
Prefiro não declarar.
A cada destino alguma pergunta tinha essa única e possível resposta.
Havia tempos que, ao mover-se, ela não podia declarar-se.
Declarar era permanecer.
E ao mover-se,
seu tom de pele mudava.
A pergunta insistia.
Era pergunta de fronteira.
Nas mensagens preferia não se identificar. Sim, isso era possível naquela nuvem virtual onde seu nome poderia ser simples letras aleatórias.
Falava sobre tudo, com pessoas de todos os lugares. Nunca se identificava.
Claire era mínima ali, diante do mundo. Só ela sabia seu nome. Ao mover-se, quem a conhecia não a acompanhava e ela já nao queria identificar-se.
Percebeu-se miúda.
Só.
Ela repetia seu nome em voz alta no quarto do trigésimo hotel.
CLAIRE. Já não o reconhecia.
E se mudasse seu nome?
Falou em voz alta outro nome. Viu-se no espelho. Dormiu.
Já não queria seguir repetindo a mesma resposta negativa nos questionários das próximas fronteiras.
Declarar-se exigia uma escolha. Escolher aquilo que seria declarável e ínitmo.
Declarou-se Theo na primeira fronteira, após a grande decisão.
Declarou-se parda. Declarou-se latina.
Seu rosto tinha traços de França e Colômbia. O nome antigo não cabia mais nos questionários de fronteira.
Theo tinha origem desconhecida, mas ao citá-lo era ínitmo.
Moveu-se como Theo e voltou como Theo.
Os amigos de Claire não a identificaram.

