A relação entre cidades, mobilidades e afetos

“Não seria possível imaginar as cidades como conhecemos hoje sem os fluxos populacionais e simbólicos”, afirmou o prof. Mohammed Elhajji, durante a segunda edição do evento Conversações Eco-Pós, promovido pela UFRJ, que teve como tema “Afetividades comunicantes”. Segundo Elhajji, as migrações têm sido estruturantes do fenômeno urbano. Desde sempre os humanos migram, em outras palavras, “a migração é a normalidade da população humana”. Tanto que as primeiras grandes cidades, reinos e impérios – lembrou ele – devem sua constituição, em grande parte, aos fluxos humanos.

Mas como relacionar o espaço urbano, a mobilidade e o afeto? Ao utilizar a modelagem afetiva como método de análise da mobilidade humana no contexto urbano, o professor afirmou que “a mobilidade humana é o afeto ou a subjetividade em movimento”. Elhajji explicou que as cidades são o principal polo de atração para as migrações transnacionais. As pessoas que migram buscam a cidade e não o campo. “A cidade é o lugar de êxtase, de fascínio, de sedução. É a festa”, afirmou.

A migração para outro país exige importante capital humano e social e é buscada por pessoas que almejam mudanças que vão além do que seus próprios países podem oferecer. Com isso, Elhajji destaca que os miseráveis não costumam migrar para longe, pelo contrário, ficam dentro ou mais perto de seus países de origem. São os países que atingem certo grau de desenvolvimento que, em geral, acabam estimulando a migração de sua classe média. Ainda que o desejo de consumo material seja apontado como um dos principais motivos para a migração, o migrante procura também mudanças que possam saciar sua libido, ou seja, aquilo que as novas conquistas materiais podem representar de forma simbólica, em termos de força de vida.

“A cidade é o conjunto dos fluxos comunicacionais”, afirmou o professor. São as trocas que dão forma à cidade. “Quanto mais fortes e intensas são essas trocas, mais atrativa é a cidade”, explicou. A cidade torna-se, portanto, um lugar de encontro afetivo, tanto faz se há atrito ou afinidade. O que importa, segundo o professor, é que haja afetação, ou seja, vinculação. Afinal, quando não se é afetado, não há comunicação.

É na cidade, continua ele, onde é possível se aproximar do diferente, do Outro. A cidade torna-se, então, um catalizador emocional, aproximando diferentes visões de mundo. Dessa forma, Elhajji cita o antropólogo Arjun Appadurai, ao afirmar que a mobilidade é material, real, geográfica, mas também emocional e afetiva. De acordo com Appadurai, o sujeito contemporâneo encontra dois tipos fluxos: humanos e simbólicos. E, com isso, acaba sendo desterritorializado, ou por mudar de espaço geográfico ou por ser atravessado por fluxos simbólicos.  

Para assistir à palestra do professor Elhajji, clique aqui. A mesa completa está no canal da Eco-Pós UFRJ, no YouTube. Também participaram do painel, que teve a mediação de Maria Lívia Roriz, os professores Raquel Paiva e Micael Herschmann.

Por Fernanda Paraguassu
Jornalista e pesquisadora do Diaspotics



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