SANTA CATARINA ATRAI COMPETÊNCIAS

Aumento na emissão de carteiras de trabalho para estrangeiros é de 38%.

Stefano é italiano. Frederik, alemão. José Luis, argentino. Os três têm algo em comum: busca¬ram em Florianópolis a oportu¬nidade de se firmar no mercado de trabalho, novas experiências e deixaram para trás as incertezas de países em crise ou saturados. Com gargalos de mão de obra e boas opções de emprego para quem é qualificado, Santa Ca¬tarina se converteu em um polo de atração para profissionais de outros países. Prova disso é que de janeiro até 31 de julho, apenas na Capital, foram emitidas 1.039 carteiras de trabalho. O número está próximo ao total do ano pas¬sado inteiro, quando em 12 meses foram carimbadas 1.239 carteiras de trabalho de imigrantes. Na comparação dos sete últimos me¬ses de 2013 com os sete primeiros de 2014, o aumento foi de 38%.

Os dados são do MTE (Mi¬nistério do Trabalho e Empre¬go) e indicam que Florianópolis, outrora provinciana, está cada vez mais cosmopolita. De 1o de janeiro a 31 de julho, a SRTE-SC (Superintendência Regional do Trabalho e Emprego) emitiu 788 carteiras de trabalhos de primeira via a es-trangeiros, entregues para quem acaba de conseguir emprego ou está atrás de uma vaga. Em 2013, das 1.239 carteiras de trabalho carimbadas, 748 foram no se¬gundo semestre, o que sinaliza a tendência de aumento de imi-grantes nos próximos meses.

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Coordenador-geral de imi¬gração do MTE, Aldo Cândido Costa Filho afirma que os nú¬meros se referem a pessoas de todos os cantos do mundo, mas o destaque está com os norte-americanos, europeus e latino-americanos. Questionado sobre os motivos dessa nova onda imigratória no Estado, Costa Filho cita a crise econômica de muitos países, a necessidade de empresas nacionais qualifi¬carem seus quadros, a vontade que estes profissionais têm de experimentar o novo e a rea¬lização de grandes eventos no país. Além disso, exemplifica o coordenador, ao descobrirem as belezas de Florianópolis, os es¬trangeiros irradiam essa infor¬mação para o mundo.

Foi da Itália, país com al¬tos índices de desemprego, que Stefano Tommesani começou a procurar lugar para morar e trabalhar no Brasil. Engenhei¬ro de computação formado pela Universidade de Parma, o ita¬liano de 40 anos descobriu que precisavam dele na In¬telbras, em São José. Arrumou o emprego e, principalmente, um novo lugar para cha¬mar de seu. “Meu filho nasceu aqui, adoramos a cidade. Sou quase um manezinho”, brin¬ca o morador do bairro Capoeiras.

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“Cérebros qualificados”

O nível alto de qualificação dos estrangeiros que buscam autorização para trabalhar no país é um fenômeno que chama a atenção do coordenador-geral de imigração do MTE, Aldo Cândido Costa Filho. Ele diz que desde 2011 dobrou o número de mestres e doutores que desembarcam no Brasil. “Em Santa Catarina, observamos a procura de profissionais altamente qualificados para trabalho na indústria automobilística, construção civil e na área de tecnologia”, diz.

Costa classifica essa tendência de demanda econômica. Nela, projetos ousados de grandes empresas precisam de “cérebros qualificados”. Para obterem a autorização de trabalho no Brasil, dependendo do cargo que forem exercer, os estrangeiros precisam comprovar experiência profissional.

A qualificação citada pode ser vista nos gráficos (pág. 15) do MTE relativos às autorizações para imigrantes de fora do Mercosul trabalharem em Santa Catarina. Em 2011, 2012 e 2013, os norte-americanos receberam mais autorizações, seguido por alemães, holandeses e italianos. “São pessoas com emprego garantido, negociado com muita antecedência”, afirma o professor dos departamentos de economia e relações internacionais na UFSC, Nildo Ouriques.

Florianópolis é a queridinha dos recém-chegados

Dos imigrantes que procuram Florianópolis para trabalhar, muitos, antes de se mudarem em definitivo, conheciam a cidade. Nem todos pessoalmente, mas por meio de amigos e das facilidades da internet. Stefano Tommesani, 40, italiano casado com uma brasileira, se dedicou a procurar uma cidade que o agradasse. Fez isso nos meses em que permaneceu à espera do visto permanente. As belezas da Capital o encantaram. Sua outra opção era São Paulo. Entre a cor cinza da capital paulista e as praias da Ilha, a escolha do italiano foi fácil: “Aqui a gente pode curtir melhor a vida.”

O argentino José Luis Tomatis, 30, também foi apresentado à Capital por fotos e vídeos nas redes sociais. Desde então, começou a planejar a mudança para fugir do desemprego na Argentina. Instalado em um quarto no Centro, ele gosta caminhar pela avenida Beira-Mar Norte. A tão criticada burocracia no Brasil, surpreendentemente, não o atingiu. “Foi muito rápido conseguir os documentos necessários para ficar legalmente aqui.”

