O anúncio: você vai se mudar de país. A partir daí quase tudo é desconhecido. Quem vai? Quem fica? Cris é uma jovem tartaruga migrante que chega ao Brasil sem saber muito bem o que encontrar. No Brasil, mas poderia ser em outras terras. É uma nova escola, num país estranho, numa língua esquisita, com gente que faz coisas engraçadas ou incompreensíveis. É uma vida toda nova – e que não foi pedida. Como enfrentar essa avalanche de mudanças e fazer amigos? Cris nos conta sobre suas aventuras e experiências no livro ilustrado “Eu sou daqui e de lá – Encontros Interculturais entre Estudantes Brasileiros e Migrantes na Escola, um dos produtos da tese de doutorado “MEU PORTUÑOL FALA: sentidos produzidos por crianças e adolescentes migrantes latino-americanos nas escolas brasileiras”. Ela conta suas impressões e compartilha seus sentimentos em português, mas também em espanhol e em inglês.

O livro foi confeccionado a partir das falas das crianças e dos adolescentes que participaram da pesquisa para a tese, mas ele não chegou de uma maneira fácil. Às vezes as coisas parecem precisar dar errado para se transformarem em outras melhores. Às vezes, nem sempre. Mas, às vezes… Ele começou numa tentativa de fazer uma história em quadrinhos, algo bastante solto, que não estava previsto como produto da tese e, assim, tinha em sua essência a liberdade de um exercício criativo. Sentei e fiz os quadrinhos. Aos poucos me dei conta de que era algo em que as crianças e os jovens poderiam participar de maneira mais ativa, já que as oficinas de apoio psicossocial que fizemos durante a pandemia não puderam continuar e o projeto do vídeo sobre a história de vida deles não conseguiu ser concluído. Eles alteraram falas e incluíram situações. Mesmo assim, enquanto quadrinho, ficou horrível. Bom, talvez não horrível, mas a execução – toda minha – ficou ruim. Não servia para quadrinho, um professor me disse. Desconstruiu o projeto com delicadeza e mostrou uma luz, orientando: salve o texto e use em um livro ilustrado. Nada fácil para quem não sabe desenhar e nem poderia contratar alguém. Afinal de contas, qualquer produto que saísse da tese deveria ser gratuito – posição política e compromisso de devolução à sociedade pelo desenvolvimento da pesquisa dentro de uma universidade pública e gratuita do país, a UFRJ. Isso dificultava ainda mais as coisas. Foram horas de angústia até que… bom, só lendo o livro para descobrir as parcerias envolvidas.

O livro ilustrado, então, nasceu em mim já como tartaruga que navega léguas e léguas marinhas, que migra numa imensidão azul e verde. A tartaruga precisava, assim, mostrar a fluidez da água salgada e das identidades híbridas dos jovens migrantes em seus desafios e conquistas. Nas identidades que se fundem sem nos darmos conta, até que nos vemos como um outro de nós mesmos, diferentes do início da jornada. De modo que a liquidez da interculturalidade precisava ser mostrada em processo, em cada pincelada… em aquarela. É um livro para crianças? Sim, mas não só. É um livro que pretende falar com a alma daqueles que passaram por migrações, mas também que aproxima essa experiência daqueles que por ela não atravessaram. É um preparar para acolher, embalado por água e aconchego, no reconhecimento das diferenças e da potência de se levar a casa para onde a própria história for sendo construída e reconstruída.

Contando assim, parece ter sido um nascimento de geração espontânea, como se os muitos anos de vivência e pesquisa não tivessem nada com isso. Mas, sabemos que nada surge do vácuo e as pedras pisadas nos últimos, digamos, 25 anos, tiveram tudo a ver com isso. Eu diria até mais anos, mas vamos parar com as contas para focar no mais importante. No caminhar, tive contato com as crianças e jovens nos estágios da psicologia, o Parlamento Infantil na Cidade de Praia e todo o trabalho voluntário com os meninos e meninas de Cabo Verde, a convivência com os jovens do MST, a construção da Rede Nacional Primeira Infância, a elaboração do Kit Primeira Infância para os professores e pais, o Plano Nacional Primeira Infância, os trabalhos com os jovens nas favelas, no sertão, com os refugiados, no consultório, na universidade e por aí vai…

Então percebo que o bonito de ser psicóloga é ouvir atentamente e compreender um outro que não é você. Sem julgamento, tal como ele é. Muitas vezes nesse desenrolar dos novelos que vão sendo trabalhados, a gente devolve a tradução daquilo que recebemos emaranhado, ajudando a enxergar os caminhos possíveis e os significados que colorem o discurso. Foi um pouco assim que surgiram o texto e as imagens do livro, numa tradução de muitas experiências compartilhadas, de vários novelos entrelaçados. Muitas vezes, foi difícil escutar os momentos de dor. Mas os encontros e as entrevistas também trouxeram risadas e vínculos. Além disso, indicaram atividades que serviram para povoar o produto que – esse sim – já tinha sido anunciado, o “Atlas de Atividades para Promoção de Ambientes Interculturais e Acolhedores em Sala de Aula”.

Não sabia como iria fazer, mas quando dei por mim, já tinha prometido: a existência de um produto além da tese. Algo que conseguisse chegar aos professores para apoiá-los, como parte de um agradecimento pelo esforço, mesmo sem suporte, para receber as crianças e os adolescentes migrantes que aqui chegam. Mas, como fazer isso? Era necessário ouvir a voz das crianças. Não dar voz, isso não, porque todo mundo tem voz. E potência. Mas era preciso criar as condições necessárias para escutar as crianças, os adolescentes, os educadores (entre os quais os entrevistados), a família e os amigos. A partir do conteúdo que traziam foi possível, então, transformar ideias em atividades para a sala de aula. Algumas atividades vieram de manuais e sites espalhados pelo mundo, outras precisaram de um trabalho de construção tendo como gênese uma ideia encontrada ou algo dito durante os anos de pesquisa.

Então é isso, materiais produzidos e, finalmente, seguindo para muitas direções do globo. A tese feita e revisada na medida do realizável, naquilo que coube fazer. Era o resultado com que há anos eu havia sonhado? Certamente não. É algo novo, do qual só agora começo a perceber, de fato, os contornos. Foi o que sobreviveu aos cortes, às horas empenhadas, às ideias que vira e mexe pareciam fantásticas e se despedaçavam no ar. Fazer ciência é uma coisa, assim, muito dura. Não é só a exigência de fora, mas é uma cobrança interna que nos faz acreditar que a tese deveria ser feita a cada respiração. Então, de fato, o resultado que surge é o que foi mais forte do que nós. O que resistiu. Juanita, minha tese querida, agradeço a caminhada.