“A luta é necessária, pois nos fortalece”, afirmam o haitiano Bob e a gambiana Mariama

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Mariama Bah, natural do Gâmbia, e Bob Montinard, do Haiti, contam suas histórias como movimento de luta e superação, em conversa com alunos da disciplina “As migrações transnacionais entre teoria e mundo da vida: a perspectiva dos pesquisadores e pesquisados”, do prof. Dr. Mohammed Elhajji, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no dia 05/09.

A gambiana fugiu do casamento arranjado em seu país e chegou no Rio de Janeiro em 2014. Ela afirma que, no início, tinha medo de falar sobre as suas experiências, mas queria lutar contra isso. Decidiu então fazer um post no Facebook contra o matrimônio infantil, retratando sua experiência pessoal. Obrigada a parar de estudar por causa do casamento, Mariama escreveu nas mídias sociais sobre o desejo de retornar à escola e fazer teatro. Voltou a estudar e terminou o ensino médio. Atualmente, com a ajuda do Programa de Atendimento a Refugiados e Solicitantes de Refúgio (PARES) da Cáritas RJ, ela cursa, com bolsa integral, Relações Internacionais, na Universidade Veiga de Almeida. Conseguiu cursar teatro, na ONG ECOA, e hoje atua na novela das seis da TV Globo, Órfãos da Terra, além de participar do Coletivo Feira Chega Junto, e de ser a CEO da marca Sabaly.

O silêncio inicial de Mariama é comum entre imigrantes. O teórico Abdelmalek Sayad  retrata em seus estudos o silêncio dos imigrantes, e afirma que ele pode estar relacionado à uma situação traumática. “Naquele post, eu senti a necessidade de falar, de não ficar calada. A gente tem medo de demonstrar as nossas fraquezas. Eu estava falando, porque precisamos entender que a fala é uma forma de não ser invisível”, alerta Mariama. O estudo de Sayad conduz, portanto, para o entendimento de que as opressões decorrentes de violência, física e/ou psicológica, podem silenciar muitas vozes.

Bob Montinard saiu do Haiti devido às consequências do terremoto de 2010.  Ele foi para a França e, em uma viagem de férias, pensou na possibilidade de morar no Brasil. Diferentemente de outros haitianos, nunca tinha pensado em sair do seu país de origem. Mas, após o terremoto, ele afirma que não teve escolha. Fundador da empresa Mawon, Bob disse que, quando chegou aqui, estava focado na luta pela representatividade da dignidade do povo haitiano, mas depois decidiu ampliar os horizontes. “A Mawon não pode ser uma coisa só do Haiti”, afirmou. Então, abriu a empresa para trabalhar com o interesse geral, econômico e cultural da comunidade migrante. O ativista haitiano acredita que a luta é necessária, “porque nos fortalece”.

As falas de Mariama e Bob demonstram que as perspectivas empíricas, juntamente com as teorias relacionadas ao movimento migratório, desvendam a importância de abordar os processos de integração e de escuta no país de acolhimento, considerando aspectos da cultura, da classe e das dinâmicas de poder em que estão envolvidos. Afinal, a narrativa de vida também pode ser uma estratégia política de poder.

De acordo com o sociólogo Pierre Bourdieu, o espaço social e as lutas simbólicas tornam-se necessários a qualquer coletivo, principalmente no caso dos migrantes e refugiados. “O elitismo é uma estratégia de disputas pelo poder, por isso a importância de os refugiados terem o lugar de fala, principalmente na área acadêmica”, ressalta o prof. Mohammed Elhajji. Segundo o professor, a universidade pode ser o ponto inicial para um caminho mais humanista. “Afinal, não é a Mariama que precisa do Brasil, mas é o Brasil que precisa da Mariama”, conclui Elhajji.

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Por Catarina Gonçalves

 



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