SEM LAR

Onda de refugiados aumenta número de estrangeiros em albergues de São Paulo.

Pianista em uma igreja evangélica em Angola, Yasmin Sunda, 18, foi preso e torturado pela polícia local, acusado de ser um opositor do regime que governa o país. Sua família teve os bens confiscados. O pouco que restou foi usado para mandar Yasmin para São Paulo.

“Já arrumei um emprego de ajudante de cozinha aqui. Agora, meu sonho é trazer minha mãe e meus dois irmãos”, diz. No albergue da prefeitura em que Yasmin vive com outros estrangeiros, no centro da capital, histórias como a dele são comuns. Gente perseguida por regimes autoritários da África por questões políticas ou religiosas.

Africanos puxam uma onda de refugiados que fez com que explodisse o número de estrangeiros nos albergues da capital paulista.

No fim de abril, eram 1.239 estrangeiros acolhidos, segundo a Secretaria Municipal de Assistência Social. Um ano antes, um censo registrava 556 —aumento de 123%.

Dois abrigos emergenciais foram criados pela gestão Fernando Haddad (PT) para atender à nova demanda. Nesses locais, a grande maioria dos imigrantes vêm de Angola —em abril, eram 560.

Ativista

Basta digitar o nome do angolano Raul Lindo Mandela, 32, no Google para entender por que ele fugiu do país. Há notícias de perseguição por parte da polícia e até de seu espancamento por organizar protestos contra o governo.

“O presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, está há 37 anos no poder. É um regime sanguinário”, afirma o ativista. Ele diz que fugiu porque não queria ser preso ou morto como seus amigos. “Tive amigos que foram condenados apenas por ler um livro, ‘Da Ditadura à Democracia’, de Gene Sharp.”

Raul quer cursar faculdade no Brasil em uma área ligada a direitos humanos e voltar à luta em seu país.

A prefeitura também detectou um grande número de angolanas que estão chegando à cidade. “Na véspera do Carnaval, chegou um grupo de 50 mulheres angolanas com filhos. Não tínhamos espaço para colocá-las nos acolhimentos regulares e abrimos um emergencial”, diz a secretária municipal de Assistência Social, Luciana Temer.

Recomeço

A segunda nacionalidade estrangeira em número nos centros de acolhimento da cidade é a congolesa. Vizinho de Angola, o país também é cenário de sangrentos conflitos internos.

“A música que se dança em Angola é a mesma que se dança no Congo”, diz o cabeleireiro Mapasa Lonhi, 35. Ele traz na face as marcas da violência do país: teve um olho perfurado por uma faca. “Me obrigaram a entrar no exército, eles matavam, faziam atrocidades com as pessoas. Então, falei para eles que estava errado”, diz. A queixa lhe custou o olho.

Quando chegou a São Paulo, há seis meses, Mapasa vagou pela rua por cinco dias. Um homem, também africano, o viu e o encaminhou para o albergue onde vive hoje. O congolês fez aulas de português e quer trabalhar como cabeleireiro.

Além das aulas de português, o Crai (Centro de Referência e Acolhida para Imigrantes), da prefeitura, presta auxílio jurídico para a questão migratória e dá cursos profissionalizantes.

“A gente não tem como abrigar e albergar todo mundo. A ideia é sempre dar autonomia”, afirma o secretário municipal de Direitos Humanos, Felipe de Paula. Diferentemente dos moradores de rua brasileiros, muitos com problemas com álcool e outras drogas, os estrangeiros costumam sair com rapidez dessa situação.

Um exemplo citado por Felipe de Paula é o dos haitianos. Após uma onda migratória que trouxe milhares deles a São Paulo, há apenas 36 na rede de acolhida para moradores de rua. Hoje, empurrados pela crise, muitos deles têm deixado o Brasil e ido para o Chile.

Artur Rodrigues

(Folha de S.Paulo – 09/05/2016)



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