Em 2025, os venezuelanos superaram os portugueses e se tornaram a maior comunidade de imigrantes presentes no Brasil, com números estimados entre meio milhão e setecentos mil em todo o nosso território. Considerando as proporções continentais do país mais populoso da América Latina e sétimo país mais populoso do mundo, essa comunidade de hispanohablantes pode parecer diluída em meio a um oceano de lusofonia.

Entretanto, precisamos manter em mente que esses milhares de homens, mulheres e crianças vieram ao Brasil, fugindo de um estado retalhado por crises políticas internas e externas e um violento colapso econômico que produziu uma das maiores fomes do século XXI.

Jeudiel Martinez, sociólogo, escritor e pesquisador de histórias em quadrinhos é um desses venezuelanos. Refugiado no Rio de Janeiro desde 2019, Jeudiel se sustenta trabalhando como tradutor, dando palestras e aulas de espanhol. Este ano, mediante a crise na Venezuela, agravada por dois terremotos devastadores em junho de 2026, Jeudiel planeja retornar ao seu país, reunir-se com sua mãe e reconstruir sua vida na Colômbia.

Jeudiel criou uma campanha de crowdfunding para arrecadar fundos para a viagem e para seu projeto “Memória da Grande Solidão”, dividido em dois livros: o primeiro, Un lugar en el mundo, compila artigos e ensaios do autor sobre suas experiências como imigrante venezuelano no Rio de Janeiro e o segundo, Ya no estoy aquí, sobre seus últimos meses no Brasil e seu retorno ao seu país, agora sob tutela americana e atingido pelo terremoto.

A recompensa é o acesso ilimitado ao Curso Livre virtual e assíncrono “Venezuela: Uma Catástrofe em quatro lições” no Ateliê de Humanidades

Abaixo, segue uma entrevista com Jeudiel Martinez conduzida por Vitor Jardim, editor do oestrangeiro.org. Nela, Jeudiel entra em detalhes sobre suas percepções a respeito do Brasil, da Venezuela, literatura e o processo de imigração no século XXI, além de dar mais informações a respeito dos seus projetos de financiamento coletivo.

1. O título do livro parece remeter à magnum opus de realismo mágico “Cem anos de solidão” de Gabriel García Marquez. De que modos você acredita que a condição de imigrante dialoga com o surrealismo e com a literatura fantástica?

Na verdade, o título é uma descrição literal de minha experiência no Brasil: uma solidão absurda, inacreditável, que nunca imaginei ser possível. Então basicamente é um ensaio para tratar de entender mesmo a estrangeiridade do Brasil no seu próprio continente mesmo como minha estrangeiridade no Brasil. 

Tratando de entender o incrível fracasso de minha migração ao Brasil e embora nunca me enganei a respeito dos meus defeitos e simples incompetência como emigrante, percebi que a situação tinha outros fatores: o acaso, isto é, o modo como as peças caem — a pandemia, etc. — que é diferente para cada migrante, mas também uma resistência do Brasil e, em particular, do Rio, em acolher os estrangeiros. 

No começo, eu tinha até culpa de enxergar a cultura carioca como fechada, visto que costuma ser percebida como aberta, em que as pessoas tendem a ser amáveis e muitas vezes solidárias; mas, falando com outros emigrantes, entendi que não era só impressão minha. Inclusive, alguns deles descrevem a sociedade carioca com palavras muito mais duras do que eu, embora, mesmo por sorte e por serem mais capazes ou adaptáveis, eles tenham se integrado melhor. Então, a Grande Solidão é simplesmente minha solidão no Brasil. 

No que diz respeito às influências, elas têm pouco a ver com a literatura latino-americana: as memórias e ensaios pessoais de autores europeus e norte-americanos e também a ficção científica. Um dia eu estava no centro do Rio e, após assistir a uma maratona do seriado Fringe, imaginei o Brasil como a América Latina de um mundo paralelo onde Portugal colonizou a América do Sul, mas imediatamente percebi que isso não era fictício, mas real, literal: o Brasil é uma América Lusa que existe paralela à castelhana.

2. De que formas a literatura pode conscientizar nacionais e confortar imigrantes?

Discordo totalmente do conceito de “conscientização”. Esse termo é herança de um tempo em que o militante político achava que seu trabalho era despertar pessoas que estavam dormindo, sem perceber sua própria realidade.

O que acontece, na realidade, é que as ficções e em particular as narrações ativam nosso pensamento, mesmo nosso cérebro, de um jeito diferente das teorias. A narrativa dramatiza as ideias e organiza o tempo de uma forma muito basilar à vida humana, ao ponto de que essa foi a forma predominante do pensamento. Além disso, é prazeroso pensar de um jeito semelhante a um jogo. Isso não vale apenas para os migrantes, mas para as minorias em geral. As narrativas e a literatura têm uma importância enorme. 

