Um sabor sírio na Tijuca

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Fachada do Camelo’s, no bairro da Tijuca / Foto: oestrangeiro.org

Foi em meio ao fluxo da clientela do seu restaurante que Taj Din recebeu o pesquisador do oestrangeiro.org para uma conversa na mesa do outro lado da calçada, onde regularmente ele atende os interessados em entrevistá-lo. Em uma estreita rua nos arredores da Praça Saens Peña, no bairro da Tijuca, é ali há 8 anos que se localiza o Camelo’s, especializado em comida árabe. Uma das melhores opções no Rio de Janeiro, segundo Din.

O segredo, diz, são os temperos vindos da Síria. Nascido no Brasil, mas filho de um sírio e uma brasileira, o empresário acostumou-se a viver entre os dois países e fez os produtos fazerem o mesmo percurso. “Eu sou chef, a minha comida não muda”, orgulha-se ao olhar para o empreendimento. “É o seguinte, comida tem isso de regionalização. Eu vivi nas montanhas e há uma maneira de fazer a comida que faz diferença no resultado final. Cada lugar é diferente. É bom também, mas é diferente”.

Para ele, embora muitos restaurantes congreguem mais atributos visuais, no seu negócio a potência árabe é garantida pelo sabor das esfihas, kibes recheados, kebabs ou no variado buffet. Mesmo considerando simples o visual do Camelo’s, Din conhece as memórias dos itens que estão no seu estabelecimento, com destaque ao exótico tabak, coador de grão-de-bico de uma região síria, utilizado por ele e que atualmente serve de decoração junto a um narguilé, já popularizado no Brasil.

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Tabak, à esquerda. Além de coar o grão-de-bico, acumula outras utilidades. Segundo Taj Din, “uma das melhores é armazenar o pão folha feito no TANNUR (forno típico) também para limpeza do trigo batido” / Foto: oestrangeiro.org

A satisfação de Taj Din tem origens pessoais. Ele lembra que a vinda ao país não foi sem percalços. Vivendo até os 8 anos no Brasil, passou 11 anos na Síria e retornou em 1981, depois de se formar em Engenharia, na Romênia. Como seu diploma universitário não foi reconhecido, obstáculo recorrente para quem estuda fora do país ainda hoje, encontrou na culinária uma possibilidade de cultivar o diferencial que sua interculturalidade pessoal o permitia. “Onde eu ia colocava itens árabes”, depois, ao trabalhar em um clube social na Barra da Tijuca lembra que o “cantinho árabe fazia muito sucesso”. A partir daí viu que tinha potencial para seguir com seu negócio. Hoje, além do Camelo’s, Din fornece sua comida a outros estabelecimentos pelo Rio de Janeiro.

A informação de que era também um fornecedor ocorreu por acaso. A entrevista era constantemente interrompida por colegas, inclusive um de origem árabe, a qual Din interagia com fluência árabe. O empresário explicou que ainda ajudou algumas pessoas e esse estava na outra “loja”, de fornecimento.

Em 2017 o empresário foi entrevistado pelo jornal O Globo por conta da ajuda dada a refugiados sírios. Auxiliando com documentação, morada e trabalho, Din disse que isso já não tem ocorrido como antes, mas é perceptível sua presença sírio-brasileira na região. Em português ou árabe é possível conversar com ele, com o bônus de poder ser chamado de habib (querido, em árabe) por Din. Embora tenha havido muitos sírios, como afirmou, hoje há apenas dois trabalhando com ele. “Depois que acabou a guerra eles voltaram, o Brasil para eles é muito difícil”. Com os brasileiros há boa relação. Durante o expediente ele costuma colocar músicas árabes e alguns até ensaiam aprender palavras no idioma.

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SERVIÇO

Aberto de segunda à sexta-feira, das 7h às 21h; no sábado, das 7h às 19h.

Valores partir de R$6,00 (salgados). Buffet a R$69,90.

Rua Soares da Costa, 69 – Tijuca – Rio de Janeiro.

 

 

Otávio Ávila



Categorias:em pauta, imigrantes, refugiados, testemunhos

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