PASSADO PRESENTE

Hoje hóspedes de refugiados, italianos sofriam preconceito no Brasil.

Andar por São Paulo é esbarrar a todo momento na herança deixada pela imigração italiana em suas ruas, lojas, monumentos, edifícios históricos e, principalmente, restaurantes. Das 2,5 milhões de pessoas que passaram pela antiga Hospedaria de Imigrantes do Brás entre 1887 e 1978, mais de 700 mil eram provenientes da Itália, país que originou o maior movimento migratório internacional da história do Brasil.

A construção, que foi um dos principais centros de acolhimento de estrangeiros em solo brasileiro, abriga atualmente o Museu da Imigração, criado para preservar essa memória e contar aos paulistas um pouco sobre seu passado. Antigo Memorial do Imigrante, o centro cultural foi restaurado recentemente e ganhou uma nova exposição de longa duração. Agora, o museu também pensa no presente – o planeta enfrenta hoje a mais grave crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial -, o que renovou o interesse crítico pelo tema da imigração.

Em entrevista à ANSA, a diretora executiva do museu, Marília Bonas, fala dessa nova fase e sobre a chegada em massa de italianos que definiu o que São Paulo é atualmente. “Foi um grande projeto político do Estado de São Paulo, um projeto político movido por questões ideológicas e raciais, pautado na ideia de que havia uma superioridade da mão de obra branca e europeia”, diz.

Confira abaixo a conversa com a diretora

Em números, o que significa a imigração italiana para o Brasil e para São Paulo?

A hospedaria foi construída no fim do século 19 para abrigar a mão de obra europeia que substituiu os escravos das fazendas de café, em um grande projeto político do Estado de São Paulo, um projeto político movido por questões ideológicas e raciais, pautado na ideia de que havia uma superioridade da mão de obra branca e europeia. Ela abrigou mais de 2,5 milhões de imigrantes ao longo de quase 90 anos, sendo mais de 700 mil italianos. É a maior população de imigrantes da história da hospedaria. Essa presença era tão forte que temos até hoje algumas inscrições nas paredes com as regras da hospedaria em italiano. Numericamente, a imigração italiana de fato é a maior da história do Brasil.

Qual o impacto imediato que essa imigração em massa provocou?

Há relatos de escritores contando que, na virada do século, mais da metade da população de São Paulo falava italiano. Nos relatos do dia a dia da cidade fica muito claro o impacto da cultura italiana no seu cotidiano. Ela teve um impacto imediato na vida das mercearias, na abertura de pequenos restaurantes.

Quando começa esse período de imigração italiana ao Brasil?

Esse grande projeto vai do fim do século 19 até 1930. Claro que há grupos de imigrantes italianos que vieram antes, mas, como um projeto casado entre o Estado de São Paulo e o próprio governo italiano, é um período de mais ou menos quatro décadas. Obviamente, isso não é exclusividade do Brasil.

Qual a diferença da imigração italiana para o Brasil em relação aos outros países?

O Brasil subvencionava, ou seja, pagava para o imigrante vir para cá. Nas primeiras décadas não foi uma relação tão tranquila, havia a promessa de uma vida nova, e, quando eles chegavam aqui, não era tão suave quanto parecia. Todo o sistema das fazendas ainda era muito próximo ao da escravatura, e lidar com trabalhador era outra coisa. O próprio governo italiano, em alguns momentos, proíbe a imigração para o Brasil, mas depois esses acordos são refeitos, aumenta a fiscalização nas fazendas e continua esse grande projeto.

Por que o Brasil foi buscar na Itália essa mão de obra para suas fazendas?

O Brasil não foi buscar só na Itália, mas havia um contexto histórico favorável: os italianos estavam procurando lugares para emigrar, e São Paulo estava procurando uma mão de obra camponesa. Mas o Brasil procurou na Alemanha, por exemplo. Essa política de subvenção não era exclusiva para a Itália.

Os italianos procuravam lugares para emigrar por fatores econômicos?

Por conta da questão da unificação da Itália [ocorrida em 1861], há um aumento da tributação no sistema de propriedades agrícolas, então para sobreviver nessa nova Itália era preciso mais dinheiro. Os camponeses começaram a procurar alternativas, mas o Brasil não era o primeiro da lista, tinha Estados Unidos, Canadá, a própria Argentina. Mas o Brasil tinha essa política de subvenção.

De onde vinham os italianos que chegaram ao Brasil nesse período?

Nas primeiras décadas eles eram majoritariamente do Vêneto. Depois, já na década de 1920, há um movimento de migração da Sicília. Mas a maior parte era do Vêneto, principalmente em São Paulo.

Por que o Vêneto?

Porque era a região mais agrícola e a mais afetada por essas políticas novas da Itália.

A atual crise de refugiados renovou o interesse pelo museu e pela questão da imigração?

Renovou o interesse crítico. Nós temos esse compromisso de aproximar as pessoas da experiência dos refugiados – os imigrantes de hoje – e dessa experiência do passado, que é bastante romantizada. Não só renovou o interesse, como trouxe um desafio novo para o museu: explicar esses contextos, lutar contra a xenofobia e batalhar pelos direitos dos imigrantes hoje.

Temos visto na Europa muitas dificuldades para integrar os refugiados à sociedade, com recorrentes episódios de xenofobia e discriminação. Como os italianos eram recebidos no Brasil?

Isso também é interessante, havia uma ideia de que eles foram muito bem recebidos. E não foram. Eles sofreram muito preconceito. A prova disso, um ícone da cultura brasileira, é a Semana de Arte Moderna de 1922, que tinha dois filhos de imigrantes, Menotti del Picchia e Anita Malfatti. Os outros eram todos filhos de nobres barões do café. Eles sofriam uma série de preconceitos dentro desse contexto modernista. Isso em 1922, quando a imigração já estava rolando havia 20 anos. Tinha uma ideia de que os italianos eram, em geral, iletrados, pobres, mortos de fome que vinham para cá porque não tinham nenhuma alternativa. Inclusive, várias expressões pejorativas, como “carcamano” [“carcar” a mão], surgiram desse tipo de preconceito. Carcar a mão era, na hora de pesar a coisa, forçá-la para pesar mais e cobrar mais.

Quando isso começa a mudar?

Com a quebra do café, em 1929, 1930, quando essa elite paulista quebra financeiramente e os italianos, que formavam uma classe baixa, uma classe média baixa, podem ascender socialmente. Quando ascendem, eles também podem formar o discurso de que vieram construir a cidade, construir o estado. Essa acomodação identitária dos italianos em São Paulo só veio com sua ascensão. O casamento entre famílias de italianos e de nobres paulistas era uma coisa bastante rechaçada.

(JB – 09/03/2016)



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