JOVEM ANGOLANA ASSASSINADA EM SP

Um ambiente de profunda tristeza é o cenário da casa número nº28 da Rua do Ambrizete, no bairro Neves Bendinha, em Luanda, após a chegada da notícia do assassinato, em São Paulo, Brasil, de Zulmira de Sousa Borges Cardoso.

A jovem, de 27 anos, estava em vias de finalizar, naquele país, o mestrado em engenharia, depois de ter feito a licenciatura, também no Brasil, a expensas dos pais.

Uma bala tirou a vida de Zuzi, quando se encontrava na via pública, no bairro do Brás, uma zona comercial de São Paulo, muito frequentada por angolanos e onde a vítima partilhava um apartamento com outra jovem estudante angolana.

Délcio Cardoso, irmão de Zuzi,informou, ontem, ao Jornal de Angola, que Zulmira estava junto a um bar, onde minutos antes houve uma confusão envolvendo dois clientes brasileiros que insultaram e ameaçaram alguns angolanos, provocando um autêntico pandemónio, informação também divulgada por órgãos de comunicação social brasileiros.

Cerca de 20 minutos depois de acabarem as discussões, um dos clientes que começou a confusão regressou numa viatura de marca Golf, de cor prata, e, depois de ter descido do veículo, disparou contra os angolanos.

Zulmira Cardoso, que estava junto ao bar, foi atingida com um tiro na cabeça e morreu no local. Durante o tiroteio, foram também alvejados Celina Bento Mendonça, de 34 anos e grávida de oito meses, Gaspar Armando Mateus, 27, e Renovaldo Manoel Capenda, de 32, todos de nacionalidade angolana.

A mulher grávida apanhou dois tiros, um deles na barriga. De acordo com o irmão, a família recebeu, à meia noite de ontem,um telefonema de um amigo da vítima.

Segundo contou o amigo, identificado por Avô, que é proprietário de uma loja que vende cabelo natural, localizada junto ao bar, Zuzi foi à sua procura para fazerem alguns acertos sobre a realização de uma festa que se ia realizar no bairro onde morava.

Familiares e amigos, alguns dos quais sentados à porta de casa de Zuzi, choravam pela perda da jovem que um dia sonhou ser a engenheira da família. Zulmira Borges Cardoso, a mais nova entre quatro irmãos, fazia o mestrado na Uninove, no Estado de São Paulo. Planeava regressar ao país em 2013, para trabalhar e constituir família.

Manuela Gomes

(Publicado no jornaldeangola.sapo.ao em 24/05/2012)

Nota de apelo – IDDAB

Acabamos de receber a notícia triste de que uma discussão de bar entre estudantes africanos angolanos com alguns clientes brasileiros acabou em morte de uma universitária angolana e ferimento dos outros em São Paulo. Esse fato é mais um que faz o quadro triste de não proteção dos cidadãos africanos, sobretudo os estudantes, no território brasileiro. A transferência do racismo contra os negros-brasileiros para os corpos dos negros-africanos é uma das explicações dessa violência que tende quase ao genocídio dos africanos no país: o fato de ser negro se torna o motivo de eliminação dos portadores da negritude. Se não é a polícia que comete essas ações bárbaras, são os cidadãos brasileiros comuns que o fazem. Pois, na sua mente acreditam que o corpo negro não vale nada e o corpo negro-africano pior ainda. Essa prática racista e desumana para ser compreendida deve-se acionar a arqueologia da escravidão racial das plantações e o racismo do século XIX que deixaram suas marcas nas estruturas sociais e burocráticas dos séculos XX e XXI no Brasil. Essas práticas andam contra os direitos humanos e da Constituição Brasileira.

É com muita tristeza que Nós, a Comunidade Africana residente no Brasil, representada aqui pelo Instituto do Desenvolvimento da Diáspora Africana no Brasil (IDDAB), recebeu com grande tristeza a morte e a violência cometida contra nossas irmãs e irmãos estudantes angolanos. É com muita tristeza que estamos denunciando que essas ações estão cada vez mais se multiplicando e queremos ações concretas da parte das autoridades governamentais brasileiras e diplomáticas africanas: punir os criminosos e garantir a segurança dos africanos no território nacional.

Da parte da sociedade civil africana, lançamos mais uma vez o apelo de nos UNIRMO-NOS em fóruns locais, regionais e, um dia, nacional. “Se nos deitarmos, estaremos mortos” (Ki-Zerbo). “Ubuntu” é e deve ser a nossa força de luta no Brasil. Pois, este país foi construído com o sangue, suor e as mãos de nossos avós africanos !

Aos parentes angolanos que perderam a sua filha, expressamos a nossa grande tristeza.

À embaixada angolana e às outras embaixadas africanas localizadas no Brasil, deixamos aqui o nosso voto de nos encontrar para acharmos uma solução urgente em relação aos problemas que a Comunidade Africana está enfrentando nas cidades brasileiras, sobretudo os estudantes quanto à sua segurança.

(25/05/2012)



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