
Algumas chegaram na hora, outras se atrasaram e muitas sequer compareceram ao lançamento de seu próprio livro no auditório Jaime Antunes, no 9º andar do campus do Maracanã da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), na última quinta-feira, 18 de junho. O motivo é que ser mulher em migração se cruza com outras atividades do cotidiano e com aquelas impostas pela própria migração. Cuidar da casa, do trabalho, dos filhos e sustentar a família torna-se ainda mais difícil quando se vive em trânsito, com a necessidade de deixar o local de origem e tentar se estabelecer em novos territórios. Elas precisam lutar por documentos, por educação, pela validação dos estudos, por acesso à saúde, por trabalho… tudo se torna pesado.
As que não puderam estar presentes pelas obrigações do dia a dia foram Deyanira Victoria Rodríguez Velásquez, Yennit González, María Helena Huertas e Julimar Mora.
É que o Laboratório de Estudos de Imigração (Labimi) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) apresentou o projeto “Mulheres e migrações forçadas no Rio de Janeiro: trajetórias dos corpos femininos, violência, xenofobia e resistências” que tem como objetivo levantar dados numa linha direta com a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ) para a construção de políticas públicas para a população de mulheres migrantes forçadas no Rio de Janeiro. Fruto desse projeto é o livro e o documental.

A Dra. Érica Sarmiento, líder do Labimi, comenta que “o projeto que deu origem a este livro surgiu a partir de um convite da Deputada Estadual Dani Monteiro (PSOL) e pelo Deputado Federal Pastor Henrique Vieira (PSOL), para coordenar a pesquisa acerca da temática do refúgio no Rio de Janeiro, uma pauta emergencial e necessária”.
Com a coordenação de Sarmiento, a equipe do projeto foi integrada pelas: Dra. Laura Quadros, Professora Adjunta da UERJ e Vice-diretora do Instituto de Psicologia da UERJ; Dra. Catalina Revollo Pardo, vice-líder do Grupo de pesquisa Diaspotics/ UFRJ/CNPq, membra/fundadora da Coletiva Mulheres em Migração pela Paz (MEMIPAZ), Bianca Dias e Sharleny Pereira de Almeida mestres pela UERJ; e Deyanira Rodríguez, venezuelana, refugiada e enfermeira. Elas proporcionaram o espaço acadêmico e humano para que as mulheres em migração fossem as protagonistas.
O livro e o documental audiovisual, frutos do projeto, trazem uma contribuição fundamental para os Estudos de Migração ao ter uma abordagem interseccional, onde se pode ler e compreender as interseções de gênero, raça, classe, nacionalidade e condição migratória. As fragilidades, as desigualdades, as histórias pessoais, as lutas, as injustiças, a sobrevivência, os logros, e a necessidade que a vida continue… são contadas pelas mulheres protagonistas de sua luta e resistência em novos territórios.
As protagonistas estavam sentadas para contar sua história de partida e de chegada, de viver entre dois mundos e ter que defender e lutar pela oportunidade de uma nova vida. Em uma mesa, prontas para conversar, da esquerda para a direita, estavam: Reina Lizardo, Yelitza Lafont, Elba Judith Franco, Sandra Cardozo, Damaris Martha Guilarte e Margarita Campos.

“Minha maior motivação para atuar como defensora e ativista dos direitos humanos dos imigrantes é minha própria experiência como mulher imigrante, enfrentando a barreira do idioma, vivenciando uma gravidez sem rede de apoio e sofrendo desequilíbrios psicológicos desencadeados pela síndrome pós-parto e transtorno do pânico”. Afirmou Reina Lizardo, venezuelana, com formação universitária em contabilidade na Venezuela, imigrante naturalizada brasileira, que atuou como diretora da ONG Venezuela Global no Rio de Janeiro. Também relatou sua história de antes da chegada em massa de venezuelanos ao Brasil, em 2002, quando as redes sociais, que hoje permitem a comunicação instantânea, ainda não existiam, e descreveu o ambiente difícil e hostil para os migrantes antes da legislação atual.

Yelitza Josefina Lafont Paredes é refugiada venezuelana, trabalha em Aldeias Infantis como assistente de desenvolvimento familiar e comunitário. “Sou líder comunitária no corredor de Itanhangá, especificamente para a população de refugiados migrantes venezuelanos. Faço parte do grupo de líderes migrantes refugiados do município do Rio de Janeiro” diz com veemência. Yelitza compartilhou a dor de deixar sua amada Venezuela e seus filhos para abrir uma porta no Brasil. Enfrentou o crime organizado para recuperar o filho com quem havia chegado.

