PAULISTAS COM SOTAQUE

Conheça três imigrantes e seus pontos de vista sobre São Paulo, encarando suas dificuldades e expectativas na semana do aniversário da cidade.

A alma do Brasil – e tudo aquilo que envolve a construção do que chamamos “país” – tem sangue e suor de imigrantes. Em São Paulo, ao longo de 461 anos, houve diversas ondas de migrações, somando mais de 80 nacionalidades diferentes de pessoas que vieram para cá em busca de sonhos de oportunidade ou de alguma paixão inexplicável (seja lá o motivo que for). Por isso, hoje, é impossível imaginar a “Pauliceia” sem italianos, japoneses, africanos, bolivianos e todos os outros povos que acabaram se tornando paulistanos, de certa forma.

São Paulo é diversa e rica de culturas. Andar por suas ruas é ter certeza de ouvir línguas diferentes, de pessoas diversas. E como é viver aqui para essas pessoas? O que sentem? Para um retrato completo da capital, neste aniversário, o Terra não podia deixar de conversar com essas pessoas. Assim, trouxemos a história e os sentimentos de três diferentes imigrantes, que deram seus pontos de vista, dando uma ideia melhor das dificuldades e expectativas proporcionadas pela construção de uma nova vida na cidade “quatrocentona”.

“Estou no Brasil, tenho de incorporar a cultura daqui, né? Quem sabe aprender a sambar”

Mais de um milhão de crianças sírias foram obrigadas a se refugiar depois do início da guerra no país, em 2011. Entre elas, está o sobrinho de Majd Soufan, que ele ainda não conhece. Números trágicos de uma nação em ruínas empurraram Majd, (no português, Miguel), no abismo chamado refúgio, nesta queda sem fim daqueles que fogem por medo. Na Síria, o medo é encarnado pelo governo, pelas milícias armadas, pelo Estado Islâmico, por bombardeios da Coalização Internacional liderada pelos Estados Unidos, pelo Hezbollah e por todo o resto que causou mais de 190 mil mortes nos últimos quatro anos.

Em 24 de dezembro de 2013, depois de tentar refúgio em 14 embaixadas, Miguel conseguiu chegar a São Paulo. “Você precisa desses documentos e duas fotos. Foi o que ela me disse. E também lembro de ela falar ‘bem-vindo!’”, conta o imigrante sobre a experiência de ser aceito no país.

O sírio de 27 anos não sabia nada do Brasil, muito menos de São Paulo: não conhecia a língua, a cultura, a comida. Veio sozinho, deixando a mãe e o pai em Damasco, além de irmão, cunhada e sobrinho – que estão também refugiados, mas no Líbano. “Não queria vir”, diz de maneira enfática. “Mas não tinha solução”.

Miguel participou de protestos contra o governo de Assad e disse ‘coisas demais’ sobre os problemas de seu país. Se sentiu ameaçado. Especialmente porque trabalhava em um canal público de TV e suas crenças o impediram de continuar no país. “O que eu mais gosto no Brasil é a liberdade de expressão. Aqui, posso falar e pensar o que eu quiser”, diz sorrindo.

O sírio conta sobre o choque de, repentinamente, vir para o outro lado do mundo: saiu de Damasco, foi até a Malásia e depois veio para cá. “Foram três horas de conversa na Embaixada. Pedi para vir visitar, já tinha todos os documentos e, de repente, depois de tantas negações em lugares no mundo todo, recebi meu sim. Fiquei em choque!”, lembra.

E o “sim” trouxe Majd e outros 1.524 sírios para o Brasil nos últimos anos, sendo o maior contingente de refugiados no país, atualmente.

É outra vida, não é, Miguel?, questiono. “Sim, é. Quero construir família, ter em algo em que acreditar. Porque em Deus, já não consigo”, lamenta. “Não depois do que vi na guerra. Não depois de visitar um campo de refugiados na Turquia e ver todas aquelas crianças”.

