Na língua japonesa, há um termo para aqueles que possuem ascendência mas não moram no Japão: nikkei. Mesmo distantes da Terra do Sol Nascente, nikkeis seguem vinculados a ela por meio de tradições milenares passadas adiante por seus ancestrais.

No dia 18 de junho de 1908 (hoje consagrado como o Dia da Imigração Japonesa no Brasil), muitos japoneses deixaram o arquipélago montanhoso para construir um novo lar em uma terra distante: uma ex-colônia portuguesa de proporções continentais no coração tropical da América do Sul.

Cento e dezoito anos depois, o Brasil não apenas possui a maior população de nikkeis do mundo, como eles representam por volta de 1% da população brasileira.

Yumi e sua família no Hanami, tradicional Festival das Cerejeiras em Nova Friburgo

É o caso de Yumi Murata, Analista de Dados formada em Sistemas de Informação pela UFF. A seguir, ela relata sua vivência como nikkei brasileira:

Sou descendente de japoneses, com avós imigrantes nos dois lados da família. Ainda pequena, acompanhava minha família nos eventos da colônia japonesa de Nova Friburgo, minha cidade natal, participando do tradicional Festival das Cerejeiras (Hanami, 花見) e assistindo a jogos de beisebol (ou yakyu 野球), com meu pai e irmão.

Participei também de muitas atividades em diferentes colônias japonesas no Estado do Rio de Janeiro, incluindo na capital, em Niterói e Papucaia. Aos dezoito anos, com a ajuda de um amigo da colônia de Friburgo, criei um departamento para jovens nikkeis, um seinenkai (青年会). No início da imigração japonesa para o Brasil, esses departamentos eram comuns, mas a prática se perdeu com o tempo. A partir disso, entramos em contato com outros grupos no estado do Rio e de São Paulo.

Minha criação também foi muito influenciada pela cultura japonesa. Aprendi princípios como: autocobrança, respeito aos mais velhos, obediência a regras e priorização do coletivo em detrimento da vontade individual.

Essa vivência sempre contrastou com o estilo de vida brasileiro. Viver no Brasil é aprender sobre flexibilidade, ser voltado a relações e ter muita liberdade para expressar as individualidades.

Essa mistura improvável produz uma sensação conflitante. No Japão, emoções são descritas; no Brasil, elas são sentidas à flor da pele.

Por mais que as culturas tenham pontos muito antagônicos, para mim, ser nikkei é um privilégio, uma brasilidade vivida por uma lente japonesa.