ROTINA NORTISTA

Situada na tríplice fronteira, perto de Iñapari do lado peruano e Bolpebra do lado boliviano, Assis Brasil é a porta de entrada de imigrantes haitianos e africanos.

O acesso peruano a Assis Brasil é feito por meio da Ponte da Integração, inaugurada em 2006. Na alfândega, um cartaz explica que o departamento de imigração da PF no local funciona apenas entre 7h e 19h.

Instalada pelo governo federal na fronteira entre o município acreano de Assis Brasil e a cidade peruana de Iñapari, a alfândega entre Brasil e Peru conta, durante todo o dia, com a presença de agentes da Polícia Federal, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e da Receita Federal.

À noite, quando os órgãos de fiscalização fecham, um vigilante terceirizado pode ser visto acompanhando o movimento de entrada e saída de veículos.

Moradores da região temem a exposição da fronteira à entrada de armas, entorpecentes e imigrantes que podem trazer consigo o vírus do ebola. Mas o coordenador da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Acre (Sejudh), Russelino Barbosa, não acredita na possibilidade de o vírus ebola chegar ao Brasil, por meio da fronteira no Acre, em função das barreiras sanitárias existentes nos países usados como rota pelos imigrantes.

“O Ministério da Saúde diz que pelo estado do Acre, em função da distância e das barreiras sanitárias existentes nas localidades por onde eles passam, fica muito difícil a possibilidade deles chegarem aqui. No Senegal tem uma barreira sanitária, na Espanha e em Madri tem barreira, quando eles chegam no Equador tem outra”, explica.

Ele explica que nos últimos 90 dias chegaram ao Acre apenas dois imigrantes vindos da Nigéria – país considerado livre do ebola, após 42 dias sem registrar nenhum novo caso da doença. Ele garante que apesar de, em anos anteriores, já ter tido o registro de imigrantes vindos da Guiné [um dos países mais atingidos pelo surto de ebola], este ano 90% dos que chegaram ao Acre são haitianos e os demais senegaleses e dominicanos.

O coordenador garante ainda que nenhum imigrante vindo de Serra Leoa e Libéria, outros dois países com surto da doença, entraram no estado este ano.

Chegada

Segundo moradores da região, os imigrantes passam em carros grandes que trazem cargas. Em seguida, eles desembarcam próximo à ponte da Integração e pegam táxi para ir rumo a Brasiléia.

Uma média de 50 imigrantes chegam ao Acre pela fronteira todos os dias, na maioria haitianos que tem entrada facilitada por causa da política de acolhimento adotada pelo governo brasileiro.

Já pessoas vindas de outros países precisam apresentar visto para poder ingressar legalmente no país. Muitos acabam entrando da mesma forma e seguem junto com os haitianos para o abrigo mantido pelo governo do Acre em Rio Branco.

Controle

Ao chegar ao posto de fronteira, os imigrantes respondem a um questionário da agente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Ela busca por sintomas de doenças que os imigrantes possam ter tido na viagem até o Brasil. Depois, entrega um papel em português com orientações sobre o vírus ebola, antes de o grupo seguir até a sede da Polícia Federal no município de Epitaciolândia, a 106 km dali.

No dia 13 de outubro, o ministro da Saúde Arthur Chioro disse em entrevista que medidas de prevenção contra o avanço da doença no país estão sendo adotadas, incluindo simulações em portos e aeroportos.

Chioro se pronunciou após um guineano ter entrado no Brasil e apresentado sintomas semelhantes ao do vírus ebola. Os dois exames feitos deram negativo para a doença.

Em setembro, agentes da Polícia Federal que atuam na fronteira do Acre com o Peru e Bolívia reivindicaram a presença constante de uma equipe do Ministério da Saúde para auxiliar na triagem dos imigrantes, por medo de terem contato com o vírus.