Majd olha para mim, uma repórter que não faz ideia do que é viver na guerra. “É triste. Muito triste”, diz apenas, tentando explicar o que é acompanhar as notícias de seu país.

Apesar da tristeza, revela a alegria das descobertas de um lugar onde pode viver com um pouco mais de paz. “Adoro andar na Paulista com meus amigos brasileiros, ir a livrarias. O paulistano lê muito. Vejo gente lendo no metrô, nas ruas… É diferente”, pontua o engenheiro de telecomunicações que fala árabe, português, alemão e inglês.

Em um ano e um mês, Majd já tem suas paixões, sonhos e ideias para a cidade que o acolheu e onde, segundo ele, pretende morrer. “Tenho ideias para as pessoas mais necessitadas, para a cidade… Imagino uma São Paulo com mais parques”, conta. Já para si, tem projetos de continuar se adaptando: “estou no Brasil, tenho de incorporar a cultura daqui, né?”. Para esse ano, planeja “quem sabe, aprender a sambar”, confessa rindo, timidamente.

“Africanos trouxeram um pouco de nós para toda a América. Queria que tudo isso fosse valorizado”

A camisa verde-amarela já fez Massar Sarr, 42 anos, chorar e vibrar em frente à TV. No Senegal. Desde criança, ele se lembra de desejar viver em terras brasileiras pelo amor que sentia no molejo revelado nos campos de futebol. E a fixação acabou o trazendo para São Paulo, décadas depois. Em 2008, Massar chegou ao Brasil, sozinho, e se apaixonou. “Cheguei pelo Rio de Janeiro, vim para São Paulo e me encantei. Desde o momento que pisei no centro da cidade, sabia que iria fazer daqui meu lar”, conta o sorridente africano na Praça da República.

Faz sol em São Paulo, estamos sentados embaixo de uma árvore enquanto esperamos outros senegaleses chegarem para se encontrar com ele, que faz trabalho voluntário em diferentes instituições. Hoje, levará seus conterrâneos ao Banco do Brasil, que tem um acordo com o governo federal para a abertura de contas dos imigrantes no país. O telefone de Massar toca e, em francês, dá instruções – que entendo pela metade, mas sei que enumerou documentos necessários para dar andamento no banco.

“Os imigrantes africanos precisam muito de tradutores. Muitos chegam aqui e não falam inglês, francês, português… Somente ‘dialetos’. Aí, tudo se torna mais complicado, especialmente na hora de tirar documentos. Procuro ajudar na medida do possível. Mas é difícil, são muitos imigrantes”, conta.

Apesar das barreiras impostas pela comunicação, o senegalês afirma que a burocracia diminuiu durante a recepção dos imigrantes, em comparação de quando veio. “Quando cheguei a São Paulo, havia apenas dezenas, pouco mais de 50 de meus conterrâneos aqui. Hoje, somos mais de mil”, afirma.

Massar é técnico em eletrotécnica, formado aqui em São Paulo. Apesar disso, está desempregado e, enquanto busca oportunidade de emprego, continua com seus trabalhos voluntários. “Eu ajudo os imigrantes e, especialmente, os africanos, pois acredito que todos os dias, pelo menos um pouquinho que seja, a gente tem que ajudar uma pessoa. Pelo menos uma. Porque eu sei que neste momento tem alguém me ajudando. Fazendo algo por mim e eu nem estou vendo”, explicou.

O senegalês também me conta que seu sonho é ter sua casa própria – no centro, “claro” – para tocar sua vida, afinal, adora receber os amigos em casa e preparar uma comidinha africana. “Um dia vou fazer para você, Ana”, promete. E dá risada.

Pergunto se a comida e a cultura lhe fazem muita falta. “Ah, faz. Mas, sabe de uma coisa? Os brasileiros se parecem muito com os africanos em suas relações, no jeito de receber a gente. São muito calorosos”, diz. “E a comida é semelhante: comemos arroz, feijão, carne. Muda mais é na preparação”, lembra.