Stefano, José Luis e o alemão Frederik Nussbaum estão regularizados no país. No entanto, muitas pessoas de outras nacionalidades vêm ao Brasil sem nenhuma garantia, com visto de turista ou de estudante. A responsável pelos intercâmbios entre UFSC e universidades mundo afora, Elenir Vieira, conta que semestralmente em torno de 200 estudantes chegam ao campus da Trindade para intercâmbios de seis meses, prorrogáveis por mais seis. “A maioria vem de países europeus. Principalmente Portugal, Alemanha, França e Espanha. Mas também recebemos estudantes da América do Norte e América do Sul”, destaca Elenir.

Outro detalhe que ajuda a explicar o aumento de profissionais com alta capacidade nas empresas catarinenses é que os cursos mais procurados por estrangeiros na UFSC estão dentro das engenharias (mecânica, civil, elétrica, produção e sistemas). A reconhecida qualidade da maior universidade catarinense chancela a formação desses profissionais.

Do mercado saturado na Alemanha para o estágio no Brasil

A Alemanha, maior economia da Europa, não enfrenta nenhuma crise de grandes proporções. Seu mercado, entretanto, está saturado, observa o futuro engenheiro elétrico Frederik Nussbaum, 26. Antes de concluir a graduação, o alemão que acompanhou no Mineirão, em Belo Horizonte, a vitória da Alemanha por 7 a 1 na Copa do Mundo, queria ampliar horizontes.

Por meio da Aiesec, organização internacional que aproxima estudantes de ofertas de trabalho ao redor do mundo, ele desembarcou em janeiro na Intelbras, em São José, para um ano de estágio, onde só pôde conversar com seus colegas em inglês. Apesar disso, ele arrisca longas frases em português.

Frederik suspira quando questionado sobre as mulheres brasileiras. É delas uma boa parcela do encanto que esse alemão nutre pelo país. Em janeiro de 2015, voltará à Europa. Mas até 2016, pretende retornar ao Brasil, mais precisamente a Florianópolis. “Na Alemanha, o mercado está muito concorrido, em algumas cidades é difícil encontrar emprego. Só falta o trabalho de conclusão para me formar. Ano que vem volto para casa, termino o curso, e me mudo de vez para cá”, afirma.

Argentino em busca de emprego

A cidade natal de José Luis Tomatis tem um nome curioso: Maria Juana, na província de Santa Fé. Formado em recursos humanos, o argentino de 26 anos chegou a Florianópolis no dia 29 de julho. Tudo que tinha eram dois contatos por aqui.

Mesmo assim, qualquer coisa era melhor do que não ter nem os currículos analisados por empresas, como acontecia com ele na Argentina. “Eles simplesmente não contratam, não há dinheiro para pagar o trabalhador”, afirma, com a sabedoria de quem diz ter encaminhado o currículo para 250 empresas argentinas que sequer o responderam.

Aqui, José Luis procura trabalho em algum setor de recursos humanos ou na área administrativa de empresas. Este mês ele ficou mais próximo do aguardado emprego, ao receber sua carteira de trabalho na SRTE-SC (Superintendência Regional do Trabalho e Emprego em Santa Catarina). Agora, planeja trabalhar e espera que logo seus pais venham visitá-lo. Em sua cidade, de 5.000 habitantes, o fim de julho foi de tristeza na casa dos Tomatis. “Meus pais choraram muito quando parti”, confidencia.

Visto temporário é responsabilidade das empresas

Por causa do Mercosul (Mercado Comum do Sul), acordo que o Brasil mantém com Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Bolívia, Peru, Colômbia e Equador, os imigrantes desses países ingressam mais facilmente aqui. Isso acontece porque enfrentam menos burocracia e podem vir por conta própria, diferente dos europeus e norte-americanos. Estes, de fora do Mercosul, não têm autonomia para se estabelecer no Brasil.


De acordo com a legislação brasileira, é a empresa ou o órgão contratante que deve solicitar o visto de trabalho para o estrangeiro. “Muitas empresas de consultoria no exterior também fazem essa ponte”, explica o coordenador geral de imigração do MTE, Aldo Cândido Costa Filho.

É na superintendência da Polícia Federal, na avenida Beira-Mar Norte, que os estrangeiros solicitam pedidos de registro temporário, permanente, refúgio e renovação de documentos.

Como o próprio nome sugere, o status de temporário tem prazo determinado, que pode variar de três meses a cinco anos. O permanente, reforça o delegado Ildo Rosa, responsável pelo setor de comunicação social da PF, confere ao estrangeiro praticamente todas as prerrogativas de um brasileiro nato, exceto a de votar.

De 1° de agosto de 2013 – quando o setor de registros da PF na Capital instituiu um sistema de acompanhamento de atendimentos – a 1° de agosto deste ano, 3.552 pessoas conseguiram o status de temporário registrado e permanente registrado. A tendência para os próximos 12 meses é de aumento, especialmente dos relacionados ao Acordo Mercosul, informa a PF.

Leonardo Leite Thomé

(Notícias do Dia – 23/08/2014)



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