“O papel central dos agentes de fronteira seria identificar indivíduos que vem de área de transmissão de ebola. A África tem mais de 50 países e em apenas três desses há a transmissão ativa do ebola. Se o indivíduo chega de um país que não existe casos, isso não é motivo de preocupação. Se ele chega desses três países, Libéria, Serra Leoa e Guiné, ele tem risco de transmissão”, diz.

Outro ponto importante, segundo o infectologista, é saber há quanto tempo esse imigrante saiu do país de origem. Pelo tempo de viagem que os imigrantes africanos levam até chegar ao Brasil, o médico crê que o risco de o ebola chegar é pequeno.

“O que temos de informação é que o tempo de viagem médio dos que saem dos países africanos é de 45 dias. Nesse tempo, é quase impossível de chegar alguém aqui com ebola. Em uma longa viagem ele adoece no caminho e pode até morrer dado a gravidade da doença. Se ele vem de maneira rápida, é possível que ele chegue ainda no período de incubação”, afirma.

O Ministério da Saúde informou que o órgão, juntamente com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), repassou orientações para as equipes locais dos estados que fazem fronteira com outros países. As orientações se referem apenas a questões de saúde dos imigrantes, qual o país de origem deles e se estão sentindo algum sintoma.

Peru

País que faz parte da rota utilizada por imigrantes para ingressar no Brasil, o Peru adotou a política de barrar e deportar imigrantes africanos flagrados sem visto em seu território. A informação é confirmada pelo prefeito da província peruana de Tahuamanu-Iñapari, Celso Cury.

O prefeito diz que a proibição de africanos não é necessariamente por causa do ebola. Segundo ele, a ordem é barrar os imigrantes vindos de qualquer país africano sem visto, facilitando a passagem apenas de haitianos, levando em conta a política humanitária adotada pelo Brasil.

Sobre a preocupação com a possível entrada do ebola pela fronteira, Cury diz que o país não registrou nenhum caso suspeito e tem se preparado para lidar com a doença. “Já temos um plano de detecção e tratamento especial para esse mal”, afirma.

Segundo o prefeito, quando pessoas vindas da África são flagradas tentando entrar no Peru sem visto, são deportadas e levadas de volta ao Equador, país que faz parte da rota de imigração para o Peru. Apesar disso, ele reconhece que muitos encontram formas de burlar a fiscalização e cruzar a fronteira.

“De acordo com informações da polícia e da imigração, os africanos não podem entrar no Peru sem visto. Quando são flagrados, a polícia intervém e eles são deportados. Mas a fronteira é tão grande que não necessariamente eles passam por Iñapari”, diz.

Celso Cury afirma que a chegada de africanos se intensificou nos últimos anos e compara a situação ao que ocorreu em 2010 com o haitianos. “Há uns três anos não havia trânsito de africanos, apenas de pessoas do Haiti.”

Ele diz que naquela época, quando o Brasil não permitia que os imigrantes passassem pela fronteira, a cidade peruana enfrentou problemas sociais. Com aproximadamente 2,5 mil habitantes, a cidade de Iñapari é a última no Peru antes de se entrar no Brasil pelo município acreano de Assis Brasil, distante 342 km da capital Rio Branco.

“Tivemos problemas de serviços básicos, de água e outros, quando os imigrantes esperavam aqui que o Brasil os recebesse. Posteriormente, quando o Brasil permitiu o ingresso no país, não tivemos mais problemas”, diz.

Rota

Desde 2010, o Acre e o Peru se estabeleceram como rota de imigração, principalmente para haitianos que deixaram sua terra natal, após um terremoto que devastou a capital do Haiti, Porto Príncipe, e uma epidemia de cólera que se seguiu ao desastre. A rota também passou a ser utilizada por imigrantes de países como a República Dominicana e o Senegal.

De acordo com dados da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Acre (Sejudh), pouco mais de 20 mil imigrantes já passaram pelo estado nos últimos três anos e meio.

(Agências – 24/10/2014)



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