A LUTA DE AHMED E MOHAMED

2 imigrantes árabes muçulmanos no interior paulista relatam seus temores e esperanças.

AHMED

Ahmed não fuma, não bebe e não come carne de porco. Faz cinco orações diárias, a primeira ao alvorecer. É devotado à família e ao trabalho. Quando sente necessidade dos rituais de uma mesquita, viaja 240 quilômetros, a distância de ida e volta entre Ribeirão e Barretos.

Os costumes do egípcio Ahmed Mahmoud Maghawry Hamed Elgammal, 26 anos, atrapalham relacionamentos de amizades fora de seu mundo.

O isolamento de Ahmed tem a ver com a religião que professa: é muçulmano. Seu livro sagrado é o alcorão, seu profeta é Maomé, sem o qual não existiria. Por conta de preconceitos, alguns em formas de palavras grosseiras, sua mulher, Vanessa de Barros Sartore, funcionária de um banco estatal, em Ribeirão, achou melhor dispensar o uso do hijab – o véu da privacidade e da modéstia.

Ahmed e Vanessa têm uma filha linda, Farida, ribeirão-pretana que completa um ano agora em 22 de janeiro.

Ahmed, formado na Faculdade de Línguas do Cairo, leciona árabe, italiano e inglês em duas escolas particulares de Ribeirão. Aprendeu a falar o português em um ano.

Ele não aprova o atentado em Paris, na semana passada, que matou jornalistas do Charlie Hebdo, policiais (entre eles um muçulmano), reféns e extremistas.

Mas confessa que não acredita muito na mídia ocidental quando o assunto envolve possíveis atentados articulados por extremistas do islã. Tem motivos para desconfiar e até cita exemplos.

“Quando acontece algum atentado horrível, mesmo sem provas, logo acusam os islamitas. Eu não vi os corpos dos extremistas mortos pela polícia francesa. Quando os EUA mataram o Bin Laden, mostraram o corpo dele. A polícia francesa deveria ter feito o mesmo”.

E concorda menos ainda com o tratamento dado por alguns chargistas ao profeta Maomé.
“É como se alguém ficasse ofendendo sua família o tempo todo. Maomé é nosso profeta, condutor do nosso povo”, diz.

Ahmed confessa que não ficou triste quando Vanessa decidiu “aposentar” o hijab.

“Ela vinha sendo humilhada só porque usava um véu. Foi ofendida, dentro do banco, por um cliente. Poderia ser agredida a qualquer momento”. Vanessa não quis falar com o repórter, nem posar para fotos, desculpa-se Ahmed.

Ahmed e Vanessa se conheceram em maio de 2011, numa Cairo em extraordinária efervecência política e cicatrizando feridas após um movimento que levou o presidente Hosni Mubarak à renúncia, depois de 30 anos no poder. Ahmed, natural de Tanta, a 92 quilômeros do Cairo, participou ativamente das manifestações na Praça Tahrir, entre 22 de janeiro e 11 de fevereiro.

Animado com um novo emprego – guia turistico – Ahmed levava ingleses e italianos em passeios pela bela capital do Egito. Até que em maio seu destino cruzou com o de Vanessa. A jovem bancária ribeirão-pretana estava num grupo de turistas.

“O guia da Vanessa era outro, ele falava espanhol e um pouco de português. Mesmo assim, tive coragem e me apresentei a ela”, lembra Ahmed.

Os dois trocaram algumas palavras em inglês e iniciaram um relacionamento que terminaria em casamento no Ministério de Justiça do Cairo, em março de 2012.

“No Egito, o casamento de um local e uma estrangeira é feito no Ministério da Justiça. Não há religioso”, explica Ahmed.

Ahmed e Vanessa viveram um ano no Cairo até a consumação da viagem de volta ao Brasil, em fevereiro de 2013. Vieram direto para Ribeirão, onde Vanessa retomou seu trabalho de bancária e o egípcio iniciou seu périplo para se tornar professor de línguas.

“Quando cheguei aqui, não falava nada, só alguma coisa que aprendi com a Vanessa. Matriculei-me numa escola e estudei muito, dia e noite. O audiovisual da televisão ajudou. Hoje já estou dando aula. Achei que aprendi rápido”.

Em 22 de janeiro do ano passado, nasceu Farida. Em razão disso, as viagens até a mesquita de Barretos rarearam. Farida, que fará um ano na quarta-feira, ocupa bom tempo dos pais.

Ahamed considera o Brasil um país especial, tolerante e generoso com os estrangeiros que o adotam.
“Aqui, pessoas de países diferentes e hostis entre si, vivem em paz. Penso que as ofensas que a Vanessa sofreu por usar o hijab (véu) foram feitas por pessoas que desconhecem o islamismo. Eu não falei nada. Foram os parentes que pediram para ela deixar o véu. Apenas respeitei a decisão”.

Farida, diz Ahmed, será criada de acordo com o código de conduta do Alcorão. Mas, quando atingir a maioridade, ela vai decidir o rumo que deverá tomar na vida.

Sidnei Quartier

(A Cidade – 18/01/2015)

 

MOHAMED

Mohamed Bou Abbas, de 58 anos é consultor imobiliário em Araraquara e muçulmano nascido em Kamed El Laouz, no Líbano. Ele questiona as charges publicadas pela revista francesa “Charlie Hebdo”, que geraram o ataque terrorista.

“Não existe justificativa para o terror que ocorreu, mas eles mexeram com extremistas. Acenderam o pavio. Maomé não tem imagem. A charge é provocativa”, afirma Mohamed.

Ele ressalta os princípios do islamismo. “O Islã não é radical, somos contra qualquer tipo de violência. Os muçulmanos dão esmolas, querem ajudar o próximo.”

Na sua visão, por causa do radicalismo de parte dos seguidores da religião, outros casos de terrorismo não são descartados. “Mais ataques podem acontecer, com certeza. É cultural.”

A família de Mohamed mudou-se para o Brasil quando ele era criança. Em São Paulo, enquanto trabalhava em um hotel, conheceu sua mulher, Sueli, que é araraquarense. A filha dos dois é Narhima, de 19 anos.

Todos os dias pela manhã, Mohamed faz uma oração. O ato dura cinco minutos e deve ser feito em cima de um tapete e na direção de Meca. Em sua casa, apenas ele segue a religião (a mulher é católica e a filha ainda está indecisa).

Entre os rituais dos muçulmanos, o consultor destaca as cinco orações diárias (nascer do sol, meio da manhã, meio-dia, meio da tarde e pôr-do-sol).

Não são apenas os árabes que seguem o islamismo. O radialista Tadeu Alves, 58, é católico e nascido em Araraquara, mas simpatiza com a causa palestina e faz as cinco orações diárias previstas pelo Islã. “Sou muito espiritualizado. Quando houve o Massacre de Sabra e Chatila [genocídio de palestinos e libaneses, em 1982], fiquei sensível a isso e passei a estudar sobre a religião”, diz.

Ele afirma que o ataque em Paris o deixou “muito chateado” e não traduz o que é o Islã.

“O Islã é paz. O Estado Islâmico não tem nada a ver com o islamismo. Mas os muçulmanos mais radicais ou mais convictos não gostam que mexam com Maomé, por quem têm um respeito profundo. Maomé é o profeta de Alá, é uma supremacia religiosa. Então por que mexer com o Islã?”

A comunidade islâmica representa 0,02% da população de Araraquara e, em dez anos, cresceu 50%.

Celso Luís Gallo

(A Cidade – 18/01/2015)

 



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