Mãe na Espanha, irmão no Chile. Para William, é preciso tocar na ferida política venezuelana

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Na quinta-feira (26/09), o venezuelano William Clavijo foi o convidado da disciplina “As migrações transnacionais entre teoria e mundo da vida: a perspectiva dos pesquisadores e pesquisados”, organizada pelo grupo Diaspotics/UFRJ.

O cientista político e doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento, no Instituto de Economia/UFRJ, veio ao Brasil em 2014 quando o fluxo de venezuelanos ainda não havia se acentuado como temos visto hoje. Com o objetivo de estudar e retornar, William chegou ao Rio de Janeiro por um primo que já morava na cidade e viu de longe o drama econômico e humanitário vivido por seus compatriotas e que se estendeu a ele, impossibilitado de voltar. Mesmo longe, a crise fez se interessar ainda mais pelo país e buscar nos estudos de política e economia uma forma de oposição ao regime vigente.

Antes, já era um “ativista social”, como ele designa. Em San Cristóbal, cidade que fica a cerca de 40km da fronteira com a Colômbia, William se incorporou a um projeto de sua universidade atuando na promoção cultural e na organização para a auto-gestão de comunidades do lado venezuelano da fronteira. Foi a partir dessa vivência que o anseio social se encontrou com o político e, na filiação ao partido Voluntad Popular (o mesmo de Juan Guaidó), William incorporou suas vivências na fronteira à prática articulada da política.

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É importante ressaltar que o tema da Venezuela é sempre polêmico, porque evoca uma polarização que sentimos particularmente no Brasil. A política apresenta suas nuances racionais e emocionais, mas “é preciso sempre ouvir aqueles que vêm do país”, instruiu a doutora em psicossociologia Catalina Revollo Pardo. A migração tem por característica o intercâmbio humano que traz consigo um intercâmbio de ideias e experiências que precisam ser consideradas e valorizadas, sobretudo quando os deslocamentos transnacionais irrompem a casa das 3 milhões de pessoas.

Entre esses 3 milhões, William afirmou manter pouco contato com pessoas que vivem na Venezuela porque sua rede de contatos majoritariamente migrou. Sua mãe vive na Espanha, irmão e prima no Chile, alguns amigos em Buenos Aires, lugar que, ao sair para um bar, viu-se em meio a colegas de infância. Segundo ele, encontram-se basicamente na Venezuela aqueles que não têm dinheiro para sair do país e outros cuja crise não afetou, como um amigo que comercializa mamão para a Colômbia e mantém suas economias e consumos no país vizinho.

 

A Venezuela pelo venezuelano

William logo ressaltou: “É imperativo entender como o petróleo impacta na crise do país”. Para ele, a baixa na produção para 800 mil barris, alinhada ao processo de estatização completa das empresas a partir de 2006, contribuiu para a crise atual. 

Politicamente, as acusações do venezuelano são mais graves. A progressiva destruição das instituições democráticas do país teve início com uma tentativa de boicote nas eleições legislativas de 2005 e uma reforma constitucional derrotada pela oposição em 2007, ignorada por Hugo Chávez e culminando um domínio do poder legislativo do governo. O controle dos meios de comunicação e medidas controversas de segurança pública receberam críticas na Organização das Nações Unidas (ONU).

Para Michelle Bachelet, alta comissária de Direitos Humanos da ONU, as execuções extrajudiciais foram “supreendentemente altas”. No relatório, após sua visita ao país em junho deste ano, afirmou que “os grupos armados civis pró-governamentais conhecidos como coletivos contribuíram para a deterioração da situação, ao impor o controle social e ajudar a reprimir as manifestações” e que “entre 1º de janeiro e 19 de maio deste ano, outras 1.569 pessoas foram mortas, segundo as estatísticas do próprio governo, e outras fontes sugerem que os números podem ser muito maiores”.

Além de Bachelet, William lembrou que outro político do espectro de esquerda latino-americano criticou Maduro: Pepe Mujica. O uruguaio afirmou que não se trataria mais de uma democracia, mas de uma ditadura, assim como na Arábia Saudita, na Malásia e na China. Só em 2017, 72 denúncias de tortura marcaram um ano doloroso. No entanto, os resultados mais alarmantes são humanitários: indicadores da Pesquisa Sobre Condições de Vida constatou queda das capacidades sanitárias e uma evolução da pobreza que fez 60% da população perder em média 11kg.

 

Venezuelanos no Brasil

Levantamentos demonstram uma tentativa de interiorização dos venezuelanos por meio da Operação Acolhida em Roraima, a qual se integram dezenas de organizações dos três setores da sociedade. A unidade federativa do norte é a que recebe o maior número de venezuelanos, seguida por São Paulo, Amazonas e Rio de Janeiro.

Há outro tipo de organização, a informal, e atua sobretudo com finalidade humanitária. Quando é necessário algum auxílio mais pontual, William disse que os venezuelanos têm se organizado na inserção laboral (ainda um grande desafio) e no auxílio financeiro dos que tentam uma nova vida no país. Além da dificuldade do emprego, William ressaltou sua dificuldade de regularização do status migratório ponderando que “a regularização passou a ser muito simples a partir de 2017. Muito mais simples que nos países vizinhos devido às portarias ministeriais assinadas no governo Temer”, benefício aos 90 mil venezuelanos que buscaram acolhimento no Brasil somente em 2018. O  lado positivo fica por conta do acesso aos serviços públicos no Brasil, como a gratuidade na saúde e na educação e a solidariedade que tem recebido de brasileiros e organizações de direitos humanos, como a Caritas.

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“Por mais que não me identifique com partidos de esquerda tenho que reconhecer as conquistas”, referiu-se à políticas de assistência social e de direitos humanos, como o Bolsa Família. A fala conciliadora tem motivos. Um dos desafios argumentados por William diz respeito à incompreensão de brasileiros sobre o que tem acontecido da Venezuela. “Eu busco um espírito democrático e não me agrada a polarização que tem levado a extremos e intolerância”. Agora, o maior desafio de William encontra-se na conclusão de seu doutorado na UFRJ. Em breve, a universidade terá mais um doutor imigrante, pesquisador em transição energética e que poderá nos dizer mais sobre a implementação de políticas industriais e de inovação de recursos naturais.

Otávio Avila



Categorias:análises, diásporas, imigrantes

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