Este trabalho tem por objetivo analisar aspectos da dimensão cultural da imigração, em consonância com etnicidade, focalizando um caso exemplar no contexto da colonização europeia em Santa Catarina – a “colônia Blumenau” – num período histórico marcado pela instauração da República (em 1889) e pelo aumento expressivo das entradas de estrangeiros no Brasil, permeado por um sistema mundial produzido, entre outras coisas, pela expansão imperialista.

A partir desse caso é possível perceber como certas formas de circulação de bens culturais, inclusive ideias, valores e ideologias étnicas, contribuíram para a construção da etnicidade teuto-brasileira, apontando para a longa duração do transnacionalismo. O surgimento de subsistemas culturais naquela situação histórica de formação do Estado nacional republicano põe em evidência a difícil conciliação entre a nação e a diversidade cultural produzida pela imigração.

A persistência do fluxo imigratório e a existência de entidades alemãs voltadas para os imigrantes, como a sociedade de Proteção que enviou Hermann Blumenau ao Brasil, e a Haus des Deutschtums, que coeditou o Gedenkbuch organizado por Entres (1929), contribuíram para a circulação dos ideais da germanidade, assim como jornais, anuários e outras publicações teuto-brasileiras vendidas nas casas comerciais, urbanas e rurais. Isso evidencia outros mediadores étnicos – os comerciantes (e industriais) – que possuíam fortes ligações com a Alemanha, econômicas ou não, contribuindo para a consolidação de uma identidade teuto-brasileira.

Seu postulado tinha caráter instrumental, político e econômico, igualmente alimentado pelo mesmo princípio de pertencimento étnico que deu relevo à crença numa neue Heimat assentada no binômio lar-língua materna e na percepção da diferença cultural em relação à sociedade nacional receptora.

A dimensão cultural que caracteriza a etnicidade passa pela onipresença da noção de uma nova pátria territorializada no Vale do Itajaí. E, diante da frequência com que os literatos teuto-brasileiros usam elementos da paisagem como metáfora da diferença, pode-se dizer que na neue Heimat o teuto-brasileiro é um alemão na sombra da palmeira. Afinal, para Klara Hermann o único elemento destoante na Joinville colonial (a primeira “cidadezinha alemã” por onde passou ao chegar ao Brasil) era a Alameda das Palmeiras.

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Giralda Seyferth