianos em Cuiabá, em abril de 2014, apontou que pelo menos 28% dos que aqui vivem tem ensino superior completo (13%), ensino superior incompleto (4%) ou o ensino médio completo (11%), o que, com a documentação adequada, significa que estariam aptos para ingressarem nas faculdades do país.

“Essa questão do ensino podia ser mais facilitada para nós, que somos estrangeiros. Tem muita gente que desanima, fica desinteressado e desiste de continuar os estudos, porque a primeira turma é como se fosse o ensino fundamental e, para quem já é formado, voltar à estaca zero é muito ruim. Se a pessoa já não tem um sonho, uma carreira definida para focar, é muito pior”, reclamou Yvens.

No entanto, a dura realidade do Haiti fez com que a maioria deixasse o país sem nem mesmo completar o ensino básico. Conforme o relatório, elaborado por técnica de amostragem e sistematizado por uma equipe da Secretaria Estadual de Educação (Seduc), 64% dos haitianos que moram na capital não concluíram o ensino médio. De fato, 16% nem mesmo concluiu o ensino fundamental.

Comunicação

Para o intérprete Rafael Lira, de 25 anos, que integra o projeto de educação para haitianos, a dificuldade com a comunicação é o que mais prejudica os estrangeiros. “Isso vai permitir mais oportunidades a eles, não só de emprego, mas de comunicação em qualquer lugar que eles forem, como no supermercado, em um hospital, para fazer uma consulta”, avaliou.

A língua natural dos haitianos é o crioulo, originada da língua francesa, mas que também tem elementos de dialetos africanos, assim como influência do espanhol e do inglês, segundo o intérprete.

Levantamento feito pela Seduc aponta que 87% dos haitianos afirmam saber falar e escrever bem o crioulo. Porém, apenas 46% deles fala e escreve bem em francês, a língua oficial do país – ensinada nas escolas e usadas em documentos e cerimônias.

De acordo com Rafael Lira, na maioria das vezes, os haitianos têm facilidade em aprender mais um idioma. No entanto, a língua portuguesa é um grande desafio para eles. “O português é uma língua com muitas regras. Se para nós, que somos brasileiros, já é difícil falar corretamente, com todas as suas regras, imagine para eles? Mas eles aprendem muito rápido, tem uma facilidade muito grande para aprender”, explicou.

Apesar da facilidade no aprendizado, também defendido pela diretora do Ceja Almira Amorim, Marisa Giraldelli, o diagnóstico da Seduc também apontou que 100% dos haitianos têm dificuldade em se comunicar em português, tanto de forma oral quanto escrita. Um desses casos é o do jovem estudante Belovedson Hyppolite, de 21 anos. “Quando a professora está explicando na sala, eu até entendo o que ela está falando, mas não falo bem o português. E quando não se fala bem, tudo fica mais difícil”, relatou.

Com sotaque acentuado, ele contou que está no país há nove meses e que há cinco meses ingressou no Ceja Almira Amorim. O estrangeiro se mudou para o Brasil com o cunhado e mora em Mato Grosso com mais dois irmãos e uma irmã.

Belovedson [que, em tradução livre do inglês, significa filho amado] trabalha fazendo entregas em um restaurante na capital. O haitiano acorda às 7h e sai às 17h do trabalho.

Ele saiu do país faltando um ano para terminar o ensino médio. Por causa da documentação em relação aos anos estudados no Haiti, teve que começar o ensino médio novamente. E apesar da vida corrida em Cuiabá, trouxe na bagagem o desejo de cursar engenharia civil.

“Estou estudando, então tenho que terminar essa etapa. Depois, preciso ganhar dinheiro e quem sabe fazer uma faculdade e me casar. Na verdade, para a frente Deus é que sabe”, afirmou.

Regras do ensino e desistência

A faixa etária de haitianos que procuram o Ceja para concluir os estudos varia de 25 a 35 anos. A turma inicial de haitianos conta com 40 estudantes. Os aprovados nessa etapa passam a estudar em turmas comuns do Ceja. Nesse tipo de ensino, os alunos passam cada trimestre com os estudos focados em uma área, iniciando sempre com a língua portuguesa.

“No primeiro momento, eles estudam somente linguagem. No final do primeiro trimestre, passam por uma avaliação e podem ingressar no ensino médio, etapa que leva dois anos para ser concluída. À medida que eles aprendem, fazemos a classificação deles. A maioria vai para o ensino médio, se não volta a estudar o período novamente”, afirmou a diretora do Ceja Almira Amorim.

De acordo com a diretora e o intérprete Rafael Lira, apesar da procura pelo projeto ser alta por parte dos haitianos, a desistência também é grande, causada, na maioria das vezes, por necessidades mais proeminentes, como oportunidade de trabalho.

“O fluxo de entrada e de saída deles é muito grande. Porque se [o aluno] está em Cuiabá e se vê três meses parado, sem emprego, ele muda para outra região onde pode ter uma oportunidade. Se faltar trabalho, ele vai se deslocar. Se surgir uma oportunidade de emprego à noite, ele vai escolher ter uma remuneração ao invés de manter os estudos. Existe desistência, mas não é algo descontrolado”, explicou Rafael.

Segundo Marisa, a maioria dos haitianos que procuram a escola já sabem a carreira profissional que quer seguir. É o caso de Gueby Gaeicol, de 25 anos, já formado em administração no Haiti e que sonha em se tornar um médico geriatra. Ele ingressou no Ceja em março e divide os estudos com o serviço de empacotador em um mercado localizado próximo à escola. “Depois que me formar, quero reunir minha família toda: meus pais e meus sete irmãos”, disse.
Recém-chegado em Cuiabá, Osmane Filistin, de 28 anos, também espera reconstruir a vida na capital. Atualmente desempregado, ele era professor de dança no Haiti e pretende continuar atuando nessa área na capital. Ele chegou à cidade há dois meses e imediatamente ingressou no Ceja Almira Amorim.

Apesar de ainda não falar português, ele já tem seu futuro traçado: “Quero abrir uma escola, me manter como um profissional da dança, ensinar zumba, dança latina e clássica para as pessoas. Eu tenho esse sonho e quero alcançá-lo”, declarou.

Lislaine dos Anjos

(G1 – 04/02/2016)

 



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