Zé Angel Pérez, nascido em Holguín, Cuba, em 1992, é um construtor de pontes entre o cinema e a pintura. Artista visual, cineasta e arte educador, Zé vive e trabalha no Rio de Janeiro. Possui formação em direção de documentário pela EICTV – Escola Internacional de Cine y TV, Cuba (2022), e em artes plásticas pela Academia Profissional de Artes de Cuba (2011). Após sua chegada ao Brasil, foi bolsista na EAV – Parque Lage, no curso “Cor e Forma” (2023). Seu trabalho transita entre as artes visuais, o cinema e a pedagogia. É membro fundador e coordenador pedagógico da RADAR (2023), projeto inserido atualmente na CMA Hélio Oiticica.
O Estrangeiro: Vamos começar com o seu apelido Zé, adotado no Brasil. Poderia nos contar essa história?
Zé: Tudo começou por uma questão prática (risos). Meu nome é José Angel, mas quando cheguei no Rio e comecei a me apresentar às pessoas, sempre foi difícil que elas entendessem meu nome à primeira, acho que por conta do meu sotaque. A letra “J” no português tem uma pronúncia diferente da do espanhol, então era engraçado quando tentavam falar meu nome direito ou com meu sotaque cubano (risos). Às vezes rola um portunhol selvagem, sabe? Aqui no Brasil os “José” são “Zé”, tipo “Pepe” para a gente no castelhano. Gostei do Zé e ficou comigo desde que cheguei, há um ano. Esse apelido também virou meu nome artístico. Comecei a assinar meus trabalhos de pintura assim: Zé Angel, quase como uma nova identidade.

OE: Poderia contar sobre quando e como começou a sua relação com o Brasil?
Zé: O Brasil foi o primeiro país que eu conheci fora de Cuba. Também foi a primeira vez que peguei um voo, aos meus 29 anos. Tive que desbloquear várias paradas que só existiam na minha cabeça: gostava de imaginar como era a sensação de voar, e acredite, foi assustador quando consegui (risos). E para os cubanos e cubanas que moram na ilha, cercada pelo mar, faz muito… muito sentido. Essa sensação de sair do país, de olhar através da janelinha do avião e perceber o quanto somos pequenos, foi um divisor de águas para mim.
A minha primeira conexão com o Brasil, além das novelas da Globo dubladas em espanhol, veio a partir da Escola Internacional de Cinema, onde me formei como documentarista. A Escola é um espaço criativo demais, multicultural e com muitos brasileiros estudando… Tive também vários professores do Brasil durante esse tempo na minha formação. No meu último ano, eu conheci a minha ex-companheira que é carioca. Meses depois, a gente decidiu morar juntos no Brasil. Foi assim que eu cheguei ao Rio de Janeiro no ano de 2022.
OE: Você transita entre a pintura e o cinema, ambas expressões visuais. Você acredita que a mudança para o Brasil alterou a maneira como trabalha com imagens?
Zé: Com certeza… o Brasil mudou muito a minha maneira de perceber e trabalhar com imagens. Primeiro por ser um país novo, com uma outra disposição geográfica; depois, porque chegaram a mim imagens de outra natureza: cartazes e lambes na rua, marcas de produtos de consumo, outdoors na estrada, grafitti nos prédios, pixação. Meus olhos ficaram pipocando de um lado para outro. Mas também comecei a entender as imagens de forma política, algumas vieram com um sentido manipulador. É só entrar num mercado ou numa loja x para perceber isso, ou simplesmente ligar a TV. No Brasil vi coisas que não tinha visto antes, pelo menos do jeito em que me apresentaram aqui no Rio e em São Paulo, imagens muito tristes: moradores de rua, mães e crianças na frente dos bancos pedindo esmolas e comida, imagens da miséria real, imagens muito cruas. No Brasil vi as veias abertas da América Latina. Infelizmente são cenários que se naturalizaram no cotidiano das cidades. Por isso eu fico muito ligado na minha responsabilidade como gerador de imagens, tanto no cinema quanto na pintura, porque sei o peso que elas têm nas nossas vidas.