Elba Judith Franco é venezuelana sua história de lutas, lembra a situação de muitas mulheres migrantes ou por ser simplesmente mulher aumentado por migrar. Se referiu às vulnerabilidades do deslocamento.

Sandra Cardozo é venezuelana. Relatou sua partida da Venezuela e nos emocionou ao dizer que não há nada para se comemorar no “Dia do Refugiado”, porque ninguém quer estar nessa posição. “Sou parte de ‘Sabores do Mundo’ que é em uma organização onde cada migrante ou brasileiro contribui com um pouco de sua gastronomia ou produz artesanato. Minha chegada ao Brasil foi complicada porque não saber o idioma, ser lésbica, ser estrangeira e usar sapatos foram dois fatores que me levaram à discriminação. Passei por quatro cidades brasileiras: Boa Vista, Manaus, Joinville e Guarapuava, antes de chegar ao Rio. Aqui, fui acolhida pelo CRAI-RIO, onde fiquei em um abrigo que estava funcionando na época. O Dia do Refugiado não é para comemorar; não é algo agradável; ninguém quer ser refugiado. Estou aqui para que os jovens possam replicar nossa mensagem e dizer aos outros que os migrantes não são pessoas ruins, não substituímos ninguém, não roubamos o emprego de ninguém, só queremos um lugar para viver com dignidade”.

Damaris Martha Guilarte é venezuelana. Lembrou sobre as incertezas da partida, o novo contexto de inseguridade e a acolhida que recebeu de grupos religiosos durante aqueles primeiros dias.

Margarita Campo é colombiana, líder do projeto “Sabores del mundo”, com seu sorriso e alegria, narrou coisas que muitas pessoas contariam em meio a lágrimas. “Enfrentei muitas dificuldades na Colômbia e, ao sair e vir para o Brasil, me tornei uma mulher diferente. Criei uma rede de apoio para mim e para muitas outras mulheres. Sou mãe solteira e migrante, e consegui dar aos meus filhos uma boa educação sem a ajuda de organizações e instituições que dizem ajudar. Em 12 anos, consegui construir uma rede de apoio para as pessoas. Certa vez, eu estava em Copacabana e vi uma família na rua. A mulher era colombiana e o marido, venezuelano. Eles estavam dormindo na rua com os filhos. Quando os ouvi conversando, me aproximei e percebi a angústia que tinham, então levei comida porque estavam fomentos. Não pude levá-los para casa porque não tinha lugar, mas tentei ajudá-los. No dia seguinte, entrei em contato com outros migrantes e procuramos um abrigo para eles. Fiz esse esforço e dei dinheiro para que ela pudesse ir para lá com a família. Acompanhei a situação deles por algumas semanas e depois perdi o contato. Dois anos depois, eu estava dando um curso e, quando terminei de falar, uma mulher se aproximou e disse: ‘Você se lembra de mim?’ Eu não a reconheci porque agora ela estava muito bem, me comentou que seus filhos estavam estudando, seu marido estava trabalhando… Para ela, o dia em que a abordei foi muito importante para resistir e avançar. Então percebi que se pode ajudar muito com muito pouco. É por isso que conto minha história, porque minha palavra ajuda outras pessoas. Precisamos falar sobre nossos obstáculos e sobre as coisas no Brasil para que possamos ser pessoas melhores. Todos nós temos um passado triste, mas esperança em um futuro melhor, para que as pessoas se sintam acompanhadas pelo nosso exemplo de migração”.

Procurou-se “identificar e documentar as múltiplas formas de violência e discriminação que essas mulheres enfrentam, propondo medidas para a promoção da igualdade de gênero e raça. As atividades de pesquisa partem da academia, mas pensando-as como um lugar de escuta e possibilidade de participação ativa das mulheres migrantes” diz Érica Sarmiento na apresentação.
O livro tem textos das pesquisadoras, de Lilian Freitas, Coordenadora do Comitê de Equidade em Saúde para Migrantes, e os relatos das autoras-protagonistas em migração. O documental foi dirigido e realizado por Bruno Stepheson.

Além de contar com orçamento público outorgado pelo Estado por médio da Deputada Estadual Daniella Monteiro da Silva presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Estado do Rio e do Deputado Federal Pastor Henrique Vieira, também contou com o apoio dos assessores parlamentares da ALERJ, a advogada Maiara dos Santos Barbosa Advogada, especialista em Políticas Sociais e do Mestre em Educação Pablo Augusto Ribeiro Santos da Silva. A pesquisa foi realizada em parceria com o Instituto Brasileiro de Gestão de Políticas Públicas (IBGPP), a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP).

