INSTITUIÇÕES JUDÁICAS E ASSISTÊNCIA SOCIAL

Entre as décadas de 1910 e 1930, foram fundadas várias instituições assistenciais ligadas à imigração judaica em São Paulo, que definiram, de certa forma, os contornos de uma ‘comunidade’. A primeira instituição assistencial foi a Sociedade Beneficente das Damas Israelitas, fundada em 1915, e a ela se seguiram várias outras com diferentes perfis e modelos de atendimento, incluindo dois ‘lares’ de criança, uma policlínica e um sanatório para tuberculosos. Essas instituições ocuparam um espaço de assistência não preenchido pelo Estado, e sua atuação esteve na linha de frente das discussões e tensões em torno do modelo e da problematização do viver em ‘comunidade’ (entre a filantropia e o controle social) e de diferentes projetos de inserção social e cultural dos imigrantes no Novo Mundo.

A história das entidades assistenciais ligadas à imigração judaica deixou uma consistente documentação disponível em acervos públicos e institucionais, entre documentos, publicações e fotografias. Estas fontes primárias foram muito pouco pesquisadas até o momento.

O interesse de pesquisa nestas fontes não se restringe, de forma alguma, à história da imigração judaica, mas pode abranger uma série de outros temas, como história (também sociologia, política,
antropologia e outros campos do conhecimento) da saúde e das políticas públicas, de instituições da área de saúde, da filantropia e do serviço social, história da infância e da família, questões de gênero; enfim, uma série de temas perpassados pela história de um grupo imigrante e seus descendentes, bem como seus mecanismos institucionais de inserção e definição de identidade.

A documentação da Ezra inclui atas completas entre 1916 e 1976, além de uma série de outros registros documentais. A documentação da Policlínica, que inclui atas de reunião de diretoria de 1929 a 1976 mostra, especialmente nos anos 1940 e 1950, um lento processo que se poderia chamar de privatização dos serviços médicos. A documentação da Ofidas contém atas de diretoria e de conselho entre 1940 e 1976. A documentação do Lar das Crianças da Congregação Israelita Paulista é bastante completa, com coleções de atas e relatórios. Várias publicações judaicas em português, entre elas Crônica israelita e Aonde vamos? publicavam artigos sobre estas instituições e temas polêmicos.

O Arquivo Histórico Judaico Brasileiro, onde a maior parte desta documentação está disponível (há também documentação nas entidades, como Unibes e Lar das Crianças da CIP), mantém ainda um acervo fotográfico das instituições. Pelo menos sete monografias de conclusão de curso de assistente social de profissionais (da Escola de Serviço Social da PUC-SP), que estudaram as entidades assistenciais, constituem uma fonte única para a história do serviço social e da imigração, pois revelam um complexo universo das dificuldades sociais e culturais que os imigrantes passaram ao chegar ao Brasil e o esforço de adequação realizado pelos assistentes sociais. Em síntese, este tema da história da assistência social, mesmo restrito a um grupo, é uma porta de entrada para uma série de interesses e pesquisas.

Roney Cytrynowicz

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