Num jornal do bairro do Raval, em Barcelona, uma mão anônima escreveu: O teu Deus é judeu, a tua música é negra, o teu carro é japonês, a tua pizza é italiana, o teu gás é argelino, o teu café é brasileiro, a tua democracia é grega, os teus números são árabes, as tuas letras são latinas. Eu sou teu vizinho. E ainda me chamas estrangeiro?

— Galeano, Eduardo, 2016. (Tradução de Eric Nepomuceno).

Ao ler uma história em quadrinhos, estou aqui, depois estou lá…

— Groensteen, Thierry, 2015, p.120. (Tradução de Érico Assis e Francisca Ysabelle Manriquez Reyes).

Há quase dois anos, enviava meu texto “Há refúgio nos quadrinhos?” para ser publicado aqui, no O Estrangeiro (blog do qual hoje sou Editor Chefe). Nele, delineei minha trajetória de pesquisador tanto de histórias em quadrinhos quanto de migrações. Como muitos pesquisadores, a minha jornada começou na Iniciação Científica, na graduação que realizei em Letras na PUC-Rio, e continuou no mestrado em Mídias Criativas, na Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ. Por mais que o tema continuasse o mesmo, nessa nova fase da pesquisa, me empenhei em encontrar um vínculo mais profundo entre esses dois universos que, à primeira vista, não poderiam estar mais apartados.

Em 2026, com a conclusão do mestrado, posso afirmar que os dois temas estavam ligados, paradoxalmente, por uma separação. Ou melhor: pelo conceito de separação.

Há diversos nomes para o “vazio” que divide um quadro de outro numa história em quadrinhos. “Calha”, “sarjeta” e, meu preferido, “elipse”. Nos quadrinhos, a “elipse” é um vazio que preenche, é um espaço negativo por onde trilhamos nosso caminho ao longo de um universo de textos, imagens e tudo o que há entre os dois. Groensteen (2015, p. 120) os define como “saltos óticos e mentais”, que nos levam de um lugar ao outro.

E o que é a migração, seja ela forçada ou voluntária, se não um profundo processo de deslocamento?

Como destaca Elhajji (2023, p. 72), quando uma pessoa migra, ela não se “desterritorializa” apenas fisicamente, mas em um nível psíquico e subjetivo. Há milhões de brasileiros que migram mentalmente para o que imaginam ser a Europa e os EUA, encontrando empregos, criando famílias e recomeçando suas vidas. Da mesma forma, há milhões de venezuelanos, palestinos e ucranianos que, mesmo estando longe de suas terras, ainda se sentem conectados às suas memórias e vivências, por mais que estas já possam ter sido reduzidas a pó por mísseis de drone.

Assim, a migração se assemelha, frequentemente, a uma tentativa de o corpo físico alcançar a mente errante, já inserida nos fluxos midiáticos globais; apesar dos enormes riscos de o percurso culminar em frustrações e decepções.” (Elhajji, p. 72, 2023).

Ultravioleta (arte por: Vitor Jardim)

Em 2024, já começava a entender que as HQs poderiam agir sob esse nível subjetivo, preenchendo vazios e conectando pessoas através de histórias (ficcionais ou não), de modo que as elipses serviram de metáforas para esses deslocamentos migratórios. O que vim a descobrir, entretanto, é que essa mídia havia sido aperfeiçoada, em muito, por migrantes.

Aldama (2021) destaca uma série de migrantes e descendentes que foram fundamentais para a consolidação dos comics estadunidenses: Richard Outcault (1863-1928), autor de Yellow Kid (um dos primeiros personagens de histórias em quadrinhos), era descendente de alemães; Jack Kirby (1917-1994) e Stan Lee (1922-2018), autores de diversos dos personagens da Marvel Comics, eram descendentes de judeus austríacos e romenos, respectivamente, e Jerry Siegel (1914-1996) e Joe Shuster (1914-1992), dupla criadora do Super-Homem, também tinham ascendência judaica, sendo Siegel descendente de lituanos e Shuster de um holandês e uma ucraniana.

Na Europa, poderia-se destacar diversos nomes, como o ilustrador Albert Uderzo (1927-2020), francês filho de imigrantes italianos, coautor dos personagens Asterix e Obelix; Enki Bilal (1945-) ilustrador e roteirista sérvio que trabalha para o mercado francês, escrevendo HQs de ficção científica; Marjane Satrapi (1969-), roteirista e ilustradora franco-iraniana autora da aclamada Graphic Novel Persépolis (2000) e Joann Sfar, francês de ascendência ucraniana e argelina, autor de obras como O Gato do Rabino (2002-2021) e Donjon (1998-).