Aliás, é essa proximidade entre Brasil e África (e as raízes que temos de lá), que Massar sonha que os paulistanos valorizem mais. “Neste aniversário da cidade, se pudesse dar um presente, daria o conhecimento da História Africana para os brasileiros, além de seu ensino nas escolas. Africanos vieram para cá serem escravos, famílias se separaram. Essas pessoas trouxeram um pouco de nós para toda a América. Queria que tudo isso fosse valorizado”, defende.

Para começar a dividir toda essa história e cultura, Massar está planejando, junto a quatro secretarias da Prefeitura, a Festa da Independência do Senegal, no dia 4 de abril, que poderá ser realizada na Praça da República (ou em outro local público do centro). “Já estou com a papelada em mãos, estamos organizando o evento que vai trazer comida típica, vamos mostrar documentários, fotos, imagens, música, instrumentos… Tudo para que os paulistanos possam conhecer melhor o nosso país. Inclusive, estamos retratando como é a vida dos brasileiros que moram lá – porque há gente que fez a vida lá, assim como fazemos aqui”, explica.

O sol do meio-dia se aproxima e outras ligações já despertaram o celular de Massar, tão requisitado. Por isso, vamos caminhando em direção ao metrô para nos separarmos. Depois de darmos risada com as possibilidades da próxima Copa do Mundo na Rússia e de sua torcida pela melhora da seleção brasileira, pergunto a ele se, no final das contas, se sente um paulistano.

“Olha, eu sou brasileiro. Sou paulistano também, mas, acima de tudo, sou brasileiro. Porém, é o que eu digo, você nasce hoje, mas não sabe onde vai morar amanhã. É um mundo de possibilidades, não?”, finaliza, me dando um abraço caloroso (de africano de nascença e brasileiro de coração verde-amarelo).

“Quando entramos nos ônibus, as pessoas se afastam, como se tivessem com medo, nojo. E sentir isso dói profundamente na alma”

Luis Vásquez é o típico boliviano: olhos puxados, estatura mediana e cabelos bem pretos. Ele me recebe em sua loja de acessórios para costura. Nesse ambiente praticamente andino, é tudo cheio de muito: muita cor, muita gente, muitas palavras, muita música latina. Quando entro na loja, há muita timidez. Todos me olham com vergonha: sou brasileira em uma área onde a Bolívia coexiste. Estamos na Rua Coimbra, Brás, onde Vásquez descreve como tão importante para ele e seus ‘patrícios’ quanto a avenida Paulista é para os paulistanos. “É aqui que nos sentimos em casa”, afirma.

O boliviano de 42 anos chegou a São Paulo em 2002, junto de sua mulher (agora ex), em busca da tão sonhada pós-graduação em Administração. Ao contrário da mulher, que é médica e fez a residência aqui, acabou não fazendo o curso e entrando para os negócios – um tanto óbvio entre os imigrantes bolivianos por aqui: a costura. Embora tenha crescido, conseguido montar sua loja e criado clientes fieis (90% são bolivianos donos de oficinas), pensa não ter conquistado tudo o que imaginava. No entanto, não diz em tom de lamento.

“São Paulo é o paraíso dos negócios. Se você não der certo aqui, não dará em lugar algum do mundo”, pontua. “Ainda quero fazer minha pós-graduação, além de ajudar meus patrícios a terem noções de negócios, de empreendedorismo. É um objetivo pessoal. Veja, a maioria dos bolivianos imigrantes vem sem ideia da língua, da cultura e muitos não têm estudo. Ficam sendo a base do trabalho em oficinas, ganhando mal e trabalhando muito”, destaca.

Para ajudar os conterrâneos tão citados, o boliviano criou projetos, por exemplo, levando uma professora de português nas ruas e bairros para terem aulas. “A apostila, as aulas, tudo é de graça. Nosso lema é ‘aprenda português costurando’”, conta orgulhoso. Além disso, dão minicursos de administração e também trazem dicas para os bolivianos conhecerem São Paulo, ou seja, terem noção de tudo o que existe fora da ilha chamada Rua Coimbra: Luis traz dicas de passeios gratuitos e lugares interessantes para os bolivianos se integrarem com a cidade que os acolheu.

