A ESCOLHA DO CENTRO

Latinos, caribenhos e africanos mantêm vivo o coração de São Paulo.

O sotaque estrangeiro no centro de São Paulo acompanhou a ascensão da cidade, desde a popular Rua 25 de Março, cuja vocação comercial foi despertada pelos árabes, à sede da Prefeitura, antigo prédio dos italianos Matarazzo. Se hoje os novos imigrantes vêm de locais tão distintos quanto Bolívia e Senegal, o destino continua sendo o centro de São Paulo.

A prefeitura estima em 600 mil a população imigrante na cidade, a maioria morando ou trabalhando na região. “O centro sempre foi uma porta de entrada porque era onde ficava a Hospedaria de Imigrantes”, diz Paulo Illes, coordenador de políticas para imigrantes da prefeitura.

A hospedaria, que funcionava na Mooca -bairro vizinho ao centro- foi desativada em 1978 e abrigou o Memorial do Imigrante, até ser reinaugurada como Museu da Imigração em 2014 -mesmo ano em que a crise gerada com a vinda de haitianos do Acre para São Paulo evidenciou a necessidade de reabertura de um abrigo para os recém-chegados.

Durante o segundo semestre de 2014, foram criados o Centro de Referência e Acolhida para Imigrantes (CRAI), pela prefeitura, e a Casa de Passagem Terra Nova, do governo estadual. Situados na Bela Vista, os abrigos acolhem principalmente refugiados.

O.H., 38, veio de Burkina Faso. Músico, ele diz que se viu obrigado a deixar seu país após ser perseguido pelo governo em razão das letras que escrevia. Veio para São Paulo porque disseram que era um lugar bom para o “show business”. Há sete meses no Brasil, o único trabalho que encontrou foi como pintor na construção civil.

Desempregado, ele não desistiu da cidade, nem da carreira. “Eu nunca escrevi letras de amor, mas aqui é só o que me vem à cabeça. É verdade que é uma cidade de muito trabalho, mas o que eu vejo no cotidiano das pessoas é que elas enganam o tempo para encontrar amor”, diz.

Já para a peruana Rosa Delgado, 46, São Paulo significa trabalho. “Vivemos na correria, se não -como se diz?- o bicho pega”, afirma.

Rosa é dona do “Tradiciones Peruanas Restaurant”, na av. Rio Branco. Filha de mãe inca e pai espanhol, ela saiu de Cuzco aos 16 anos e, desde então, só retornou para buscar artesanatos -que vendia para se sustentar- e visitar a família. Há 30 anos na estrada, já viveu na Bolívia, Chile e Argentina.

Para ela, o mais característico da cidade, em comparação com os outros lugares por onde passou, são os moradores de rua. “É muito específico de São Paulo como as pessoas se abandonam”.

Pessoas morando nas ruas impressionam os imigrantes na cidade. Os haitianos Fedo Bacoult, 37, e Steave Pierre, 36, dizem que conterrâneos seus têm medo de trazer os filhos para cá ao verem jovens nas ruas, usando drogas.

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“Os haitianos vêm para São Paulo por causa da propaganda da cidade: é a mais rica e avançada, e nós estamos correndo atrás do dinheiro”, afirma Bacoult.

Mas, com os preços em alta, poupar é mais difícil. Por isso, apoiam os protestos nas ruas -mas de longe. “Eu não posso fazer igual aos brasileiros, eu sou imigrante. Eu participaria se tivesse certeza que seria pacífico”, diz a haitiana Marie Meanty, 23.

Os haitianos são considerados privilegiados pelo senegalês Massar Sarr, 42, representante dos imigrantes no conselho participativo da subprefeitura da Sé. Ele aponta como vantagem dos haitianos a facilitação do processo de regularização, promovida pelo governo federal em resposta ao aumento do fluxo após o terremoto que atingiu o Haiti em 2010.

“Eu acho que tem que igualar pra todo mundo. Imigrante é imigrante”, afirma Sarr.

Para ele, os africanos, por serem uma migração mais recente, são menos organizados que os latino-americanos. “Os africanos que já estavam aqui, que vieram para estudar, não querem saber dos irmãos africanos que estão chegando agora”, critica.

Já o boliviano Luis Vásquez, 43, veio para São Paulo há 13 anos para fazer uma pós-graduação, mas ficou para ajudar a comunidade boliviana. Hoje, preside a Associação dos Empreendedores Bolivianos da Rua Coimbra.

Ele critica o estigma que se criou em cima do boliviano como “trabalhador escravo”. Vásquez diz que, por pior que sejam as condições de trabalho nas oficinas de costura, elas ainda são melhores -e mais rentáveis- do que a situação na Bolívia.

“Para o imigrante, é bom morar na oficina. Ele não paga aluguel, não gasta com transporte e pode trabalhar mais tempo, já que ganha por peça fabricada”, diz. Segundo ele, o que é negativo nesta situação é o isolamento em que se vive.

Ele não espera que os novos imigrantes integrem-se de modo semelhante ao que aconteceu com europeus.

“Tomara que não aconteça com a gente o que aconteceu com vocês. Os filhos esqueceram que os pais foram imigrantes, e às vezes nos tratam como bichos de outro planeta”, diz.

Atrativos

De acordo com Dulce Baptista, professora da PUC-SP e pesquisadora do Observatório das Metrópoles, os imigrantes buscam o centro da cidade tanto por uma questão histórica quanto prática.

“O centro da cidade era um espaço privilegiado, de residência da classe alta. Conforme outros bairros se valorizaram, a região ficou esvaziada. Por isso, existe nela toda uma edificação que permite a estruturação de casas de cômodo, cortiços e moradias sublocadas”, explica.

A vantagem dessa estrutura, segundo ela, é o preço. Apesar do metro quadrado da região não ser o mais barato da cidade, os imigrantes podem dividir as residências com muitas pessoas.

Outro fator que influencia na escolha é o deslocamento. Como a principal atividade dos imigrantes é o comércio popular, característico do centro, eles preferem morar na região para economizar em transporte.

Mas a professora faz um alerta. “O centro vem passando por um processo de requalificação urbana e a tendência com isso é a expulsão de população atual. Os imóveis que hoje são habitados pelos imigrantes passam a ter um novo uso, dado pela atividade econômica que chega na região”, diz.

Fernanda Perrin

(Folha de SP – 23/01/2015)



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