Ecoando comportamentos da sociedade contemporânea, o mundo literário se apresenta como um campo predominantemente machista. Mesmo que algumas autoras tenham conseguido destaque, o trabalho para se manter no mundo das letras tem se mostrado árduo, pois, de fato, este ainda é universo dominado por homens.

Tal debate vem sendo fomentado no universo do refúgio, onde escritoras refugiadas, após vivenciarem contextos desafiadores, se lançam a mais uma forma de tornar leve e prazerosa sua sobrevivência. Questões individuais que perpassam suas histórias, traduzidas em xenofobia, misoginia, racismo, aporofobia, entre outros, se tornam combustível para o espaço criativo e a entrega à escrita.

Um campo em disputa e uma diversidade crescente

Se fizermos uma busca rápida sobre livros literários que abordam o tema do refúgio, encontraremos títulos variados, pois, de certa forma, os dramas vividos por pessoas refugiadas aguçam a imaginação dos autores, que encontram neste campo terreno fértil para a produção de enredos que alimentam o mercado. Mesmo que muitos autores não tenham vivido ou compartilhado essa realidade.

Sem questionar o mérito das produções, o que gostaríamos de ressaltar é o espaço em crescimento de autoras refugiadas, em um campo tão disputado. Mulheres que, após vivenciarem as adversidades políticas, geográficas, sociais e/ou psicológicas da condição do refúgio, resolvem ser protagonistas de suas próprias histórias, contando a partir de um olhar próprio e individualizado a leitura que fizeram de suas vidas. Colocando em prática suas “escrevivências”.

A condição de refugiada nem sempre permite à mulher que gosta de escrever exercitar suas habilidades, nem mesmo publicar seus textos; pois as adversidades e os preconceitos que fazem parte de seus cotidianos se materializam em obstáculos incapazes de permiti-las “furarem a bolha” do campo literário.

Recomeçar uma nova vida com status de refugiada, apátrida ou em situação de refúgio não compreende, na maioria das vezes, espaços e oportunidades para o desenvolvimento de um hobby ou lazer. Neste sentido, proporcionar oportunidades para que estas mulheres mostrem seus talentos é urgente e fundamental.

Eventos abordam a literatura feminina refugiada

Algumas mulheres transformaram suas histórias de vida em literatura, como Malala Yousafzai, Maha Mamo, Nujeen Mustafa entre outras. O que impulsionou tantas outras a realizarem o mesmo sonho.

Podemos destacar, aqui, dois eventos que trataram desta temática:

O primeiro foi em uma mesa de discussão do X Simpósio de Pesquisa sobre Migrações, organizado pela ECO-UFRJ, entre os dias 02 e 04 de outubro do ano de 2023. A mesa abordava temas sobre Migrações, Gênero e Identidade. A autora Daniele dos Santos de Souza, com seu trabalho intitulado NARRATIVAS FEMININAS DO REFÚGIO: Um estudo crítico das autobiografias e biografia de refugiadas sírias, nos apresenta em seu estudo um debate sobre o mercado literário e o interesse por histórias de pessoas que vivem o drama do refúgio. No trabalho, a autora analisa autobiografias como: “Nujeen” (2017) de Nujeen Mustafa e Christina Lamb, “Borboleta: de refugiada a nadadora olímpica” de Yusra Mardini (2022) e a biografia “Uma esperança mais forte que o mar” (2017) de Melissa Fleming. A pesquisa investiga o discurso neo-orientalista presente nestas obras, bem como seu impacto na narrativa feminina do refúgio.

Segundo Daniela dos Santos, as autobiografias têm sido um gênero privilegiado pelo mercado editorial interessado em abordar a crise humanitária de refugiados. A autora cita também outras obras: The home that was our country: a memoir of Syria (2017) de Alia Malek, Diários de Raqqa (2017) de Samer, Eu venho de Alepo (2017) de Joude Jassouma, O menino de Alepo (2017) de Sumia Sukkar, Querido Mundo (2017) de Bana Alabed, No turning back: life, loss and hope in wartime Syria (2018) de Rania Abouzeid, The boy on the beach (2018) de Tima Kurdi, The pianist from Syria: a memoir (2018) e The pianist of Yarmouk (2019) ambos de Aeham Ahmad e Other words for home (2019) de Jasmine Warga.

Nas palavras da autora, “a experiência do refúgio tem ganhado cada vez mais visibilidade como um tema central, resultando em um considerável aumento na publicação de obras que retratam as vivências da migração forçada, revelando um notável acréscimo de livros, tanto ficcionais quanto não ficcionais, cujo foco principal é o tema do refúgio.”1

O outro evento foi Feira Literária Internacional de Paraty – FLIP 2023, que aconteceu entre 22 e 26 de novembro. Uma mesa, coordenada pela ONG -ESTOU REFUGIADA , trouxe quatro mulheres refugiadas que contaram suas trajetórias e emocionaram os participantes, deixando como mensagem principal que o maior sonho de suas vidas é a reconstrução de suas histórias.

Os caminhos percorridos até o Brasil podem ser lidos no livro apresentado na Feira e publicado pela editora Planisfério: Histórias Reais de Mulheres em Situação de Refúgio no Brasil: Afeganistão, Moçambique, Venezuela e Ucrânia.

Este escrito conta momentos da vida de quatro refugiadas: Mahboba Rezayi, fotógrafa profissional e escritora afegã, Natalia Moroz, ucraniana e formada em línguas pela Universidade de Donbass. Lara Lopes, tecnóloga da informação e jogadora de futebol em Maputo- Moçambique e, por fim, Francis Aiarina Salazar Arevalo, uma refugiada venezuelana formada em direito pela Universidade Santa Maria e Administração no IUTA- PLC.

Todas as obras citadas envolvem situações que emocionam e alertam para a difícil jornada de quem tem o direito de escrever suas próprias histórias, tanto na vida, como no mundo literário.

1 – Informações sobre o trabalho podem ser acessadas aqui.