O DESPREPARO DA MÍDIA

O episódio da suspeita de ebola revelou as deficiências da mídia brasileira e a necessidade de imunizar a população contra os riscos de uma epidemia de racismo e xenofobia.

Pesquisadores da ENSP manifestaram sua indignação diante a incompetência e falta de ética da mídia brasileira no episódio de suspeita de ebola.

Para Sergio Rego, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Bioética, Ética Aplica e Saúde Coletiva da mesma instituição, ficou evidente o despreparo da imprensa para lidar com esta situação.

“Jornais de grande circulação nacional divulgaram o nome do paciente e, pasmem, sua documentação. Trata-se de um refugiado; e não deveria ter seus dados expostos”, repreendeu ele. Assim, em vez de proteger as vítimas, corremos o risco, mais uma vez, de culpá-las.

De fato, houve exposição manifesta do nome, documentos e fotografia do paciente. O que, além de violar seu direito à privacidade e à sigilosidade da notificação, constitui claro delito previsto em lei, na medida em que, tanto no âmbito do direito internacional como no das leis brasileiras, há recomendação expressa para salvaguardar a sigilosidade e confidencialidade da documentação e das informações relativas à identidade dos refugiados.

Não é preciso lembrar que, em muitos casos, o simples fato de divulgar a identidade do refugiado (obrigado a abandonar seu país de origem por motivos de perseguição a caráter político, étnico ou confessional e solicitar proteção do país de destino e organismos internacionais), pode constituir uma ameça tanto para a sua integridade como para a segurança de seus familiares e/ou correligionários que ainda se encontram no país de origem.

O pesquisador alertou, por outro lado, sobre as consequências dramáticas que tal ato irresponsável pode ter sobre a segurança sanitária do país:

“Quantas pessoas podem deixar para procurar assistência mais tardiamente com medo de terem suas vidas expostas por jornais e TVs irresponsáveis? A reflexão ética deve fundamentar as decisões tomadas em todas as instâncias de forma responsável para não gerar mais problemas e pânico”, defendeu o pesquisador.

Outro pesquisador da ENSP, o infectologista Fernando Verani vê ainda outra grave consequência para o alarmismo midiático: “Uma situação de pânico poderá prejudicar o trabalho de investigação de contatos, já que possíveis casos suspeitos poderão não se apresentar às estruturas de saúde por receio de isolamento”.

No plano social, a postura cínica da mídia é suscetível de fomentar ainda mais racismo, xenofobia e discriminação por parte da população brasileira, tradicionalmente carente de informação de qualidade.

Não menos carentes de informação de qualidade são os jornalistas que, quando recorrem o adjetivo pátrio do paciente, se referem à Guiné – esquecendo que existem três Guinés na África (Bissau, Equatorial e Conacri).

Ou, pior ainda, quando optam pela adjetivação gentílica continental (africano), homogeneizando a população de um continente de mais de 1 bilhão de habitantes e generalizando seus atributos. Operação retórica cognitiva que favorece o amalgama e o preconceito.

Lembremos que já vêm sendo registradas várias manifestações de ódio, xenofobia decorrentes desse tipo de generalização, associando negro e africano ao vírus.

Em Barracão (PR), um mulher que já ajudou centenas de imigrantes, foi orientada pela PF a não mais receber africanos por medo do ebola. Enquanto moradores de Três Lagoas, também no Paraná, ampliam mais ainda o preconceito, confundindo haitianos com africanos.

Assim, a equação mental final que se impõe ao imaginário popular não pode ser outra: haitianos = negros = africanos = ebola!

Bem que alertamos: Racionalidade, profissionalismo e dever social são, até agora, as principais vítimas do vírus. Histeria aguda, xenofobia primária e racismo arcaico também podem figurar entre os sintomas da doença mental.

(oestrangeiro.org)

 

 



Categorias:análises

%d blogueiros gostam disto: