JUNTO ÀS ESTRANGEIRAS PRESAS: DENTRO E FORA DA PRISÃO

Imagine: cerca de sessenta estrangeiras oriundas dos quatro cantos do mundo, com nomes quase impronunciáveis e línguas muitas vezes enigmáticas adentram a sala de aula com a expectativa de que nossa equipe, de apenas quatro ou cinco pessoas, solucione os problemas de suas vidas naquelas curtas duas horas de atendimento semanais. Problemas jurídicos, processuais, familiares, comunicacionais, de saúde, de violência, emocionais brotam em fragmentos de falas, rumores, silêncios, gestos e emoções que só fazem sentido para quem tem certo grau de conhecimento de suas vidas e do cotidiano prisional.

Ao longo de quatro anos, minhas tardes de segunda-feira, estiveram reservadas aos atendimentos do Instituto Terra Trabalho e Cidadania (ITTC) às estrangeiras na Penitenciária Feminina da Capital (PFC – São Paulo), unidade prisional que mantém o maior número de presas estrangeiras na América Latina.

Nessa penitenciária, o Instituto realiza atendimentos semanais voltados às estrangeiras, dado o alto número de mulheres provenientes de outros países e de sua condição (jurídica e sócio-cultural) particular. Oferece auxílio jurídico, tanto no que diz respeito ao acompanhamento dos processos judiciais criminais e/ou ligados a seus filhos, quanto no que se refere a informações sobre direito nacional e internacional. Além disso, garante contato delas com pessoas de fora (da penitenciária e do Brasil) via e-mail e cartas, realiza telefonemas para seus parentes, e estimula e intermedeia a atuação de embaixadas e consulados e de órgãos e autoridades brasileiros na garantia de seus direitos.

A decisão de integrar a equipe do ITTC, para além de minhas inclinações políticas, foi tomada inicialmente no intuito de viabilizar a pesquisa de doutorado em Antropologia Social. Minha atuação em atividades já desenvolvidas dentro do presídio foi a maneira inicial pela qual optei me inserir em campo e entender os processos de autorização de pesquisas em presídios, processos este que foram realizados posteriormente quando já atuava no Instituto.

Caso optasse por me apresentar como pesquisadora naquele momento, temia os possíveis entraves nas cearas burocráticas para obter a aprovação da direção e da Secretaria da Administração Penitenciária (SAP). Eu não conhecia os procedimentos de autorização e muito menos profissionais que pudessem me auxiliar ou influenciar nesse processo. Eu tinha como referência apenas a antiga Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor (FEBEM). Quando atuei como educadora social nessa instituição prisional, entre 2006 e 2008, pude observar a morosidade nos processos de autorização de pesquisas a ponto de, em alguns casos, inviabilizar o trabalho dos pesquisadores. Queria evitar que algo semelhante ocorresse em meu doutorado e, para tanto, integrei a equipe do ITTC.

No entanto, naquela altura eu não fazia ideia dos desdobramentos desta minha decisão. Em retrospectiva, poderia afirmar que minha dupla e simultânea atuação na PFC, além de sanar minhas preocupações iniciais supracitadas, possibilitou o estabelecimento de relações de confiança com as estrangeiras e de certa proximidade com funcionários, assegurando assim maior fluidez na realização da pesquisa.

A rotina dos atendimentos me permitiu observar uma realidade para além de discursos estandardizados, composta por palavras, falas, textos, gestos, trejeitos e comportamentos sobre o modo como as estrangeiras integram-se no presídio e (inter) agem com funcionários, órgãos, autoridades e demais presas. Possibilitou também o rastreamento de dinâmicas marcadas pela continuidade intra e extramuros. Ao me colocar em um nó desta rede, consegui observar os trajetos feitos por entre nós adjacentes e os meios pelos quais estes trajetos são realizados.

Isso acabou por modificar os rumos de meu doutorado. Redefiniu o objeto de pesquisa, estendeu minha inserção institucional e ampliou meu trabalho de campo. Em princípio, eu estava interessada no fluxo de sacoleiras moçambicanas entre atividades formais e informais, legais e ilegais – portanto, o aprisionamento era apenas uma pequena parte da pesquisa.

Após minha entrada na penitenciária junto com o ITTC, voltei meu olhar etnográfico para a experiência prisional de estrangeiras presas a partir do tema da maternidade. Consegui me inserir com facilidade em outras duas organizações civis que atuam junto às estrangeiras dentro e fora das prisões, respectivamente, a Pastoral Carcerária e a Associação Casa Recomeço. E, por fim, ampliei meu trabalho de campo para as ruas de São Paulo e, mais recentemente, para as casas de parentes de algumas sul-africanas e moçambicanas nas cidades de Johannesburgo e Maputo.

Mas confesso que foi um desafio realizar trabalho voluntário e de campo ao mesmo tempo. Na verdade o atendimento do Instituto, por si só, sempre foi um desafio. Imagine: cerca de sessenta estrangeiras oriundas dos quatro cantos do mundo, com nomes quase impronunciáveis e línguas muitas vezes enigmáticas adentram a sala de aula com a expectativa de que nossa equipe, de apenas quatro ou cinco pessoas, solucione os problemas de suas vidas naquelas curtas duas horas de atendimento semanais. Problemas jurídicos, processuais, familiares, comunicacionais, de saúde, de violência, emocionais brotam em fragmentos de falas, rumores, silêncios, gestos e emoções que só fazem sentido para quem tem certo grau de conhecimento de suas vidas e do cotidiano prisional.

Em meio a tudo isso, fiz meu trabalho de campo. Fui tomada por aqueles pedaços coloridos de caos. Era como se a cada atendimento meu olhar etnográfico brincasse com o caleidoscópio que ele mesmo ia criando: fragmentos de conversas e imagens captadas por mim tornavam-se miçangas coloridas e móveis que, através do reflexo da luz exterior (em meu caso, a antropologia), compunham imagens múltiplas, combinadas, desconexas, sucessivas, todas elas num jogo de ator-espelhos longitudinais.

Agora é hora de apresentar alguns dos fragmentos. Espero que eles se tornem, aos olhos dos leitores, algumas das miçangas coloridas desse novo caleidoscópio chamado “O Estrangeiro”.

Bruna Bumachar



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