E também tem, obviamente, algo em comum com um retorno: com um romance, um seriado, uma telenovela, uma pessoa pode voltar a inúmeras coisas que ficaram atrás. Porém, para mim, mais do que a literatura, o refúgio foi a música latinoamericana, a música comum que a gente tem (salsa, cumbia, bolero, rancheras) e os mundos fantásticos da cultura pop. Sem isso, não teria suportado a Grande Solidão. Mesmo músicas, relatos e os mundos fictícios são literalmente utopias, não-lugares em que a gente consegue “habitar”, embora seja em um nível metafórico ou ficcional. 

3. No que o Brasil e a Venezuela diferem como sociedades? E o que têm em comum?

Como falei anteriormente, o Brasil e a América Latina, particularmente o Caribe, são como mundos paralelos. É como se você fizesse dois pratos diferentes com os mesmos ingredientes. Não há apenas o elemento mediterrâneo, o amazônico e o africano, das culturas bantu, mas também muitos fluxos migratórios em comum, como os italianos. A Venezuela tem muitos portugueses da Ilha da Madeira, por exemplo.

Claro que, na origem, tem uma diferença importante porque Venezuela, como toda a América Latina, tem muito do sul da Espanha e, em particular, das Canárias que foram a origem da maioria dos brancos no período colonial. Eram brancos “estranhos”, descendentes de árabes e guanches que nem eram considerados espanhóis. 

Então, mesmo o Sul da Espanha e as Canárias têm elementos que Portugal não tem e a miscigenação e a transculturação são diferentes e também o racismo tem modalidades e uma história diferente (eu aprendi, e falo disso no livro, que nem dá para explicar isso no Brasil pois essa outra história, desse outro racismo e dos outros tipos de anti-racismo aqui só podem ser entendidas como um discurso de “democracia racial” ). Mas o importante é que, como a escravidão foi abolida, de fato, por uma rebelião de escravos e llaneros (vaqueiros das planícies do sul da Venezuela) em 1814 por quase dez anos e logo é abolida definitivamente em 1854, tem uma história muito mais curta e precária se comparada à do Brasil, em que a escravidão foi uma instituição fundacional, enquanto a peonagem talvez cumpra esse papel na Venezuela.

Mas além dessas diferenças fica o mais óbvio: Venezuela tem a área do Mato Grosso e a população de São Paulo. É, portanto, mínima comparada ao Brasil que é, de fato, um subcontinente que contém vários “países” que tanto olham para si próprios. A Venezuela, entretanto, é parte de várias redes que a conectam com os Andes e o Caribe, através da língua com toda a América Latina. 

Assim, o venezuelano xenofóbico precisa de pelo menos 6 palavras para xingar os estrangeiros (pois o odiado caliche não pode ser confundido com o turco nem com o portu) entanto na imensidade do Brasil é suficiente para que a palavra “gringo” consiga falar de todo humano que não é brasileiro. Essa profundidade continental é a principal diferença.

Imagem gerada pelo Google Gemini

4. Fale um pouco sobre as formas que você acredita que a crise política e econômica da Venezuela está sendo agravada pelo terremoto e os impactos dessa situação nos imigrantes venezuelanos.

Bom, o fato é que a maioria dos venezuelanos entendem que o Chavismo e a catástrofe são inseparáveis e isso não é propaganda: em 1999 um terrível deslizamento de terra nas mesmas zonas hoje atingidas pelo terremoto aconteceu no mesmo dia que a constituição de Chávez foi aprovada. Essa tragédia, intitulada “a Tragédia de Vargas”, sinalizou a origem do chavismo da mesma forma que o terremoto sinaliza o nascimento do protetorado dos Estados Unidos. Após um governo defendido pela esquerda mundial, apesar de seus inumeráveis crimes, vem, sem resistência nenhuma, um protetorado dos Estados Unidos, sem que a esquerda fale nada.

Então o terremoto é um evento novo que, embora contingente, encaixa perfeitamente numa longa história de catástrofes (o apagão, a destruição da moeda e a emigração maciça). Então, embora o terremoto seja contingente, a relação do chavismo com a catástrofe é necessária: o acompanha de princípio ao fim, mesmo porque a decisão de construir novamente nesses solos num terreno sísmico, inseguro, ignorando as advertências de especialistas venezuelanos e estrangeiros conecta o poder e a catástrofe como falava a antropóloga venezuelana Paula Vasquez.

