ESTRANGEIROS E DESALOJADOS

Dentre as famílias desalojadas do antigo hotel Aquarius em São Paulo, algumas eram de imigrantes. A mesma luta, o mesmo destino.

Cerca de 200 famílias foram desalojadas hoje do antigo Hotel Aquarius, no centro de São Paulo. Muitas crianças, desempregados, trabalhadores que não chegam a ganhar 800 reais por mês compartilhavam os 168 apartamentos distribuídos em 21 andares do edifício abandonado. Estavam ali havia seis meses, segundo o movimento Frente de Luta pela Moradia (FLM), apesar de alguns entrevistados afirmarem que estavam no local havia mais de um ano. A localização do prédio ocupado era privilegiada e próxima ao trabalho de muitos que ali viviam – ao invés de morar em uma favela na periferia, optaram pelo centro para economizar com o transporte. Muitos vinham de outras ocupações, outros participavam pela primeira vez do FLM, que age invadindo prédios abandonados para pressionar a prefeitura, em um intento de regularizar a ocupação e transformá-la em moradia popular. No entanto, a operação policial tentou desalojar o espaço e houve conflito.

Cerca de 20 das 200 famílias eram bolivianas, segundo os desalojados que conversaram com este jornal. Edwin Mallea é o pai de uma delas. Veio morar com três filhos e a mulher na capital paulista há dois anos, com a esperança de uma vida melhor que a que tinham em La Paz. Em um quitinete no 15º andar, passaram os últimos sete meses. “Ficamos sabendo do FLM através das comunidades latinas e fomos porque não tivemos outra alternativa. E também porque tínhamos a esperança de um acordo para poder ficar”, garante o operador de telemarketing, que conta que no edifício havia “todos os serviços necessários”, como água, eletricidade e comida. Ainda assim, considera que sua decisão de mudar para São Paulo não foi a melhor. “Lá temos miséria, mas não tanta gente nas ruas como aqui”, disse, mas elogia o serviço de saúde gratuito, algo que não tem em seu país de origem. Seus filhos ficavam em uma creche durante o dia, enquanto ele e a esposa trabalhavam. Próximas a ele estavam outras bolivianas, cada uma com uma história de vida diferente. Uma delas, Beatriz Mamani, veio com a expectativa de mandar dinheiro para pagar o tratamento da filha, de 22 anos, com câncer terminal. “Mando o dinheiro porque não gasto com aluguel, mas não sobra para visitá-la”, lamenta, sem esconder o pesar de poder nunca mais vê-la com vida.

Beatriz Borges
(Editado)

(El País – 16/09/2014)

 



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