MAIS MÉDICOS ABRE DEBATE SOBRE RACISMO E XENOFOBIA

“Não tem como, no Brasil, pessoas brancas se dirigirem a pessoas negras chamando-as de escravas e isso não conotar racismo. Ainda mais quando se questiona o papel social dos negros, que não poderiam ocupar lugar social”.

 

A forma como médicos e media brasileiros reagiram à entrada de médicos cubanos no país é vista como xenófoba e racista por vários sectores da sociedade brasileira. O tratamento de estrangeiros, como cubanos, argentinos e portugueses, reabriu o debate sobre como o país olha para as diferenças raciais.

No dia 24 de Agosto, um grupo de médicos vindos de Cuba foi recebido no aeroporto com palavras hostis, dirigidas por um grupo de colegas de profissão brasileiros. Segundo os relatos em vários meios de comunicação
brasileiros, entre os protestos ouviu-se gritar “escravos”, “incompetentes” e “voltem para a senzala”. Os cubanos chegavam ao Brasil ao abrigo do programa Mais Médicos, uma iniciativa que visa colmatar a grande falta de
profissionais no Sistema Único de Saúde, o serviço público de saúde brasileiro. Este programa é mal visto pela classe médica no Brasil, que entre outras acusações diz que estes profissionais vão exercer a actividade
ilegalmente e não querem assumir a responsabilidade pelos erros dos médicos estrangeiros. Este clima levou a que os médicos portugueses que começaram a chegar ao Brasil também no dia 24 de Agosto passassem a ser
recebidos com escolta militar nos aeroportos.

Poucos dias depois, a jornalista brasileira Micheline Borges decidiu utilizar o Facebook para expressar a sua opinião sobre o assunto: “Me perdoem se for preconceito, mas essas médicas cubanas tem uma cara de
empregada doméstica”, escreveu, acrescentando que “médico, geralmente, tem postura, tem cara de médico, se impõe a partir da aparência”.

O clima gerado tem levantado questões sobre as motivações de quem protesta. Os médicos argumentam que os estrangeiros não têm formação correcta, insurgem-se contra a ausência de um exame e dizem que os
estrangeiros, neste caso não os portugueses, não iriam perceber a língua. A Associação Médica Brasileira e o Conselho Federal de Medicina chegaram a interpor acções judiciais para suspender o programa, mas sem
sucesso. A 26 de Junho, estas entidades chegaram a divulgar uma nota que afirma que os médicos estrangeiros são “profissionais mal formados e desqualificados”. Nas próximas semanas o país irá continuar a receber os
restantes médicos estrangeiros.

Deisy Ventura, professora de direito internacional na Universidade de São Paulo, vê nestas declarações “um movimento político organizado por algumas importantes associações médicas que procura denegrir a imagem dos
médicos estrangeiros e gerar desconfiança da população”. Em entrevista ao site Pambazuka News, a académica aponta outros motivos e cita uma nota divulgada pelo Fórum Social pelos Direitos Humanos e Integração dos
Migrantes, que vê esta reacção à chegada de médicos cubanos “a ideia, por parte dos médicos brasileiros, de que “eles” vêm roubar os “nossos empregos”.

Uma atitude defensiva mas pouco compreensível para muitos, como é o caso de Luís Soares, colunista do site Pragmatismo Político, que denota que estes médicos vêm preencher vagas em locais onde não há médicos e cita
um decreto do governo que limita a actuação dos profissionais estrangeiros às zonas abrangidas pelo programa Mais Médicos, o que vê como “mais um sinal de que nenhum médico brasileiro terá o seu emprego “roubado por
cubanos, espanhóis, argentinos ou portugueses”. O governo também divulgou, na passada quarta-feira, dia 11, o número de adesão de médicos brasileiros ao programa Mais Médicos, que na altura se situava em 511 médicos,
menos de metade dos 1.096 que se haviam candidatado à iniciativa.

No entanto, a veemência dos protestos e os termos utilizados acabaram por centrar a discussão em torno do racismo e da xenofobia. “Não tem como, no Brasil, pessoas brancas se dirigirem a pessoas negras chamando-as
de escravas e isso não conotar racismo. Ainda mais quando se questiona o papel social dos negros, que não poderiam ocupar lugar social”, afirmou a Ministra das políticas de promoção da igualdade racial, Luiza Barros, na
TV Brasil.

No site Pambazuka.org, os académicos e activistas contra o racismo Marcio André dos Santos, Sheila Dias e Pablo Mattos assinam um artigo em que referem que este caso representa uma visão racista que ainda está
enraizada na sociedade brasileira: “Médicos pertencentes a outros grupos raciais, especialmente negros, são vistos com estranheza, desdém e preconceito, já que destoariam da representação hegemônica da brancura que
o imaginário racista associa aos médicos. Os médicos cubanos negros e, por tabela, todos os outros médicos negros de qualquer lugar do mundo não caberiam no enquadramento racialmente limitado e, claro, racista, das elites médicas brasileiras”.

As caixas de comentários de sites informativos e nas redes sociais enchem-se de reacções que acusam a classe médica brasileira de racismo, as posições extrema-se e o discurso aquece com declarações com a do presidente
do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais, João Batista Gomes Soares, que disse que vai orientar os médicos a “não socorrerem erros dos colegas cubanos”. O ministro da saúde, Alexandre Padilha, já veio dizer que
“Negar socorro e atendimento, não se sustenta em nenhum código de ética médica. Não acredito que os médicos de Minas Gerais seguirão tal recomendação”, através da sua conta no Twitter.

Jorge Simões

(LusoMonitor – 16/09/2013)

 



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