Silenciamos ou somos silenciados? Necropolítica e representações sociais no Brasil contemporâneo

As canções de Bella Ciao, hino contra o fascismo italiano, tocam pontualmente todas as noites às 20 horas. O relógio pontual, com os hinos, as paneladas e os gritos lá fora marcam vozes, mesmo diante  da impossibilidade de reivindicações durante a pandemia (Covid-19). O marco do sistema branco, heteropatriarcal com a ascensão do presidente Jair Bolsonaro enfraqueceu a luta dos movimentos minoritários, incluindo raça, nação, gênero, classe, entre outros. 

As esferas macropolíticas influenciam as esferas microssociais, e remetem forças duais entre o Eu e Outro. Os presidentes Jair Bolsonaro, no Brasil, e Donald Trump, nos Estados Unidos, são exemplos de políticas neoliberais e ultra-direitistas, em ambos os países. Bolsonaro repudia mulheres, negros, indígenas, gays, lésbicas, imigrantes, entre outros grupos, utilizando os símbolos da bandeira nacional. É o fascismo à moda brasileira, com a síndrome do cachorro vira-lata. O presidente brasileiro é mais um dos brasileiros considerados sujeitos do “Terceiro Mundo”. 

Na escala de poder do mundo global os grupos minoritários são “subalternizados”. Os estudos de Grada Kilomba (2019) e Spivak (2010) afirmam que os colonizados são incapazes de falar, por se sentirem inadequados e silenciados. O lugar de fala está relacionado com o processo de subjetivação colonizadora no contexto do racismo. A experiência do racismo é uma construção de interiorização que acontece no cotidiano. As relações de poder estão impostas entre os opressores e oprimidos. As capas das matérias de jornais mostram crianças, mulheres e homens negros silenciados. Não somente são silenciados como lugar de fala, mas como direito de existir. É uma política de silenciamento de pobres, negros e imigrantes. É o Brasil classicista, branco, misógino e machista. É o caso dos João Pedros, das Agathas, dos Miguels. 

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Gayatri Spivak: “Pode o subalterno falar?”

A política atual afeta a vida cotidiana. É uma ideologia dos extremos, permitindo a manutenção das relações de poder. Um se alimenta do poder, enquanto o outro é silenciado. O artigo de Renato Kress retrata a psicopatia pelo silenciamento do lugar de fala. É um período de luto material e simbólico, pois muitas vidas foram silenciadas. O extermínio de negros, ou seja, a necropolítica, é uma política usada em países colonizados. A necropolítica dita quem pode viver e quem pode morrer, conforme define o filósofo Mbembe Achille. O instrumento de morte da alteridade é um meio de imposição do poder e o projeto político de distribuição de armas de fogo protagoniza essa guerra. 

O ódio do Outro é o marco do fascismo, que corresponde ao medo de mudanças sociais. As teorias dos Estudos Culturais e da Psicologia Social afirmam que os movimentos identitários desestabilizam a estrutura social, construindo novas formas. As representações sociais vivem um processo retroalimentar. As lutas culturais, polêmicas e intelectuais acontecem entre oposições de diferentes formas de representações. Não obstante, percebe-se que ocorreu um pequeno avanço com os movimentos minoritários, mas à medida que o movimento vai adiante há, também, um retrocesso. É o que se observa na atual conjuntura política: um retrocesso das conquistas sociais dos grupos minoritários. 

A experiência cotidiana da destruição da alteridade, que sugere a morte pelo Estado, regula o sistema de colonização. A política de silenciamento de vidas determina uma desumanidade de dominação. A tentativa de ancoração do movimento “Vidas Negras Importam” torna-se necessário na luta contra o fascismo. Devemos lembrar que com os extremos não há diálogo, mas que é importante nós encontrarmos, neste caos político, econômico e social uma conscientização da “humanidade perdida”. 

 

Referências: 

ARRUDA, A; Barros, Carolina. Afetos e Representações Sociais: Contribuições de um Diálogo Transdisciplina. Psicologia: Teoria e Pesquisa. Abr-Jun 2010, Vol. 26 n. 2, pp. 351-360
GUARESCHI, N. Psicologia Social nos Estudos Culturais. Perspectivas para uma nova Psicologia Social. Org. Michel Bruschi. 2 ed. Petrópolis: Vozes (2018).
HALL, S.  Cultura e Representação. Rio de Janeiro: Editora PUC-RJ, 2016.
KRESS, R. Psicopolítica dos afetos: quem lucra com o teu lacre? Caos filosóficoDisponível em:https://caosfilosofico.com/2020/05/22/psicopolitica-dos-afetos-quem-lucra-com-o-teu-lacre/ Acesso em 01 jun. 2020.
KILOMBA, G. Memórias da Plantação: episódios de racismo quotidiano. Lisboa: Orfeu Negro, 2019.
SPIVAK, G. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: UFMG, 2010.
MBEMBE, A. Necropolítica. 3. ed. São Paulo: n-1 edições, 2018.

 

Catarina Gonçalves
Mestre em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social pela UFRJ e membro do Diaspotics.



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