“Os bolivianos não se empenham muito em aprender o português. Isso porque falamos espanhol quase o tempo todo entre a gente e, também, os brasileiros conseguem nos entender no portunhol. Porém, a proximidade das línguas acaba atrapalhando, pois a comunicação é importante na adaptação e integração dentro de um país. E quero que todos os meus patrícios aprendam”, pontua o empreendedor.

O espírito de liderança é nato em Luis. Nas quase duas horas de conversa, me contou de diversos projetos e ideias que possui para a cidade. Aliás, começou a trabalhar em 2014 junto da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, na subprefeitura da Moca, para a implantação de políticas para os migrantes, projeto criado na gestão do atual prefeito, Fernando Haddad. “Fui bastante votado, não só pelos bolivianos, e consegui me tornar conselheiro. Para mim, é importante. Gostaria que, no futuro, os imigrantes aceitos no país pudessem votar. Enquanto não possamos escolher os líderes municipais, estaduais e federais, somos invisíveis para a política. E o Brasil funciona, totalmente, na base da política”, explana.

Ser invisível é difícil para Luis e sua comunidade, ainda muito discriminada. Para o empresário, as características físicas de seu povo é um dos grandes motivos para o preconceito. “O boliviano é tímido, baixinho, moreno. Tem cara de índio – ao contrário de vocês, brasileiros, que é um povo misturado, branco, com hábitos de cuidado e beleza séculos a frente dos nossos. Muitas vezes, quando entramos nos ônibus, as pessoas se afastam, como se tivessem com medo, nojo. E sentir isso dói profundamente na alma. Alguns médicos se recusam a nos atender, muitas escolas não aceitam nossas crianças e, quando aceitam, muitas são vítimas de bullying. Eu me pergunto, sabe? O brasileiro não consegue se lembrar de suas origens indígenas? Aposto que a maioria das pessoas que nos discriminam possui algum parente imigrante – mesmo os europeus, em algum momento, vieram para cá por motivos semelhantes aos nossos”, questiona.

Pergunto a Luis sobre suas impressões da cidade. Sobre o que esperava encontrar em São Paulo e o que realmente percebe. Ele conta que duas características da “Pauliceia” são destacadas em suas terras: a oportunidade e a violência. E ele encontrou as duas nesses 13 anos.

As notícias recentes de roubos (e até assassinato) às casas e oficinas de bolivianos assustam. Isso porque os imigrantes guardam dinheiro em casa, poucos têm contas em bancos. Por que fazem isso? Segundo Vásquez, a cultura de guardar dinheiro em casa vem lá da Bolívia e, em segundo lugar, porque, enquanto não tiram o RNE, identidade dos imigrantes fixos no país, é complicado abrir contas em bancos. “Se 30% dos bolivianos têm conta em banco, é muito. Não estamos acostumados com a cultura da facilidade de crédito, cartão, cheque. Muitos bolivianos, inclusive, acabam se tornando inadimplentes aqui no Brasil, pois compram as coisas em prestações e se perdem”, afirma.

“Não é fácil imigrar, sentimos saudades mesmo quando estamos em um lugar melhor”, finaliza o boliviano. Mas, para ele, valeu a pena. Apesar do preconceito, choque cultural, dificuldades financeiras e burocracias, ele é firme ao dizer que “só tem de agradecer à cidade”.

Vale a pena, Luis? Mesmo? Vale, porque a Bolívia é muito pobre. Vale, porque a cidade, mesmo “muito cara” é um “lugar de oportunidades”. Vale, porque os imigrantes andinos, costurando ou vendendo material para costura, ainda têm a Rua Coimbra, que, apesar do nome lembrar Portugal, em São Paulo, é o “Paraíso dos negócios bolivianos”.

Ana Lis Soares

(Terra – 23/01/2015)



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