Crônica #4 da Coluna Raiz Estrangeira, por: Fernanda Paixão

Subia o morro pela terceira vez. O mesmo morro já parecia menos íngreme, talvez por seu pensamento estar cada vez mais focado no destino final.
O caminho parecia uma reta, uma passagem que já não a encantava.
Tinha que subir. Precisava fazer este caminho para chegar na casa de Edílio, seu amigo.
Encontrar Edílio era como elevar-se, sua alma ficava preenchida. Edílio nunca havia saído do país, nem mesmo da cidade.
Ela já estava em seu décimo destino final e jurava para si mesma que naquela cidade ficaria por mais tempo.
Naquele dia, Edílio estava saudoso de seu amigo de Burkina. Não lhe saía da cabeça uma imagem: o desenho da história inteira da família de Salif, seu amigo.
Lá, contava Edílio, a história da família ficava logo na porta. Era uma espécie de livro aberto, mas tinha segredo.
Havia segredos íntimos, revelados só para poucos, mas a história estava sempre à frente. Pedaços da história.
Aquela pintura mostrava as caminhadas e os lugares por onde a família do amigo passou. Edílio não sabia muito da família, mas tinha a sensação do desenho. O desenho contava a sensação. Ele tinha certeza que a família de Salif era rica, mas não sabia exatamente. Falavam 20 idiomas. Edílio só sabia português e entendia com dificuldade a Martina e seu sotaque espanhol. Sempre estava com amigos de todos os lugares. Salif e Martina eram os mais próximos.
Ao chegar na casa de Edílio, Martina sempre pensava que amava subir a ladeira. Era a sensaçao da ladeira, mas durante a caminhada não sabia exatamente se gostava. Sentia-se vitoriosa em chegar ali para ouvir as histórias do amigo. A vida ali naquela cidade era volátil. O tempo parecia que passava, mas era como se fosse sempre o mesmo dia. Eliete, a esposa de Edílio, estava sempre com a mesma roupa e eles sempre haviam terminado de tomar um café. Manhã, tarde ou noite. Falavam sobre tudo e escutavam Martina tentando decidir se ia ou se ficava.
Naquele dia Eliete havia comprado uma flor. Tinha cor única. Bonita. Martina olhava sempre para a flor. Seria algo especial?
Martina sempre fazia amizades por onde passava e criava histórias secretas de cada família.
Edilio, Eliete, Antônio, Maria, as gêmeas do bairro do lajão.
Quando lembrava da sua família na Espanha, tinha só uma sensação. Não sabia ao certo o que pensar, nem o que contar.
Martina vivia a história alheia.
Ao descer a ladeira, ela encontrou Estevão. Ele falava sua língua, com acento diferente. Estevão olhou Martina, imaginou sua vida e onde ela poderia morar.
Ele já a havia visto,
mulher, loira que sempre estava com chinelos.
Será ela uma nômade? Por que nunca de sapatos? Será que gosta de chocolates?
Ela sempre vestia preto.
Estevão criou histórias secretas de Martina por uma semana. Até que a encontrou novamente. Eles se viram.
Empezaron a encontrarse seguido.

