Existência literária de ser migrante

Quando um se torna um migrante (não planejado), um refugiado (com ou sem visto humanitário), um exilado ou asilado, é porque a vida se deteriorou e é necessário recomeçar. Uma vida quebrada é uma vida em ruínas, parada, suspensa, violentada ou no melhor dos casos… em trânsito. A existência torna-se pesada de esperanças e decepções, de sonhos e pesadelos, de solidão acompanhada, de angústias, silêncios, caroços na garganta e feridas que não fecham. É preciso canalizar todas as emoções para evitar danos maiores, no meu caso a literatura serve como grito, como denúncia, por isso escrevo. Os relatos aparecem da necessidade de ter uma guia na vida, um “livro sagrado” da minha nova condição existencial. Como se fossem fragmentos dos livros da minha Bíblia pessoal, compartilho minha chegada em Curitiba e a acolhida das universidades. 

Corredor do Setor de Humanidades da UFPR onde são as aulas do Projeto Português Brasileiro para Migração Humanitária, PBMIH. Crédito: Álvaro M. Pino Coviello

Chegamos

“Aqui estamos os refugiados, os exilados, os auto-exilados… quem viemos a Curitiba em busca da Terra Prometida. Não importa de qual religião somos ou se não praticamos nenhuma, mas sim há uma terra prometida, um lugar onde esperamos ser felizes, porque, por algum motivo inadiável saímos da terra que nos viu nascer.

A alguns… bombardearam-lhes sua cidade, seu bairro, sua casa; a outros a fome, a miséria, bateram em sua porta. A eles, a falta de oportunidades, a falta de trabalho, a desocupação os obrigou a ocupar-se buscando novos horizontes. E quando pensar se tornou perigoso… houve que fugir porque a política foi tortura. Os menos são os que vieram porque tiveram muitas oportunidades. Mas os mais, viemos à procura de UMA oportunidade, uma só e precisa: a de continuar vivos.

Outros como eu, criamos uma nova categoria: refugiados afetivos. A nós não nos bombardearam nosso povoado, não nos prenderam em uma manifestação, não perdemos nossos empregos, não passamos fome.

A nós, nos implodiram, nos bombardearam, mas de dentro, da nossa essência. Tiraram-nos nosso nome, mutilaram nossa família, nos humilharam; flagelaram nosso corpo, emoções e alma.

De nós não ficou nada. Nada do que éramos. Éramos sonhos, trajetórias profissionais, risadas de crianças, braços abertos, nos entregávamos no outro e caminhávamos erguidos olhando para frente, para o futuro, fazendo bom uso dos poderes conferidos.

A implosão destrói tudo e no minuto seguinte não há nada. Nada do que éramos, não lembramos nem nosso nome. A onda expansiva destrói cada partícula de nosso ser e pensamos em nos levantar, levantar para que? Se estamos desintegrados. Mas resta o último sopro de vida e conseguimos ficar de joelhos, nosso instinto de sobrevivência é ativado e alguma voz autorizada nos recomenda é hora de partir, de fugir, de começar de novo em uma terra prometida e nossos espíritos se reencarnam de novo”.

Evangelho dos Migrantes e Refugiados 1: 1-17

Acesso da sede da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, UTFPR, onde funcionam os cursos de extensão do Grupo de Pesquisa Português para Falantes de Outras Línguas, PFOL. Crédito: Álvaro M. Pino Coviello

Chegaram

“Ao chegar a Curitiba foram acolhidos apenas por serem seres humanos. Estavam todos reunidos os professores do Programa de Português Brasileiro para Migração Humanitária e do Grupo de Pesquisa Português para Falantes de Outras Línguas na mesma torre de Babel. De repente, veio da Universidade Federal do Paraná e da Universidade Tecnológica Federal do Paraná um barulho parecido a uma forte rajada de vento, que ressoou nas salas de aula onde estavam. E então viram aparecer umas línguas como de fogo, que desceram separadamente sobre cada um deles.

Todos ficaram cheios do Espírito Acadêmico e começaram a falar em distintas línguas, conforme o Espírito lhes permitia expressar-se.

Havia nas universidades muçulmanos piedosos, vindos de todas as nações do Oriente Médio e do Magreb.

Ao ouvir-se este ruído, se conformou uma multidão e encheu-os de assombro, porque cada um os ouvia falar em sua própria língua. Com grande admiração e espanto diziam: Por acaso esses homens que falam não são todos os refugiados estrangeiros? Como é que cada um de nós os escuta em sua própria língua?

Sírios, mauritanos, nigerenses, congolenses, nigerianos, benineses, angolanos; aqueles que vivemos na mesma América: haitianos, cubanos, venezuelanos, paraguaios, argentinos e todos do Mercosul; marroquinos e tunisianos; peregrinos ortodoxos e muçulmanos; os de religiões com origem afro, os que optaram por não acreditar e os incrédulos; os que falam lingala, kikongo, kiswahili e tshilumba; inglês, francês e árabe; os que articulam em yorubá, hausa, igbo e fula das 510 línguas de seu estado natal; os de línguas berberes, os que compartem a “ñ” como nós como o wolof e outras palavras em espanhol como o hassaniyya; os que guardam o italiano e o hindu; os que sabem guarani, quechua, aymara, tapiete, wichí, chorote, nivaĉle, chane e qom; todos os ouvimos falar em nossas línguas as maravilhas da Humanidade.

Porque o Espírito Acadêmico atua nestes professores e as línguas pousam em nós, dando-nos o fôlego da vida. “

Livro dos Atos dos Professores das Universidades 2,1-11.

Prédio Histórico da UFPR onde se encontra o escritório para Migrantes e Refugiados. Crédito: Álvaro M. Pino Coviello

Chegamos.

(Somos o mundo de cada um em meio do mundo de todos. Somos a humanidade em uma terra prometida concreta: Curitiba).

Álvaro M. Pino Coviello
Migrante, Jornalista e Locutor Nacional, Master in Tecnologie per la Comunicazione dall’ Università degli Studi de Cagliari y la Universidad Nacional de Tucumán (UNT), mestrando em Gestão da Informação pela UFPR, alumno del Doctorado en Humanidades en la UNT e membro do Diaspotics.



Categorias:diásporas, imigrantes, testemunhos

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