A ESTRADA DO PACÍFICO

O principal impulso à imigração haitiana não é o terremoto de 2010, mas o baixo desempenho da economia do país caribenho e a finalização da Rodovia Interoceânica.

Migrar é tentar refazer o caminho da vida. É muito comum que parentes e amigos conheçam ou sejam pessoas vindas de outras regiões do país em busca de trabalho. Outro caso comum são os antecedentes italianos e portugueses, as nacionalidades mais numerosas entre os imigrantes no Brasil. Aparentemente, o país continuará a ser terra de esperança, o que muda é o ponto de partida. Agora é a vez dos haitianos.

A rota é feita de forma bem parecida com o que já conhecemos sobre brasileiros tentando entrar nos Estados Unidos. A figura do ‘coiote’ encarrega-se de acompanhar os emigrantes pelo caminho mais longo possível, o que significa mais dinheiro, já que ganham por trecho. O trajeto pode incluir avião, ônibus ou táxi e o tempo de viagem pode chegar a 30 dias. Quando vindos do Haiti, passam ainda por Equador, Peru e Bolívia, antes de finalmente chegarem ao Brasil praticamente falidos. A primeira cidade a hospedar essas pessoas é Brasiléia que fica a 237 km de Rio Branco, fazendo fronteira com a cidade boliviana de Cobija. Lá eles começam a peregrinação para a retirada de documentos e a busca por um emprego.

O fluxo migratório de haitianos intensificou-se em meados de dezembro de 2010. Atentas à questão, as pesquisadoras Letícia Mamed e Eurenice Oliveira de Lima (Universidade Federal do Acre) passaram a desenvolver um projeto a fim de traçar um perfil dessa nova força de trabalho no país. A revista Labor teve acesso ao material e o divulgou na edição nº 5/2014. Surpreendentemente, o estudo afirma que o impulso para esse movimento tem mais a ver com o baixo desempenho da economia haitiana do que com o terremoto que devastou o país há cerca de cinco anos atrás. O acesso seguro ficou ainda mais fácil a partir de julho de 2011, quando a Rodovia Interoceânica, também conhecida como Estrada do Pacífico, passou a interligar o Brasil ao Peru. É por este caminho, inclusive, que entram a maioria dos senegaleses, nigerianos, camaroneses, ganeses e demais imigrantes da África. A partir de 2013, os senegaleses passaram a ser o segundo maior grupo de imigrantes do Acre.

A mão de obra haitiana, uma das mais baratas do mundo, é formada majoritariamente por homens de 20 a 40 anos. Entretanto, a vinda predominante de homens, especialmente no caso dos africanos, impulsionou a vinda de filhos e esposas, o que acabou por formar um novo perfil. Quanto à escolaridade, outra mudança. Nos primeiros anos, muitos formados, enquanto que em um período mais recente, foi a vez dos camponeses virem atrás de trabalho. Este é um dado que diz muito sobre os empregos que estão sendo oferecidos e buscados por essas pessoas. De acordo com o material disponibilizado pela revista, eles geralmente são empregados no setor agropecuário (indústria de carne), construção civil, setores metalúrgico, têxtil, hoteleiro e de serviços de limpeza, especialmente no Centro-Sul, nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás e Mato Grosso. Neste contexto, estima-se que São Paulo tenha recebido 5 mil novos imigrantes em 2014, destes, 900 seriam haitianos.

As condições de trabalho enfrentadas por estas pessoas são bem conhecidas. Contratos curtos garantem que nem mesmo o período de experiência seja ultrapassado e os direitos não possam ser exigidos. Alguns casos como os das confecções das marcas Zara e M.Officer evidenciam ainda a precariedade a que se sujeitam os imigrantes em busca de trabalho.

Diante dos fatos, é quase impossível não se perguntar sobre a posição do governo nesse processo. O Brasil tem tentado combater a informalidade estimulando a migração regular. Entretanto, devido à grande procura, os cerca de 600 atendimentos realizados por dia na Embaixada em Porto Príncipe não têm sido suficientes. O crescimento econômico e a ascensão da classe média chamaram a atenção do mundo e atraíram cidadãos de outras nacionalidades, mas o país ainda não desenvolveu medidas para lidar com este novo cenário. O Brasil de 2014 já não é o mais o mesmo de 1980, o que gera a necessidade de uma atenção política mais ampla, muito além da construção de abrigos.

Beatriz Araújo

 



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