OE: Em Cuba, como era sua relação com o cinema e a televisão?
Zé: A televisão sempre esteve presente na minha casa, desde criança, na casa dos meus amigos também. Eu consumia muita televisão. Em Cuba é comum se juntar com a família para assistir a novela brasileira da Globo às 21h. Momento sagrado. Nasci sem internet, só entrei na internet no ano de 2013 (risos). A televisão me salvou do tédio. Assistia documentários, desenhos animados, filmes, etc. O trabalho, que hoje tô desenvolvendo como pintor, está muito ligado com a relação entre o cinema e a televisão. A minha inserção no audiovisual foi por conta da pintura.
OE: Quais foram as motivações para a série “Memórias Migrantes”? Poderia compartilhar algumas fotografias das telas conosco e falar sobre as obras?
Zé: “Memórias Migrantes”. Eu gosto de falar que essa série é um diário. Cada tela é uma folha de vida. Cada obra conta uma história específica. As minhas motivações são as coisas que estou vivendo e experimentando aqui no Rio. Esse é meu material de trabalho. Só quem migra sabe o quê significa começar quase do zero. No meu caso foi uma migração tanto física quanto espiritual. Eu comecei a identificar conexões entre o Rio e Havana. São cidades muito parecidas. Essa parte do Centro, cara!, ela é muito Habana Vieja, eu pirei quando senti o clima. Tem essa parada da arquitetura, a galera. Por isso que às vezes eu falo que me sinto em casa, mas passa rápido. Só na pintura eu consigo materializar essas sensações.
Então, meu trabalho é um compilado de várias memórias, espaços, cores e texturas que se misturam em formas quadradas, fragmentadas, lembranças de lá com lembrança daqui. É isso, sempre vai ter um lá e um aqui. Voltando à ideia da pintura como prática criativa, eu fico refletindo sobre como esse fazer é um exercício de tradução de mundos. A representação criativa de uma realidade que passa pelo meu filtro. E é um papo que se ajusta também no cinema documentário. O que eu faço é uma pintura documentária. E ela só se completa quando eu consigo compartilhar uma emoção, uma verdade. O que eu senti, eu quero que você sinta também. É mais sobre a gente e menos sobre mim.

OE: Você pinta no Hélio Oiticica? O local fica quase na Saara, que, no século passado, foi habitada por migrantes árabes, judeus e armênios. Poderia contar sobre a sua relação com o centro da cidade do Rio de Janeiro?
Zé: Sim, hoje trabalho dentro do Hélio Oiticica com o projeto RADAR. Mas além de pintar, eu também sou arte-educador, ou seja, dou aulas de pintura, de arte no sentido geral. Foi assim que cheguei lá. E não cheguei sozinho.
No início do ano 2023 eu conheci o Carlos Bobi, artista visual de Duque de Caxias com a sua origem na pixação e no graffiti. Bobi já tinha uma escola de artes desde o ano 2009, chamada RABISCO. Um projeto bem legal que foi amadurecendo com o tempo. Do nosso encontro surgiu a RADAR, no primeiro semestre deste ano. E a Radar começou exatamente no coração do Saara, no Centro Cultural Oásis, onde eu e Bobi fizemos uma residência artística. Ali, não apenas no Centro Cultural, mas também nas ruas do Saara, nasceu e amadureceu o projeto, entre aulas teóricas, práticas e trabalhos de pintura no ateliê.
Hoje a RADAR é um projeto pedagógico, com uma visão mais ampla no campo das artes visuais; uma plataforma para o desenvolvimento de pesquisas e práticas. Pensamos em uma nova elaboração de cursos de pintura, com conteúdos mais próximos dos tempos atuais, e esse foi um trabalho que desenvolvemos juntos. Temos vários cursos de pintura presenciais, online, cursos teórico-práticos. Nós somos orientadores de uma galera, de artistas incríveis, a maioria periféricos.
Esse foi meu primeiro contato com o Centro do Rio de Janeiro. Cada dia eu atravessava (e ainda atravesso) aquele caos maravilhoso que é a Rua Buenos Aires, cheio de camelôs, lojas chinesas de todo tipo, barulho, tretas, polícia, comida, enfim… um ambiente muito rico antropologicamente falando. Ali conheci vários venezuelanos, chineses e sírios. É uma parte da cidade que mexe muito comigo.
Glória é outro ponto interessante. Somente em um pedaço de calçada convivem e trabalham várias pessoas de diferentes países. Trocar idéias com eles, sobretudo com os venezuelanos, é muito bom. Posso gastar a minha saudade de falar espanhol (risos).

Imagens: acervo Zé Angel.


O assunto é muito importante e vale a pena todos nós refletirmos sobre
Att, João de Jesus
Estagiário Advocacia (Divórcio e Pensão)
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