O mesmo ocorre no Brasil: os quadrinistas Angelo Agostini (1843-1910), Henrique Fleiuss (1824-1882), Sebastien Auguste Sisson (1824-1898) e Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) são imigrantes da Itália, da Alemanha, da França e de Portugal, respectivamente, e todos foram pioneiros das charges e quadrinhos no país.

Não há fronteiras para os quadrinhos. No Japão, por exemplo, encontraram um lar numa cultura já acostumada a misturar texto e imagem para formar o mangá, que por sua vez inspiraria os manhuas, na China, e os manhwas, na Coreia.

Essa dificuldade de encontrar uma definição precisa (Seriam os quadrinhos literatura? Cinema? Artes plásticas?) são reflexos de uma mídia escanteada e ignorada, mas que ainda assim persiste e se reinventa. Como os descendentes de árabes que, mesmo estando há gerações na Europa, ainda não são vistos plenamente como europeus; como os brasileiros nordestinos que ergueram as grandes metrópoles do Sudeste, transformados em estrangeiros no seu próprio país, os quadrinhos seguem desbravando novos territórios — e fazem isso sendo nada além do que já são: uma arte limiar.

Analisei quinze obras em quadrinhos a fundo na minha dissertação, algumas das quais destrinchei no meu artigo anterior em detalhe. Li HQs ficcionais, jornalísticas e autobiográficas trazendo narrativas de todos os continentes, escritas tanto por migrantes quanto por não-migrantes. Todas elas, de suas próprias formas, recriaram esse “ser estrangeiro”, essa “outridade”, através da estranha mídia que convencionamos chamar de “quadrinhos”, dando imagem e texto a relatos e criando metáforas ilustradas para experiências descritas.

Todas essas referências serviram de inspiração para o produto do meu mestrado profissional. Em 2024, pensava em produzir uma obra jornalística, recriando relatos de migrantes internacionais vivendo na cidade do Rio de Janeiro, em quadrinhos. O que vim a perceber no decorrer da pesquisa, porém, (e isso já deveria estar claro para mim desde o início), é que não tenho formação em jornalismo. Sou, antes de tudo, escritor de ficção: autor de um livro de contos em prosa e roteirista de alguns quadrinhos breves. Não me sentiria à vontade adaptando um relato ou mesmo uma história de ficção escrita por um imigrante para o formato de quadrinhos.

Diante do bloqueio criativo, tentei recorrer a algo mais primordial, antes dos nomes, antes mesmo da palavra. Afinal, pensar em quadrinhos é pensar em imagens que falam. Inevitavelmente, os quadros e as elipses que os separam parecem formar uma metáfora quase primordial na minha mente.

Assim, surgiu uma figura vermelha em uma terra azul. Um ser que quer construir um espaço para si no azul, se integrar à sociedade que o recebeu, mas que se vê em constante tensão com ela. Afinal, é uma terra em que discursos são tangíveis e, como balões cheios de tinta, mancham e colorem sua pele. Por mais que a imigração tome diferentes contornos ao redor do mundo, Ultravioleta aposta na universalidade da busca por refúgio diante da ameaça constante da xenofobia. Utilizando a intertextualidade inerente à linguagem dos quadrinhos, a HQ apresenta uma narrativa sem diálogos em um universo ficcional que, nas suas lacunas e abstrações, pode dialogar com as vivências de muitos que se sentem “outros” em terras de “nós”. 

Com a parte teórica finalizada e defendida, continuo trabalhando na prática. Espero poder compartilhar esta obra com o mundo em breve, tanto em forma digital quanto física. Até lá, seguirei desenhando, pesquisando e pesquisando através do desenho.

Ultravioleta (arte por: Vitor Jardim)

Referências

ALDAMA, F. L. Forward. In: SERRANO, N.L. In the Shadow of Liberty: Immigration and the Graphic Space In: Serrano, N.L. (Ed.). (2021). Immigrants and Comics: Graphic Spaces of Remembrance, Transaction, and Mimesis (1st ed.). Routledge. https://doi.org/10.4324/9781315643991

ELHAJJI, Mohammed. O intercultural migrante: teorias & análises [recurso eletrônico] / Mohammed ElHajji. Porto Alegre: Fi, 2023.

GALEANO, E. O Caçador de Histórias. Tradução de Eric Nepomuceno. Porto Alegre, RS: L & PM Editores. 2016.

GROENSTEEN, T. O sistema dos quadrinhos. Tradução de Érico Assis. Nova Iguaçu, RJ: Marsupial Editora, 2015.