Além disso, o mundo inteiro assistiu não só ao modo como o governo precisou de mais de dois dias para reagir e a forma em que os militares e policiais atrapalharam os trabalhos de resgate, perseguiram os centros de coleta e assediaram as equipes de resgate: no meio da catástrofe, sua prioridade é a repressão e, ao contrário do que pensa a direita, o governo dos Estados Unidos não se importa, como não se importou com a libertação de centenas de presos políticos inofensivos para a ditadura. 

O que acontece, então: temos um país que estava sob uma ditadura e que agora está sem soberania e sem controle dos recursos do seu subsolo e suas finanças. Um país já quebrado por mais de uma década de desastres, que tem que enfrentar não apenas milhares de mortes, mas a perda de milhares de habitações, o que vai gerar, num primeiro momento, um deslocamento interno muito grande e, num futuro próximo, alimentará novas ondas migratórias. Certamente a situação do mercado imobiliário — já bem ruim — vai piorar, e a economia sofrerá. 

A ditadura recebeu de Trump e Rubio carta branca para reprimir e as eleições ficaram como mais uma fantasia dos políticos otários que nunca souberam o que fazer diante da malandragem do chavismo.

Mas essa história, do nacionalismo militar que se autodeclarou de esquerda e foi aceito nos Foros Sociais Mundiais e convertido numa causa da esquerda é a história de uma catástrofe que não é a única catástrofe acontecendo neste momento no Caribe: catástrofes recorrentes na Venezuela, em Cuba e no Haiti são problemas do século XXI que temos que começar a pensar a partir do século XXI e não apenas seguindo narrativas que não são desmentidas apenas pela realidade, mas ridicularizadas por ela: mesmo o militante raiz da esquerda que defendeu Chávez e Maduro como a direita que ridiculamente esperava uma cruzada contra comunismo e narcotráfico demonstraram não entender nada de seu próprio tempo. 

5. Qual o papel da internet na experiência de refúgio contemporânea?

Redes como WhatsApp permitem que eu me comunique com minha família. Um “bom dia filho” de minha mãe pela manhã significa que ela está bem e as ligações, fotos e vídeos de meus sobrinhos nos Estados Unidos são o único vínculo que eu tenho com eles.

O fato é que eu estou prisioneiro fisicamente no Brasil, mas só consigo me libertar numa viagem astral, estilo cyberpunk, pela internet. Então seu caráter de pharmakon, de conter o bem e o mal simultaneamente, é óbvio para mim, mas é um fato que, sem ela e sem as plataformas, a vida da diáspora venezuelana seria muito mais difícil. Eu não sou suicida, mas sem essa possibilidade de “transcender” uma realidade muito pobre e limitada através da internet e acessar, por meio dela, a amizade, a família, o afeto, a vida política e até o amor romântico, eu provavelmente teria considerado essa opção embora fosse só por segundos. 

6. Fale um pouco sobre seu projeto de crowdfunding. 

Bom, tenho que voltar à Venezuela, não só por conta da minha situação no Brasil, mas porque minha mãe está doente e está sozinha há muito tempo num país que se afunda cada vez mais. Então, estou me esforçando para coletar o dinheiro para a viagem e as primeiras semanas de volta à Venezuela. Achei que valia a pena tentar um crowdfunding que não fosse apenas um pedido de ajuda, mas que propusesse uma recompensa. Assim, retomei a ideia da Memória da Grande Solidão, que tem duas partes, a primeira das quais está quase pronta.

O primeiro livrinho contém versões aprimoradas de artigos que publiquei na Sler e no Oestrangeiro sobre a estrangeiridade do Brasil na América do Sul, o relato de minha chegada ao Brasil, e vários ensaios sobre o período da pandemia aqui no Brasil, sobre a amizade, o amor à distância e o que significa ser parte de uma diáspora, de uma dispersão humana.

Na segunda, onde vou comentar esses últimos meses, a intervenção americana na Venezuela, o terremoto e a história de meu retorno que, espero, seja mais simples que minha saída. 

O dinheiro coletado só cobre meus gastos como autor e pesquisador e a recompensa é o acesso a um curso sobre a Venezuela que ministrei no Ateliê de Humanidades. Por enquanto estou fazendo uma pré-campanha sem plataforma, mas vou escolher uma nos próximos dias para a segunda fase. 

Você pode encontrar mais informações sobre Jeudiel e apoiá-lo acessando os links abaixo:

Projeto “Memória da Grande Solidão”: https://medium.com/@jeudielmartinez/mem%C3%B3ria-da-grande-solid%C3%A3o-projeto-de-um-retorno-latino-americano-6335255db41c 

Curso “Venezuela: Uma Catástrofe em quatro lições”: https://ateliedehumanidades.com/2025/09/14/curso-livre-virtual-venezuela-uma-catastrofe-em-quatro-licoes-com-jeudiel-martinez/