GRATIDÃO E ESPERANÇA

Palestino autor de carta à Dilma espera ficar em definitivo no Brasil.

Há cerca de seis meses no Brasil, o refugiado palestino Hassan Rabea aguarda ansiosamente conseguir o direito de ficar no país definitivamente. Sua permissão provisória vai até 2015. O jovem de 23 anos ganhou destaque ao enviar uma carta de agradecimento à presidenta Dilma Roussef, há algumas semanas.

No texto, Hassan elogia a postura que o governo brasileiro tem adotado em relação aos conflitos na Faixa de Gaza e aos constantes ataques de Israel contra a Palestina. Somente no último, em agosto deste ano, mais de dois mil civis morreram, incluindo crianças e mulheres.

Hassan ainda não tem certeza se Dilma leu sua carta, mas o rapaz já recebeu a confirmação que o texto foi entregue no Palácio do Planalto. Enquanto isso, ele faz as entrevistas na Polícia Federal em busca de se tornar um cidadão brasileiro. Sua grande ambição é conseguir trazer sua família para o Brasil, tirá-los do risco, sempre constante, de bombardeios e agressões.

Formado na área de informática, o jovem que saiu do campo de Refugiados Khan Younis para chegar ao Brasil através do Egito está atualmente morando na cidade de Nova Lima, em Minas Gerais. O rapaz conseguiu um emprego em uma lanchonete na capital mineira, Belo Horizonte, e demonstra estar feliz e adaptado ao país, tanto que reclama da demora em conseguir se estabelecer de vez por aqui. “O processo está muito lento, enquanto não tiver meu documento não estarei totalmente feliz”.

(…)

O refugiado lembra dos problemas que enfrentava na região antes de sair rumo a terras brasileiras. “Água é só uma vez por semana e energia elétrica durante 4 horas por dia. A maioria das escolas está destruída”.

Em sua carta para Dilma, ele relatou que “ainda posso ouvir os rugidos ferozes da artilharia israelense, bombardeiros, aviões teleguiados e marinha. Posso ouvi-los dentro do meu corpo e do meu próprio pulso. A minha família e parentes ainda estão sofrendo lá; enquanto existir ocupação israelense, o meu povo vai sofrer; quanto a mim aqui, eu seria um mentiroso se eu dissesse que eu não sofro estando longe de minha terra natal. Eu ainda visualizo rostos, gritos, suspiros, sangue, muito sofrimento e desespero, cadáveres, destruição e muitos amigos. É verdade que aqui não há ameaça imediata para a minha vida, mas meu coração dói quando eu me lembro da minha família, vizinhos e pessoas lá”.

Em seu discurso, na semana passada, na abertura da 69ª Assembleia da ONU, a presidenta Dilma voltou a tocar no assunto. “Não temos sido capazes de resolver velhos contenciosos nem de impedir novas ameaças. O uso da força é incapaz de eliminar as causas profundas dos conflitos. Isso está claro na persistência da Questão Palestina”, insistiu a líder brasileira demonstrando, mais uma vez, porque foi merecedora da admiração de um palestino que tem o sonho de viver em paz com a família, mesmo que, infelizmente, isso signifique ter de sair de sua terra natal.

A carta

Prezada Sra Presidente Dilma Rousseff,

Saudações

Eu gostaria de estender meus mais profundos sentimentos de gratidão à Vossa Excelência por a sua postura e seu apoio ao povo palestino em meu país, a Palestina em geral, e na Faixa de Gaza, em particular. Sua postura valiosa, humana e com princípios contra a agressão militar israelense sionista é algo que eu nunca poderei esquecer.

Eu aprecio imensamente o seu discurso muito importante na busca da Libertação da Palestina, e para realizarmos o nosso direito de voltar à nossa pátria, a fim de vivermos livremente como qualquer outro povo na Terra.

Sou Hassan Rabea, um refugiado palestino, um fotógrafo do Campo de Refugiados Khan Younis, na Faixa de Gaza. Recentemente, mais uma vez tornei-me um refugiado, desta feita em seu belo país, o Brasil, onde eu me sinto seguro, protegido e longe da artilharia israelense, de sua Marinha e Força Aérea com incursões de seus aviões F16 e bombardeios que se abatem sobre as nossas casas e sobre quaisquer pessoas vivendo, rezando, comendo, amamentação, cozinhando e até mesmo dormindo em nossas casas, hospitais, mesquitas, escolas e hospitais para pessoas com deficiência.

Esses mesmos refugiados, que são bombardeados hoje, eram as mesmas pessoas que se fizeram refugiadas em 1948, quando suas famílias e parentes foram massacrados e privados de suas terras, aldeias e propriedades. Agora estou longe do meu bairro e campo de refugiados em Gaza; Gaza tornou-se um campo de batalha e um laboratório para o armamento avançado e letal Israel.

No entanto, eu ainda posso ouvir os rugidos ferozes da artilharia israelense, bombardeiros, aviões teleguiados e marinha. Posso ouvi-los dentro do meu corpo e do meu próprio pulso. A minha família e parentes ainda estão sofrendo lá; enquanto existir ocupação israelense, o meu povo vai sofrer; quanto a mim aqui, eu seria um mentiroso se eu dissesse que eu não sofro estando longe de minha terra natal. Eu ainda visualizo rostos, gritos, suspiros, sangue, muito sofrimento e desespero, cadáveres, destruição e muitos amigos. É verdade que aqui não há ameaça imediata para a minha vida, mas meu coração dói quando eu me lembro da minha família, vizinhos e pessoas lá.

Eu vivo agora no exílio longe de minha família, amigos e vizinhos. Mais uma vez, eu me tornei um refugiado no seu país, entre o seu povo, por causa da colonização israelense impiedosa e desumana do meu país. Aqui, no Brasil, eu sempre tento manter-me firme e levar a vida com seriedade e responsabilidade, admirando e amando a vida, as pessoas e a liberdade. Um dia eu gostaria de me tornar um cidadão aqui, para viver com segurança e trabalhar com dignidade para sustentar minha família na Palestina.

Nacionalidade brasileira de fato é um sonho para mim, e espero tê-la um dia, para que eu possa ter um papel e uma abordagem mais ativa e positiva na minha profissão e na vida. Espero que o meu amor e respeito ao Brasil possam me fazer ganhar a sua nacionalidade aqui.

Espero que eu possa conhecer vossa Excelência aqui no Brasil, para agradecer pessoalmente o que seu belo país tem feito para o meu povo palestino e para meu país com o seu apoio e posições honrosas que respeito e aprecio de coração. Eu sei que é difícil para a minha carta chegar a sua mesa, e eu espero que ela possa chamar sua atenção e sentimentos. Penso que Vossa Excelência tem muito trabalho a fazer, no entanto, espero que eu possa conhecê-la para agradecer pessoalmente por sua sinceridade, compaixão e posições políticas nobres com o meu povo palestino.

Muito carinho e gratidão

Hasan Rabee, refugiado da Palestina no Brasil.

Tayguara Ribeiro

(Vermelho – 29/09/2014)



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