AUTONOMIA SEM PATERNALISMO

Uma articulação nova começa a tomar corpo, um processo de diálogo e interação das comunidades de refugiados e imigrantes de diversos países e nações capaz de conferir aos seus integrantes protagonismo que muitas vezes lhes é negado nas organizações de acolhimento brasileiras.

O restaurante/bar/refúgio Al Janiah, no centro de São Paulo, uma referência para a comunidade de refugiados e imigrantes palestinos, sírios e árabes da cidade, tornou-se um centro de eventos, debates, expressão artística e cultural. Na noite de quinta-feira passada (02/06), o Oriente Médio encontrou-se com a África. O Al Janiah recebeu refugiados-amigos do Congo que apresentaram aos mais de 150 presentes, em uma aula-testemunho emocionada, um emaranhado das histórias do país e de alguns congoleses e congolesas.

A iniciativa insere-se numa nova articulação que começa a tomar corpo, um processo de diálogo e interação das comunidades de refugiados/imigrantes de diversos países e nações capaz de conferir aos seus integrantes protagonismo que muitas vezes lhes é negado nas organizações de acolhimento brasileiras. Jobana Moya da equipe de base Warmis (imigrantes da América Latina) e Hasan Zarif, do MOP@T, Movimento palestina para todos, abriram a roda de conversa.

“Podemos conversar entre nós, aproximar, conhecer uns aos outros, e assumir nossos destinos no Brasil com mais autonomia e protagonismo” diz Pitchou Luambo, congolês refugiado no Brasil há seis anos e um coordenador geral do GRISTI (Grupo de Refugiados e Imigrantes Sem-Teto de São Paulo).

Ele foi um dos que apresentaram a realidade do Congo ontem à noite. Em seu país, era advogado e sua atividade era centrada na defesa de vítimas de estupro. Em São Paulo, além de ativista do GRISTI, cursa pós-graduação lato sensu em política e relações internacionais na FESPSP.

Pitchou apresentou um documentário sobre o Congo que surpreendeu todo mundo. “Sangue no celular” – veja aqui em inglês com legendas em espanhol.

O Congo é palco do mais sangrento conflito do mundo desde a Segunda Guerra Mundial, com mais de 6 milhões de mortos nos últimos 20 anos –uma guerra escondida aos olhos do Ocidente. No centro da disputa, que envolve o próprio Congo, Ruanda, Uganda e Burundi, está um metal, o coltan. É um metal de alta resistência térmica, eletro-magnética e corrosiva e, por isso, fundamental na composição dos chips utilizados nos celulares, notebooks, desktops e outros eletrônicos. O Congo tem nada menos que 80% das reservas mundiais do metal e os três países que lhe movem guerra tornaram-se exportadores sem ter nenhuma mina de coltan.

É uma guerra especialmente sangrenta; sequestros, estupros, chacinas são rotineiros. Pitchou apresentou ontem à noite um panorama sobre a guerra e o interesse da indústria tecnológica no coltan. Ele relatou algo dramático, que acontece desde o tempo da colonização pelos belgas: mata-se com especial afinco os mais velhos nas tribos. Como a cultura no país é fortemente oralizada, a morte dos mais velos significa um ataque direto aos transmissores da cultura e tradições do povo.

Depois de Pitchou falou Hortense Mbuyi, também congolesa e advogada. Ela é ativista pelos direitos das mulheres e apresentou uma dramática denúncia da violência sofrida por elas no Congo. “O estupro é arma das guerrilhas. Além da violência física há uma violência psicológica feroz. Muitas mulheres e crianças são estupradas diante dos homens da família. Isso abala psicologicamente todos na tribo.” Para Hortense, “a globalização de que tudo mundo fala, significa o bem estar de uns poucos à custa de milhões e milhões que estão sofrendo, com as guerras, violências , explorações.”

Por fim, falou Christo Kamanda, jornalista congolês e ativista pelo direito de expressão dos imigrantes. Ele apresentou a importância da mobilização da comunidade internacional para o mundo entender e se sensibilizar com o drama da guerra do Congo.

Hélio Carlos de Mello, dos Jornalistas Livres, que foi lá acompanhar o encontro depois de um almoço muito animado e revelador ao redor de Pitchou Luambo, escreveu um breve texto sobre a noite:

A palavra refugiada

“Meu ato se recolhe em noite úmida. Em porão de viaduto e bares refugiados na cidade encontro homens vindos de antigo reino. Descubro na cidade soturna o espírito do grande Reino do Congo, e desvelo que o solo retalhado pelos colonizadores europeus, que habita nossos celulares e toda eletrônica da comunicação, tornou-se o solo sagrado dos enterros, talvez a história mais feroz da intolerância humana e ferocidade do capitalismo, onde países disputam a golpe de facão e tiros de fuzil o minério que nos permite sermos países desenvolvidos.

Saio meio envergonhado da palestra, pensamento vago na noite fria, acanhado de ser gente e consumidor. A dor não se refugia na alma, fica estampada nos olhos, na pele, nos gestos, apenas migra e nos comunica seu pesar. Imigrar é vontade de vida, é desejo de prosseguir e plantar. Quando se foge da morte vencemos a noite, mas não da história que nos condena todos à reflexão.”

Karla Portes, Hélio Carlos Mello e Mauro Lopes

(Jornalistas Livres – 05/06/2016)



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