Nosso personagem da vez da série ‘perfis de imigrantes’ é Fernando Rabossi*, professor do departamento de Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nascido na Argentina, Fernando faz parte de um relativo grande grupo de argentinos que escolheram o Brasil para desenvolverem seus estudos.

Desde seu nascimento até sua juventude, Fernando morou em Buenos Aires. De família propriamente argentina – e isso inclui todas as “misturas” típicas do país, como, em seu caso, ascendências portuguesas, italianas e espanholas – podemos dizer que as últimas características da trajetória de vida de Fernando foram a constância e planejamentos milimetricamente fomentados.

Apaixonado por Arqueologia, Fernando fez a escolha pela Antropologia, ainda que não soubesse bem o que o curso apresentava, ao mesmo passo que recusava a clássica sugestão pelo Direito, que seu pai defendia. O curso, que seria feito na Universidade de Buenos Aires, apresentava duas áreas: sociocultural e arqueologia. É por meio destas divisões que se apresenta um ponto fundamental que iria guiar a vida de Fernando: as escolhas advindas de um suposto acaso – ainda que a Arqueologia exercesse certa atração, Fernando escolheu a área sociocultural.

Com um sistema organizacional diferente do brasileiro, a universidade portenha proporcionou a Fernando uma maior duração e apreensão do conteúdo. Antes do término do curso, foi morar na Suécia, acompanhando a até então namorada – hoje em dia, sua esposa, em um longo relacionamento de companheirismo e aventuras, que começou aos 16 anos de idade** – estudante de biologia, por uma bolsa que concedia a oportunidade de fazer pesquisas em Estocolmo. Ao fim do período determinado, o casal terminou a graduação na Argentina e apostaram no mestrado na Suécia – e aqui, mais uma vez, podemos notar uma pequena pitada de acaso na trajetória de Fernando.

Um dos fatores que facilitaram a estadia ao mestrado na Suécia foi o idioma aplicado em sala de aula. Como uma das apostas da Universidade de Stocolmo aos imigrantes, a base de todo o curso foi o inglês – ainda que Fernando tenha aprendido um pouco de sueco para ler documentos. Outro idioma que teve papel fundamental na vida acadêmica de Fernando foi o próprio espanhol, ainda que de forma bastante peculiar: como sua pesquisa apresentava um estudo sobre as políticas de integração dos imigrantes, tomando como exemplo a  experiência dos chilenos, a suposta facilidade de comunicação era uma benesse – dissemos bem: suposta, já que os chilenos tinham formas mais particulares, com suas gírias, de se comunicar.

Mais de dois anos da Suécia, Fernando e sua mulher começam a ansiar por uma estadia mais próxima ao seu país de origem. Foi neste ponto que Fernando faz a escolha pelo Museu Nacional, onde conseguiu uma vaga.

Como um flashback, Fernando, aos preparativos para ir ao Brasil, em 1999, se lembra quando, ainda adolescente, trabalhou em uma exposição de arte brasileira, e, depois de amigos feitos, veio ao Brasil revê-los. Estas lembranças trouxeram a Fernando uma certa noção de experiência, ou, ao menos, era o que ele achava. Ledo engano. A estadia no país era muito diferente do que a experiência como visitante. Entretanto, com uma fria Suécia atravessada em sua vida, o impacto do estilo de vida brasileiro parecia ser menor.

Segundo Fernando, o impacto do sotaque sempre se faz presente, e as diferenças entre os países vai se apresentando ao passo em que o tempo estadia aumenta – enfatizado pela criação dos filhos. Fernando estranha a relativa desigualdade naturalizada, tão criticada na Argentina, e, ainda, a diferente forma de relacionamento entre amigos e interação nos dois países – no Brasil, ainda que haja certa facilidade em se fazer amigos, as relações parecem ser mais fluidas; algo como fácil interação, fluida relação.

Ao longo de seu percurso no Brasil, em meio às bolsas e doutorados, tanto dele, quanto de sua esposa, Fernando teve dois filhos. Ainda que falassem espanhol em casa com os filhos, Fernando notou que a base comunicativa dos filhos de aborca no português – diga-se de passagem, os filhos falam em português com os pais, e estes respondem em espanhol; com os avós e primos, falam em espanhol.

Ainda que não tenha rituais muito marcados em relembrar da Argentina, compreende que a língua materna é o lar do indivíduo: “mesmo com línguas parecidas, há um limite; por isso nos custa deixá-la, pois há coisas que você só consegue expressar no seu idioma”. Sua mulher, entretanto, ainda lê, todo dia, os jornais argentinos; a Fernando, a política argentina o satura.

Barbara Machado

* Fernando Rabossi é coordenador do curso de graduação de Ciências Sociais da UFRJ, vinculado ao Departamento de Antropologia, marido, pai e torcedor do Boca Juniors e do Flamengo.

** A esposa de Fernando tem uma trajetória bem particular: uruguaia, com seis anos de idade foi morar na Venezuela, com treze anos volta ao Uruguai e, logo depois, vai morar em terras portenhas.